Pés de Barro, de Nuno Duarte, chegou em abril às livrarias. O autor segue a grafia do antigo AO. Vencedor do Prémio LeYa 2024, foi apresentado por Manuel Alegre, Presidente do Júri, como «Um retrato muito dinâmico e vivo do Portugal dos anos 1960.».
A ação passa-se em 1962, num país “orgulhosamente só”, que decide investir na construção da maior ponte suspensa sobre o Tejo (mas não exatamente a primeira). Uma obra para a qual vão ser precisos cerca de três mil homens: num ano inscreveram-se 10.000 para 3.000 vagas desejosas de trabalhar na construção desse “eldorado de aço” que pagava bem e representava uma oportunidade única num país miserável e onde se passa fome, até porque é imperativo alimentar uma guerra…

Doutorado em Literatura na UAlg
e Investigador do Centro de Investigação em Artes e Comunicação (CIAC)
Uma obra que representa um paradoxo, numa nação que continuava a mandar jovens para manter uma guerra colonial ao mesmo tempo que pretende construir uma ponte. Uma obra que irá mudar para sempre a paisagem da capital, muito especialmente para quem vive em Alcântara (que significa, em árabe, ponte).
O protagonista é Victor Tirapicos, serralheiro de vinte e dois anos, preso durante dois anos por ter roubado pão e batatas num acto irracional de desespero, agora recém-instalado na casa dos tios na zona de Alcântara, no pátio do Cabrinha, onde além da tia Ema que trabalha na fábrica de chocolates Regina, e que todos os dias lhe traz uma sombrinha, e do tio Artur, sapateiro que faz as botas dos jogadores do Atlético, moram muitas outras personagens populares.
Em Pés de Barro revela-se uma voz segura, torrentosa, que lembra, desde as primeiras linhas de prosa distendida, Saramago. Na forma como retrata o povo, como desfilam nomes populares sugestivos (Boa Morte, Tirapicos), a prol humana a erguer uma obra para os grandes que ficam na história, e que são quem deixou o nome às obras. E aqui não falta uma espécie de Blimunda, que não vê por dentro, mas tal como Branca (a de Lídia Jorge) parece ver e ouvir à distância do tempo, capaz até de prever a mudança do tempo e terramotos. Há uma passagem particularmente esclarecedora sobre as capacidades de Dália, a muda, que é deliciosa, até pela ironia associada ao clima repressivo da época:
“não era possível que tivesse ouvido, era bruxedo, só podia, bem dizia a tia Ema que a Dália tinha poderes, estava a dezenas de metros e ainda assim chegou-lhe o sussurro da conversa proibida, o mínimo som que o ar transportou e lhe ressoou nos tímpanos, o Victor sentiu um arrepio por ele acima, viesse a ciência explicar como era aquilo possível, se a PIDE sonhasse que existia um ouvido assim em Portugal de pronto o colocaria ao seu serviço” (p. 153).
A narrativa é omnisciente, e o narrador não se coíbe de fazer uma crítica derrisória do tempo retratado, nomeadamente na denúncia feroz da guerra colonial:
“A guerra em Angola começou nessa altura, Angola para onde Salazar mandou andar rapidamente e em força com palavras assobiadas de homilia, tinha sido seminarista, o professor doutor, a determinação e a religião numa única sentença, curta, decisiva, rapidamente e em força. Não ele, que nunca pisou o solo africano em setenta e dois anos de vida, mas as nossas tropas, os nossos rapazes, os milhares que embarcariam todas as semanas na mesma Alcântara onde se construiria a maior ponte suspensa da Europa. Sabiam lá ao que iam, enfiados como gado em navios, campónios, analfabetos como ele, ainda mal tinham saído das aldeias natais, quanto mais irem para Angola lá tão longe, só a viagem eram dez dias, julgavam que iam de passeio, os inocentes. Mal preparados, mal armados, mal informados, carne fresca e pronta para levar ao forno abrasador de uma guerra. Só nesse ano, os paquetes foram e vieram de Angola dezanove vezes, deixaram lá mais de trinta mil rapazes perdidos no mato e na selva, enfiados nos pântanos, a combater o inimigo e os mosquitos e a malária e a febre e a caganeira, a combater um país inteiro, aos tiros contra qualquer coisa que mexesse.” (p. 19)

Há passagens em que a crítica se torna mais explícita, e assim se rompem inclusive as convenções, pois a voz narrativa dá saltos temporais, com alguns anacronismos, muito provavelmente intencionais, de modo a melhor servir a intenção crítica, como acontece em: “bom era que os trabalhadores fossem todos mudos, ou mudos ou robôs, os robôs também nunca se queixam” (p. 120).
Deixo passagens da Declaração do Júri do Prémio Leya 2024, constituído por Manuel Alegre (Presidente), Ana Paula Tavares, Isabel Lucas, Josélia Aguiar, José Carlos Seabra Pereira e Lourenço do Rosário:
«Pés de Barro tem como pano de fundo a construção da primeira ponte sobre o Tejo em Lisboa, oferecendo-nos um retrato do Portugal dos anos sessenta.
Por um lado, a formação de um exército proletário para a construção da ponte; por outro, as primeiras partidas do exército para a guerra colonial.
Obra que actualiza a tradição do romance político-social, Pés de Barro polariza o seu realismo histórico no quotidiano de um pátio em Alcântara e nas razões de viver dos que nele se acolhem.
Através de movimentos com diferentes horizontes de sentido para concretizar esse signo de logro e desastre em que a ponte se constitui, Pés de Barro encaminha-se para o anúncio metafórico do 25 de Abril.»
«O Victor Tirapicos não sabia as letras, ficou a olhar para a fotografia de como iria ser a tal ponte, uma colossal filigrana de aço com mais de um quilómetro de comprimento entre as duas margens do rio, parecia impossível que não viesse abaixo ao primeiro sopro, uma ponte construída a partir de Alcântara onde viviam os tios, construída a partir de Alcântara até ao outro lado, onde o Cristo Rei a receberia de braços abertos. Não segurou um assobio, custou-lhe a acreditar, a ele e a toda a gente, aos anos que se ouvia falar de uma travessia do Tejo em Lisboa e nada, quem quisesse atravessar o rio que apanhasse um cacilheiro, andavam sempre atrasados, mas existiam e a ponte não. Daquela vez, no entanto, parecia verdade. O Conselho de Ministros, presidido pelo professor doutor António de Oliveira Salazar, tinha decidido adjudicar a obra ao consórcio liderado pela United States Steel Export Company, e se havia coisa que os americanos sabiam fazer era pontes, bastava olhar para a Golden Gate que aparecia nos filmes e que estava de pé havia mais de vinte anos. Ainda assim, era melhor esperar para ver. Seis anos, que era o prazo previsto para a construção, e não outros oitenta e tal como até ali. Lá dizia o editorial no canto da página que alguém fez o favor de ler em voz alta, os povos cansam-se de esperar, mas não se cansam de sonhar.
O contrato para a construção da ponte foi assinado menos de um ano depois. Uma ponte sem nome, chamava-se apenas Ponte Sobre o Tejo quando pontes sobre o Tejo há várias, logo ali em Vila Franca de Xira há uma, mas nenhuma delas será como esta, suspensa, em aço importado dos Estados Unidos da América, setenta mil toneladas dele, a maior encomenda alguma vez feita ao país do John Wayne e do John F. Kennedy, a maior obra pública jamais realizada em Portugal, a maior ponte da Europa, a maior ponte sobre o Tejo.»
«Nuno Duarte nasceu em Sintra, em 1973.
Quando abriu os pulmões, já se respirava em liberdade, mas, para efeitos literários, pode afiançar, sem faltar à verdade, que ainda viveu no tempo da outra senhora.
Quando abriu os olhos, já havia livros em casa. Havia os do pai, que eram do Steinbeck, do Dostoiévski, do Hemingway, do Ferreira de Castro e do Saramago; e havia os de banda desenhada, que eram do Goscinny, do Hergé, do Edgar P. Jacobs, do Christin e do Moebius. Estudou design gráfico no Ar.Co e começou uma carreira na publicidade, onde foi director criativo de algumas das principais agências do mercado e amealhou várias distinções nacionais e internacionais.
O gosto pela leitura e pela escrita, mas, sobretudo, a necessidade de perceber como se fazia, afinal, um daqueles livros como os que havia em casa, levaram-no a tentar. E a tentar. E a tentar de novo.
Pés de Barro é o seu primeiro romance.»
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