Durante as guerras liberais, um dos períodos mais fratricidas da história portuguesa, D. Miguel contou no Algarve com dois destacados chefes guerrilheiros miguelistas que conduziram a resistência absolutista com notória dureza: o célebre Remexido, alcunha de José Joaquim de Sousa Reis, natural de Estômbar, e Camacho, cujo nome completo era André Camacho Jorge Barbosa.
A naturalidade deste último permaneceu durante muito tempo ignorada. Contudo, uma investigação genealógica permitiu apurar que nasceu em Tavira, na freguesia de Santiago, a 30 de outubro de 1784. Era filho de Francisco Camacho Jorge Barbosa, então alferes de Granadeiros, natural da freguesia de São Pedro de Faro e que, em 1834, já havia alcançado o posto de capitão reformado, e de Maria Teresa do Carmo, natural de Castro Marim.
Os avós paternos eram João Ribeiro Jorge, natural de Faro, e Susana Camacho de Jesus, nascida na freguesia de Santiago de Tavira. O núcleo familiar incluía ainda as irmãs Isabel, nascida em 1789, e Catarina, nascida em 1790, bem como um tio paterno, Manuel Camacho Jorge, natural de Faro, que residia em Tavira, onde era casado com Leonor Josefa.

André Camacho ainda não tinha completado 17 anos quando assentou praça como soldado no Regimento de Infantaria n.º 14. Foi promovido a furriel em 1803, a sargento de brigada em 1808 e a tenente, por decreto de 1809, após se distinguir na ação de Alcântara. Em 1813 alcançou o posto de capitão de veteranos.
Alistou-se na Legião Lusitana e participou nas campanhas da Guerra Peninsular. Combateu entre 1809 e 1813, tendo sido ferido na Batalha de Albuera, a 16 de maio de 1811, e gravemente ferido durante o assalto à praça de Badajoz, em 6 de abril de 1812.
A sua descrição física, consta do seu processo militar, refere que era um homem «alto e seco de corpo». Em 1813, os seus superiores acrescentavam que «he capaz para serviços violentos, e acostumado a fazellos». Contudo, os graves ferimentos sofridos em campanha deixaram-lhe limitações físicas permanentes.
Apoiando fervorosamente a causa de D. Miguel, foi promovido a major e integrado no Batalhão Realista de Tavira. A sua passagem por esta unidade, porém, esteve longe de ser pacífica. O seu processo militar regista acusações de ter «maltratado e injuriado» o ajudante Vaz Guerreiro, bem como de manter más relações com o seu comandante.
Em 25 de março de 1832, durante a parada da missa realizada na Praça da Alagoa, Camacho perguntou ao seu ajudante se trazia «capus». Perante a resposta deste, que alegou pensar que tal adereço era apenas obrigatório para os sargentos, Camacho exigiu satisfações junto do comandante, o coronel Pedro Manuel Tavares Paes de Sousa. Segundo o relato do próprio comandante, afirmou que, caso não obtivesse explicações, «tinha a sua espada para se despicar, passou duas vezes a espada, tirou com as luvas ao chão, mordeu as mãos que verteram sangue».

Uma das páginas mais negras da história algarvia ficou associada ao seu nome. Camacho foi o responsável pelo feroz ataque a Loulé, ocorrido nos dias 23 e 24 de julho de 1833. A guerrilha que comandava protagonizou um autêntico massacre, do qual resultaram cerca de 49 mortos, acompanhado por atos de extrema violência.
De acordo com vários testemunhos da época, alguns dos seus homens aproveitaram a ocasião para torturar, matar e pilhar a população local. Entre os episódios mais brutais encontra-se os atos praticados contra uma proprietária louletana, conhecida por D. Felicidade, “cortaram-lhe os peitos, picaram-lhe o corpo todo com as pontas das baionetas e enfiaram-lhe uma grande estaca pelas suas partes, e depois semiviva, enterraram-na na estrumeira com os pés e mãos de fora”.
Em 1834, Camacho e as suas milícias enfrentaram, na serra de Cachopo, as tropas comandadas pelo barão de Sá da Bandeira. Numa comunicação datada de 3 de março desse ano, relativa às operações militares no Algarve, o futuro marquês informava que: «Pelas 10 horas observámos uma força rebelde comandada pelo Camacho, de 800 a 900 homens, postada nas alturas da serra de Alportel». Estas guerrilhas eram constituídas maioritariamente por camponeses serranos, geralmente mal armados e sem treino militar adequado.
Após a derrota da causa miguelista, Camacho fugiu em agosto de 1834, primeiro para Inglaterra e depois para o Brasil “a fim de evitar a perseguição que lhe moveriam os parentes das vítimas de sua ferocidade e fanatismo pela Causa do Usurpador” (carta do barão de Setúbal para o Duque de Palmela). Regressou a Portugal em outubro de 1842, já abrangido pela amnistia concedida pela lei de 24 de agosto de 1840. Esta fuga estratégica permitiu-lhe evitar o fuzilamento, destino que viria a atingir o seu companheiro de armas, o Remexido. Existem indícios de que continuou a professar convicções absolutistas ao longo da vida. Um ofício confidencial datado de 11 de setembro de 1846, dirigido ao ministro e secretário de Estado dos Negócios da Guerra, refere que André Camacho se encontrava então em Gibraltar. O documento menciona que este oficial amnistiado, que fora «major ao serviço do ex-infante D. Miguel», estava acompanhado por Joaquim José Bento, «capitão de milícias da época da usurpação», levantando suspeitas de que ambos se encontrassem naquele território por motivos políticos.
Já viúvo de D. Maria Inácia de Faria, André Camacho faleceu na sua terra natal, a 6 de setembro de 1856, na freguesia de Santiago de Tavira. Foi sepultado no cemitério da Ordem Terceira de São Francisco.

Apesar da relevância histórica do seu percurso, muitos historiadores locais continuam a ignorar esta figura. No entanto, a sua vida reúne todos os ingredientes de uma narrativa excecional: herói da Guerra Peninsular no combate às tropas napoleónicas, major miguelista e temido guerrilheiro algarvio durante as Guerras Liberais. Ironicamente, o seu companheiro do Barlavento, o Remexido, responsável por uma chacina em Albufeira, é hoje visto na sua terra natal como um herói. O seu nome é utilizado como marca de vinhos, organizam-se passeios turísticos pelos locais onde se escondeu e realizam-se até encenações teatrais inspiradas na sua vida.
Em Tavira, porém, terra do guerrilheiro André Camacho, quase ninguém conhece a sua história. Para o bem e para o mal, André Camacho faz parte da história do Algarve, e esse lugar no passado da região ninguém lho poderá retirar.
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