Na reta final de 2025, uma mudança histórica promete mexer com hábitos do dia a dia e marcar o fim de uma era com séculos. A Dinamarca vai tornar-se o primeiro país europeu a acabar, de forma permanente, com a distribuição pública de cartas: a PostNord, empresa estatal de correios, prevê entregar a última carta no final do ano, numa decisão justificada pelo colapso do volume de correspondência em papel e pela digitalização acelerada dos serviços.
De acordo com o jornal espanhol AS, a medida marca um corte com mais de quatro séculos de tradição postal no país e resulta, segundo a empresa, da queda continuada no envio de cartas, ao mesmo tempo que cresce o peso do negócio de encomendas.
Os números citados por vários meios internacionais apontam para um recuo nos correios superior a 90% desde o início do século, com a correspondência a cair de cerca de 1,4 mil milhões de cartas por ano para perto de 110 milhões.
O que muda e quando entra em vigor
A PostNord afirma que a distribuição de cartas em território dinamarquês termina no final de 2025 e que, a partir de 2026, a empresa se irá concentrar numa única área: a entrega de encomendas.
O avanço da digitalização é uma das explicações centrais para a quebra na procura do serviço tradicional. Uma estatística oficial da plataforma MitID indica que 96,95% da população dinamarquesa com mais de 15 anos tem MitID ativo, ferramenta usada para aceder a serviços públicos e privados, reduzindo a dependência de comunicações em papel.
Na prática, o Estado deixa de assegurar a distribuição de cartas como serviço público operado pelos correios da PostNord, mas a correspondência física não desaparece do país, passando a ser garantida por um operador privado.
Quem passa a entregar cartas e o que muda para os utilizadores
A partir de janeiro de 2026, a empresa privada Dao deverá assumir o grosso da distribuição de cartas, com planos para aumentar a capacidade anual de entregas.
De acordo com a informação divulgada, os utilizadores terão de recorrer a pontos físicos da Dao para expedir correspondência ou pagar um valor adicional por recolha ao domicílio, com a gestão do porte a ser feita sobretudo por meios digitais, como app ou portal online.
A legislação dinamarquesa prevê que continue a existir uma via para envio de cartas; ou seja, caso o operador designado deixe de assegurar o serviço, o Estado terá de encontrar alternativa.
Impacto: despedimentos e retirada de marcos urbanos
O fim do serviço público de cartas tem também uma dimensão laboral e logística. As previsões apontam para cerca de 1.500 despedimentos numa força de trabalho total de 4.600, numa reestruturação associada ao novo foco no segmento das encomendas.
Está igualmente prevista a retirada de cerca de 1.500 marcos urbanos, os tradicionais marcos postais vermelhos, que, segundo relatos, já despertaram interesse de colecionadores e de pessoas nostálgicas.
Para o Governo, a transição deverá ter impacto reduzido na maioria da população, precisamente porque a comunicação oficial e bancária está, em grande parte, digitalizada há anos.
As críticas: o risco para idosos e zonas rurais
Apesar da leitura oficial, há alertas sobre o efeito da mudança em grupos mais vulneráveis. Associações de idosos e vozes políticas têm chamado a atenção para quem continua a depender de cartas com regularidade, nomeadamente em contextos de menor literacia digital.
É esse equilíbrio, entre eficiência económica e acessibilidade, que agora se coloca: como garantir que a digitalização não deixa para trás quem não consegue, ou não quer, transitar totalmente para o digital.
Com esta decisão, e de acordo com o AS, a Dinamarca torna-se um caso pioneiro na Europa e um sinal de tendência para outros mercados, num momento em que o correio tradicional perde terreno para plataformas digitais e para a logística de encomendas.
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