O Ártico está a transformar-se numa nova ligação comercial entre a China e a Europa. A rota marítima ao longo da costa russa permite encurtar as viagens entre os dois continentes, mas o avanço conjunto de Pequim e Moscovo já é tratado pela NATO como um problema de segurança.
A chamada Rota Marítima do Norte liga o oceano Pacífico ao Atlântico através das águas do norte da Rússia. O percurso apresenta-se como uma alternativa ao Canal de Suez, embora continue condicionado pelo gelo e por uma época de navegação relativamente curta.
China procura ligação mais rápida à Europa
Pequim pretende utilizar as rotas do Ártico para transportar mercadorias chinesas para a Europa e receber petróleo, gás e outras matérias-primas russas. A viagem pode ser consideravelmente mais curta do que o percurso convencional através do Canal de Suez.
Esta intenção não é recente. Na sua política oficial para o Ártico, publicada em 2018, o Governo chinês apresentou o projeto de uma “Rota da Seda Polar” e incentivou as empresas nacionais a participarem na construção de infraestruturas e em viagens comerciais experimentais.
O mesmo documento prevê a criação de um corredor económico marítimo entre a China e a Europa através do oceano Ártico. O crescente isolamento internacional da Rússia deu agora um novo impulso a esta estratégia.
Rota ajuda Rússia a transportar energia sancionada
A cooperação permite a Moscovo encontrar compradores para parte da energia afetada pelas sanções ocidentais. Para a China, representa o acesso a petróleo e gás russos e a uma ligação comercial que não depende das rotas marítimas tradicionais.
O projeto Arctic LNG-2, localizado no Ártico russo, encontra-se abrangido por sanções norte-americanas e por restrições da União Europeia (UE). O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos também colocou na lista de sanções o navio de transporte de gás natural liquefeito Christophe de Margerie.
A UE proibiu novos investimentos e o fornecimento de bens, tecnologia e serviços destinados à conclusão de projetos como o Arctic LNG-2. Também restringiu a utilização de instalações europeias para transferir gás russo para países terceiros.
NATO alerta para avanço sino-russo
O crescimento da presença chinesa não é visto apenas como uma questão comercial. A NATO considera que Pequim procura ganhar acesso a fontes de energia, minerais críticos e novas linhas de comunicação marítima.
A organização destaca ainda o aumento da atividade militar russa no Ártico, incluindo a reabertura de instalações da era soviética, a construção de portos e aeródromos e o teste de novos sistemas de armamento.
Em julho, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, afirmou existir um risco elevado de a Rússia e a China aumentarem progressivamente o acesso à região. A Aliança lançou, entretanto, a operação Arctic Sentry para reforçar a vigilância e a capacidade de defesa no extremo norte.
UE teme dependência estratégica
A responsável pela política externa europeia, Kaja Kallas, alertou durante a Conferência Arctic Frontiers para o risco de rotas comerciais e cadeias de abastecimento serem utilizadas como instrumentos de pressão.
A preocupação europeia passa pela possibilidade de a China ganhar influência sobre uma passagem marítima estratégica controlada pela Rússia. Além do comércio, estão em causa o acesso ao Atlântico Norte, as infraestruturas energéticas e as ligações entre a Europa e a América do Norte.
Pequim rejeita ideia de “ameaça chinesa”
O Governo chinês apresenta uma posição diferente. Pequim afirma que pretende utilizar o Ártico de acordo com o direito internacional e defende uma cooperação baseada no respeito, na sustentabilidade e no benefício económico dos países envolvidos.
No entanto, os próprios documentos oficiais chineses confirmam o objetivo de desenvolver rotas regulares, explorar recursos naturais e participar mais ativamente na governação da região.
Gelo ainda limita a nova rota marítima
A Rota Marítima do Norte continua dependente das condições meteorológicas, de navios preparados para navegar no gelo e, em determinadas zonas, do apoio de quebra-gelos.
Contudo, a redução do gelo sazonal está a tornar estas águas acessíveis durante períodos mais longos. Para a China e a Rússia, a rota representa uma alternativa comercial e energética; para o Ocidente, constitui uma nova frente de competição estratégica no Ártico.
















