O possível regresso do fenómeno El Niño está a aumentar a preocupação com episódios meteorológicos extremos em várias regiões do mundo. Embora Portugal esteja longe do Pacífico tropical, onde o fenómeno se forma, os seus efeitos indiretos podem juntar-se a um cenário já marcado pelas alterações climáticas, temperaturas elevadas e maior quantidade de vegetação disponível para arder, aumentando assim o risco de incêndio em território nacional.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) estima uma probabilidade de 80% de o El Niño se desenvolver entre junho e agosto deste ano. A possibilidade de o fenómeno permanecer ativo até, pelo menos, novembro aproxima-se ou ultrapassa os 90%, embora continue a existir incerteza quanto ao momento em que atingirá o máximo e à intensidade final.
Em Portugal, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) sublinha que o sistema ainda se encontrava numa fase neutral no início de junho.
Contudo, as previsões sazonais apontavam para uma transição para El Niño entre junho e julho, com uma intensidade que poderá variar entre moderada e forte.
Comissão Europeia (CE) antecipa um fenómeno muito intenso
Uma análise do Centro Comum de Investigação da CE admite que o El Niño de 2026 e 2027 poderá atingir uma intensidade muito elevada. O organismo considera mesmo possível que o evento se torne muito forte ou ultrapasse os precedentes históricos, embora os cenários mais extremos envolvam necessariamente maior incerteza.
Os efeitos mais significativos deverão ser sentidos nas regiões tropicais e subtropicais, onde poderão aumentar os períodos de calor extremo, as secas e as chuvas intensas. A análise prevê que o calor se intensifique a partir de setembro, atinja um máximo entre dezembro de desde ano e fevereiro do próximo ano, e permaneça em algumas zonas durante a primavera seguinte, segundo o Centro Comum de Investigação.
A agricultura está entre os setores mais expostos. A produção de trigo duro poderá ser especialmente afetada, enquanto os preços do milho, do arroz, da soja e do trigo de inverno também poderão sofrer alterações, dependendo da região de cultivo e da intensidade alcançada pelo fenómeno, explica a CE.
O El Niño poderá ainda agravar situações de insegurança alimentar, deslocação populacional e conflito em países que já enfrentam crises humanitárias. África Oriental e Central, o Corredor Seco da América Central e algumas áreas do sul e sudeste da Ásia estão entre as regiões identificadas como particularmente vulneráveis pelo Centro Comum de Investigação.
Efeitos diretos em Portugal serão reduzidos
Apesar da dimensão global do fenómeno, não é possível estabelecer uma ligação direta e simples entre o El Niño e o estado do tempo em Portugal. “Embora o El Niño ocorra no Oceano Pacífico, pode influenciar os padrões climáticos à escala global. No entanto, os seus efeitos em Portugal não são diretos nem previsíveis de forma simples”, esclarece o IPMA.
Carlos da Camara, investigador sénior do Instituto Dom Luiz, compara a propagação dos efeitos do El Niño aos círculos formados por uma pedra lançada num charco. A perturbação começa no Pacífico Central e perde intensidade à medida que se afasta, pelo que a influência direta sobre a Europa e, em particular, sobre a Península Ibérica é muito reduzida, explicou o climatologista à Euronews.
Isso não significa, porém, que Portugal esteja completamente protegido. Um El Niño forte pode alterar padrões atmosféricos noutras partes do mundo e contribuir indiretamente para mudanças na circulação global, num contexto em que o aquecimento do planeta já favorece temperaturas mais elevadas e fenómenos extremos.
A CE admite que um evento suficientemente intenso poderá alterar o padrão habitualmente associado ao El Niño na Europa. Em vez de temperaturas de outono inferiores ao normal, algumas regiões europeias poderão registar condições mais quentes, com o calor a aumentar em direção à primavera de 2027, de acordo com o Centro Comum de Investigação.
Onda de calor e incêndios preocupam climatologista
Para Carlos da Camara, a combinação entre o El Niño, o aquecimento global e as condições existentes no território pode formar um “cocktail explosivo”. “A minha preocupação é que haja uma onda de calor como a de 2003, que foi a maior onda de calor sempre registada na Europa”, afirmou o climatologista à mesma fonte anteriormente citada.
O risco poderá ser agravado pela vegetação que cresceu durante uma primavera chuvosa e pelas árvores derrubadas durante a sucessão de tempestades que atingiu Portugal no inverno. Todo esse material vegetal poderá secar rapidamente caso se registe um período prolongado de calor, aumentando a quantidade de combustível disponível para alimentar incêndios.
“Se isso acontecer, como tivemos aquele comboio de tempestades ligado à depressão Kristin que levou ao derrube de milhões de árvores, sabemos que temos muito mais biomassa disponível para arder, não só porque tivemos uma primavera muito chuvosa, como temos agora esse excesso de biomassa devido às árvores caídas. Podemos, por exemplo, ter um incêndio de grandes proporções, isso numa época muito complicada”, alertou.
O especialista ressalva, no entanto, que a ocorrência de uma onda de calor semelhante à de 2003 não pode ser antecipada com certeza. As previsões meteorológicas tornam-se menos fiáveis à medida que aumenta a distância temporal, pelo que valores extremos apresentados por alguns modelos devem ser interpretados com prudência e acompanhados através das atualizações oficiais do IPMA.
Que é o El Niño?
O El Niño é a fase quente de uma oscilação natural do sistema formado pelo oceano e pela atmosfera no Pacífico tropical, conhecida pela sigla ENSO. Durante este fenómeno, as águas superficiais de uma vasta zona do Pacífico ficam mais quentes do que o habitual, provocando alterações nos padrões de vento, temperatura e precipitação em várias partes do mundo.
O fenómeno não é provocado pelas alterações climáticas, mas os seus efeitos podem ser reforçados por um planeta mais quente. O El Niño de 2023 e 2024 esteve entre os cinco mais fortes de que há registo e contribuiu para as temperaturas globais excecionalmente elevadas observadas em 2024, recorda a Organização Meteorológica Mundial.
António Guterres defendeu que o mundo deve encarar a situação como um aviso climático urgente. “O El Niño irá intensificar ainda mais o aquecimento global. Os seus impactos serão mais severos, irão mais longe e atravessarão fronteiras com velocidade devastadora”, afirmou o secretário-geral das Nações Unidas, numa declaração divulgada pela OMM.
Leia também: Restaurante pode recusar a casa de banho a quem não consome? A resposta está na lei
















