A estabilidade de um emprego convencional com horários fixos é o objetivo de muitos trabalhadores, mas para outros representa uma prisão da qual é necessário escapar. A troca de uma profissão segura pela incerteza da venda ambulante pode parecer arriscada, mas para quem procura liberdade, o valor monetário assume um papel secundário face à qualidade de vida. Um vendedor em Tenerife partilhou os detalhes financeiros e logísticos desta opção radical.
O protagonista desta mudança é Ángel, um homem de 59 anos que decidiu alterar o rumo da sua carreira profissional há quatro anos. De acordo com o Noticias Trabajo, portal espanhol especializado em emprego e economia, a história deste vendedor ganhou visibilidade através de um vídeo documental onde mostra a realidade crua de quem vive do comércio de rua.
Apesar de ser cozinheiro profissional e ainda fazer alguns turnos, Ángel optou por deixar o trabalho a tempo inteiro para se dedicar à venda de pulseiras artesanais. O vendedor explica que se cansou da vida monótona e das exigências horárias da restauração, justificando a mudança radical com uma sensação de liberdade plena: “Aqui tens vida, procuras a vida e isso é o importante”.
Rendimentos oscilam drasticamente
A vertente financeira deste negócio informal é marcada por uma imprevisibilidade constante que exige uma gestão rigorosa. As pulseiras são vendidas, na maioria dos casos, ao preço unitário de um euro, o que obriga a um volume de vendas elevado para garantir o sustento diário.
Indica a mesma fonte que existem momentos excecionais, como os dias de jogo de futebol do Tenerife, onde o negócio atinge o seu pico. Nessas ocasiões, Ángel relata ter conseguido vender cem pulseiras em menos de uma hora, faturando o equivalente a cem euros num curto espaço de tempo.
No entanto, a realidade quotidiana é habitualmente mais modesta e incerta. Num dia considerado normal ou fraco, marcado pelo mau tempo ou pouca afluência, o vendedor regressa a casa com vinte ou vinte e cinco euros, perfazendo uma média mensal que pode rondar os 600 euros, complementada por trabalhos pontuais na cozinha.
Uma rotina exigente e estratégica
Ao contrário do que se possa pensar, a venda ambulante não se resume a colocar uma banca e esperar pelos clientes. O dia de trabalho começa por volta das dez da manhã e pode estender-se até às cinco da tarde ou, em épocas festivas como o Natal, até às nove da noite.
Explica a referida fonte que a mobilidade é essencial para o sucesso das vendas. Ángel não permanece fixo num único local, deslocando-se estrategicamente para zonas onde atracam navios de cruzeiro, para o centro da cidade ou para as praias, dependendo sempre do fluxo de turistas existente.
A habilidade manual é outro requisito fundamental, com o vendedor a dominar a técnica de macramé. Embora já tivesse experiência prévia com maceteros, demorou cerca de seis meses a aperfeiçoar a rapidez necessária para confecionar pulseiras personalizadas em poucos minutos.
O risco constante da fiscalização
A maior ameaça à estabilidade deste modo de vida reside na ilegalidade da venda ambulante não licenciada. O vendedor admite que o principal receio é a intervenção da polícia municipal, que tem autoridade para impedir a atividade a qualquer momento, lembrando que “é proibida a venda ambulante”.
A interação com as autoridades varia consoante o dia e as ordens recebidas pelos agentes. Por vezes passam sem intervir, outras vezes ordenam que recolha o material ou solicitam a identificação, embora Ángel garanta nunca ter sofrido apreensão de mercadoria ou multas.
Explica ainda o Noticias Trabajo que esta história ilustra a face oculta de muitos ofícios invisíveis. O percurso de Ángel demonstra que a liberdade de horários tem um preço, pago através da incerteza diária e da ausência de garantias laborais.
















