Marta Pais Oliveira, voz jovem e segura da nova ficção portuguesa, esteve em Faro no dia 21 de maio de 2025, quarta-feira, entre as 15h e as 18h, para uma Ação de Formação de Curta Duração com professores de vários níveis. O evento decorreu na Biblioteca Municipal de Faro e foi organizado pelo Centro de Formação Ria Formosa, integrado no Agrupamento de Escolas João de Deus.
A passagem da escritora por Faro assinala o início de uma série de Conversas com Autores nacionais que se pretende manter, de forma regular, ao longo do ano letivo. Afonso Reis Cabral foi, entretanto, outro escritor convidado.
O encontro com estes autores, embora direcionado principalmente para professores, é aberto a leitores e público em geral.

Doutorado em Literatura na UAlg
e Investigador do Centro de Investigação em Artes e Comunicação (CIAC)
Escavadoras é o primeiro romance da autora, publicado na editora Gradiva em 2021, laureado com o prémio Revelação Agustina Bessa-Luís 2020.
Na manhã de quinta-feira, dia 22 de maio, data em que se assinala o Dia do Autor Português, a autora esteve ainda na Escola Secundária João de Deus, para um encontro com várias turmas do ensino secundário. A conversa decorreu na Biblioteca Escolar.
A autora teceu um diálogo sobre o processo de criação literária, da imagem ao ritmo e à ideia, sobre leitura e criação na sala de aula, sobre a partilha de influências e ecos, desvendar o trabalho de publicação, da estreia literária, da multiplicação do livro e do texto levado a cena, e ainda, por fim, pretende-se abordar o processo de análise de investigação etnográfica e envolvimento comunitário tendo por base o livro Faina.

A literatura possui a notável capacidade de criar mundos possíveis e amplificar experiências. Mas tem sobretudo o condão de reevocar, sem as cristalizar, experiências e vivências culturais e pessoais que contribuem para uma abertura do real. A partir da sua escrita, onde conflui um romance de estreia premiado, um conto igualmente premiado – e que pode facilmente ser lido por professores e alunos – e uma novela infantojuvenil, a autora propõe aos participantes compreender como se desencadeia o processo de criação literária, como se transformam imagens, memórias e fragmentos do quotidiano em textos que respiram além do agora e se podem transformar em literatura. Propõe-se ainda uma apresentação prática de como a investigação etnográfica contribui para reforçar a memória coletiva e o eco comunitário. Sendo este um romance sobre comunidades piscatórias no norte do país, propõe-se ainda cruzar a sua leitura com a realidade do sul do país, em que os destinatários desta formação se inserem, num meio que, gradualmente, assolado pelo turismo, corre o risco de se tornar apenas memória, pelo que urge saber proceder e salvar um registo.
Os romances da autora estão publicados pela Gradiva.
Faina
Faina marcou o regresso à ficção de Marta Pais Oliveira, depois da estreia já promissora anunciada com Escavadoras.
Faina é um romance poderoso, com uma voz única, inovadora, que surge dividido em duas partes, que parecem corresponder a um antes e um depois. No início do século XX convivem pescadores e alta burguesia, empresários, intelectuais e artistas numa praia à beira do Atlântico.
O livro resulta de um aturado trabalho documental e explana as técnicas da arte xávega, que corre aliás o risco de desaparecer. Os lucros da venda do livro revertem aliás para uma das companhias que ainda sobrevive: quando a autora escreveu o romance havia ainda duas.

No Algarve temos também um caso que ainda sobrevive, o da arte xávega da Meia Praia, em Lagos. Pela importância desta manifestação cultural, a Câmara Municipal de Lagos tem em curso um processo visando a inclusão da Arte Xávega tradicional da Meia Praia no inventário nacional do Património Cultural Imaterial.
«A linguagem marítima é diferente da terrena. Barco e rede abrem universos muito distintos de enxada ou motoreta. Também essa mudança de língua apaixonou o Ouve Lá. Pudesse enrolar-se como um feto no ventre da onda, pé na boca, olhos que ainda não se sabem abrir, mãos que ainda são punhos de brincar, tão frágeis. No mar as mãos não precisam de punhos prontos para o combate. Se existe luta, o mais sensato é o corpo não resistir, não entrar em braço de ferro com o manto líquido.»
Este é um retrato do dia a dia de uma comunidade piscatória do norte do país, numa terra nunca nomeada, num tempo nunca explícito. Uma das personagens, que surge como testemunha, como possível alegoria da própria autora – que conviveu, conversou, documentou com estas gentes -, é o fotógrafo:
«O fotógrafo tenta vir todos os verões. Afeiçoou-se à terra, às portas que estão abertas e às que permanecem fechadas. Repete as mesmas perguntas, o que é ser pescador?, manda mais o homem ou o mar?, se pudesse escolhia outra vida?» (p. 125)
Nesta comunidade não faltam ainda elementos mágicos ou fantasmagóricos, como o polvo prateado, que poderiam remeter este romance para o domínio do realismo mágico. O mágico dá ainda lugar ao insólito quando, na semana da Grande Pesca, os pescadores arrastam as redes pelo areal e dessas redes saem coisas nunca antes vistas a sair do mar, como uma cadeira de pinho, uma mala fechada com aloquete dourado, um homem de fato, que afinal ainda estava vivo e depois fica a rondar por ali, como um mau agouro do que se aproxima. Das redes aproveita-se ainda uma grafonola, funcional.
O tempo, ainda que (como se referiu) nunca seja explicitado, não deixa de ser facilmente percetível, lançando o leitor para uma época em que a faina se faz de forma artesanal, numa era ainda intocada pela tecnologia, com prenúncios de mudança e de revolução. A segunda parte do livro («Brotam sonhos das latas de conservas») segue-se, afinal, à cisão que parece constituir a chegada da indústria das conservas, numa fase em que o mar, entretanto parece ter galgado a costa e submergido o espaço.
As próprias personagens são designadas de forma genérica, sem nomes comuns de batismo, como A do Mar, A do Moreno ou a Senhora da Fábrica.
Um fresco sobre homens e mulheres, mas sentido sobretudo no feminino, como se a autora tentasse resgatar a mulher ao seu devido lugar, numa técnica que está desde sempre interdita à mulher. Ainda hoje, no Algarve, não será comum ver uma mulher entrar num barco de pesca, ainda que possa dedicar-se a outras atividades, como a apanha do lingueirão. Esta gente vive perdida num modo de vida que se esvanece com o tempo, divididos entre o cansaço a fome a carestia e a solidão, entre a espera e os sonhos, num meio onde os contrastes sociais se acentuam e o mar e a tradição se diluem com a chegada do progresso da indústria das latas, com a sua magia própria, que mais parecem brinquedos, cheios de cor e encanto, e com sardinhas sem espinha.
«O processo é tão engenhoso que uma operária pode fechar dez mil latas redondas ou seis mil quadrilongas num só dia.» (p. 206)
O final do livro, cuja prosa ganha na segunda parte uma natureza cada vez mais fluída, numa escrita solta e livre, sem âncoras na linguagem e sem freios na imaginação, adquire contornos metafóricos, quase místicos, tentando desmistificar superstições culturais e quebrar tabus, anunciando, insinuando?, a criação de uma companha de faina de mulheres.
O próprio futuro, o desconhecido, irrompe na forma de uma vaga, com o avanço do mar que desespera a comunidade e ameaça submergi-la.
Faina remete ainda de forma muito curiosa para esse outro grande romance da autora Lídia Jorge, O Cais das Merendas, que retrata igualmente um Algarve rural que se perde num novo modo de vida, quando o turismo invade as costas do sul e até a língua ganha plasticidade e importa vocabulário.
A questão da língua, enfatize-se, parece ser aliás central ao processo da autora, na forma como em algumas passagens escreve de forma torrentosa, num processo como o da livre consciência. Há aliás diversas passagens em que se reflete justamente sobre o processo de escrita: «os escritores não são guardiões da língua, são agitadores da língua. Malabaristas da língua, artesãos. Podem pegar numa palavra e torná-la outra. Acrobatas! Escrever é trair.» (p. 283)
«Praguejam todas e ficam em silêncio. A maior parte dos silêncios são mascarados, não se disse tudo, a qualquer momento — dois minutos depois, vinte anos passados — explode a resposta. Acumula-se tudo debaixo dos olhos, que a vida também se mede pelo tamanho das olheiras. Ou a noite. Ou o sono. Ou a dor. Ou o prazer. Ou essa resposta que ficou por dar. É esse o mistério das olheiras – cabem mundos lá dentro. Mas os silêncios tendem a gritar qualquer coisa que não se disse, não se disse tudo pelas circunstâncias, mais por falta de coragem. Pois ali todas as circunstâncias são de coragem, doa a quem doer, e os silêncios belíssimos, inteiros, sem mais nada a dizer. Isso opera verdadeiros milagres no espírito. E, por isso, estas mulheres andam mais altas do que são.»
Tenho os Olhos a Florir
Tenho os Olhos a Florir é a incursão de Marta Pais Oliveira na ficção infantojuvenil. Um livro que na verdade se direciona sobretudo para aqueles que ainda se deixam deslumbrar, pela leitura como porta de entrada para novos mundos, pelo sonho, pela arte. Este pequeno livro, publicado pela Gradiva Júnior, tem ilustrações de Maria João Neves. Sobre este livro infantojuvenil, Afonso Cruz declarou que: «Este é um daqueles livros que voam e, mais importante, cumprem a promessa do seu título: fazer os olhos florir.»
Como anunciado na capa, é uma «celebração do livro e da liberdade».
A sinopse sintetiza que:
«O céu desta história está pintado por um bando voador que nem sempre se deixa apanhar – ou domesticar. Mas um dia alguém exige que se capture um pequenino e raro manual de instruções de como fazer um herbário. Aí começa uma grande confusão. Como se resiste a uma imaginação encolhida? Como se ergue um olhar curioso que sabe que conhecer é cuidar, e cuidar é amar?»

Numa prosa poética, metafórica, rica em imagens, a narrativa parece desenvolver a premissa contida nos versos de Manuel António Pina que surgem em epígrafe:
A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros.
(enquanto os pássaros não acabarem).
Há avós que se sentam em bancos de jardins a vê-los pousar. Por vezes, para criar estardalhaço, atiram várias migalhas de uma vez só. Há quem não saiba identificar as espécies, mas também há quem não se deixe enganar e distinguir claramente um ensaio de um romance, ou que saiba quais os que se alimentam de gargalhadas e os que vivem num arrepio. O certo é que no bando voador todas as espécies gostam do toque humano. Precisam dele.
«Já poucos restavam no céu e as pessoas regressaram aos empregos e rotinas de sempre. Voltava a normalidade. Enquanto esta engordava, os livros emagreciam, ficando cada vez mais espaço entre uns e outros. Já não se reproduziam e, sem olhares atentos, definhavam. Também as pessoas embruteciam e esqueciam conceitos simples. Perdiam ideias como quem perde meias dentro da máquina de lavar.»
Um livro que nos fala por metáforas e analogias, sempre de forma clara e direta, acessível a crianças inteligentes e habituadas a histórias e a puxar pela imaginação. Uma prosa belíssima que pode ser explorada por pais ou por professores, onde uma coisa nem sempre é só uma coisa.
Escavadoras
Escavadoras é o primeiro romance da autora, publicado na editora Gradiva em 2021, laureado com o prémio Revelação Agustina Bessa-Luís 2020.
O júri considerou Escavadoras um “romance que atrai não só pelas vertentes oníricas como a narrativa se organiza, mas também pelo sentimento de perda que une o universo existencial das personagens. Um ponto de vista lutuoso orienta e organiza as relações humanas e, facto não menos relevante, a própria tragédia familiar vivida no romance”.
Muito sucintamente, este primeiro romance toma, de certo modo, como protagonista uma oliveira milenar, frente à qual uma família construiu a sua casa e as suas vidas. Casa essa, e oliveira essa, que agora correm o risco de serem destruídas para que se possa construir uma estrada – realidade esta tão presente no nosso Algarve.

Um livro que se cruza com Faina na preocupação de cruzar os tempos, refletir como passado e futuro entram em choque no devir da modernidade e da massificação, e compreender como se pode manter viva a tradição face ao progresso.
Podemos ler na sinopse:
«Maria e Petrúcio ergueram o lar em frente a uma árvore de raízes fundas e tiveram três filhas: Violeta, Helga e Mariana, que nunca saiu de casa, nem para o parto de Lucília. Alguém começa a ver em duplicado e diz ter encontrado as almas do mundo, alguém se levanta de madrugada para reparar melhor, insânia após insónia. Há quem faça listas intermináveis contra a finitude. Petrúcio emudeceu e assiste aos avanços ameaçadores das escavadoras a esventrar a terra, rondando o terreno. Quem não aceita que lhe corrijam o problema ocular procura a lua em quarto minguante. Essa é a noite do grande incêndio.»
Marta Pais Oliveira nasceu no Porto, em 1990. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Porto e Universidad Complutense de Madrid e pós-graduada em Comunicação Empresarial pela Porto Business School.
Depois de uma breve passagem pelo jornalismo, desenvolveu projetos de comunicação e gestão de marca. Viveu em Moçambique, onde implementou sistemas de ensino à distância. Trabalhou em publicidade e hoje quer ajudar a indústria da moda a ser mais sustentável. Tem vindo a colaborar em jornais como colunista. Escreveu o libreto Maria Magola, levado à cena no Festival Informal de Ópera 2021, assim como Madrugada: as razões de um movimento (MPMP), O Guarda-Rios Mágico (Novaterra e Lipor), e belo é o destino desconhecido (Sinfonietta de Braga).
Publicou poemas em coletivos de poesia e tem dois umbigos: um no corpo e outro em umumbigo.wordpress.com
O seu conto Medula foi Prémio Literário Nortear (Galiza-Norte de Portugal em 2022.
A autora publicou o seu primeiro romance, Escavadoras (2021), prémio Revelação Agustina Bessa-Luís 2020, na editora Gradiva.
Em 2024 foi lançado o livro infanto-juvenil Tenho os Olhos a Florir, sobre o qual Afonso Cruz declarou que: «Este é um daqueles livros que voam e, mais importante, cumprem a promessa do seu título: fazer os olhos florir.»
Como caminhar num pântano, o seu novo romance, a publicar proximamente, foi vencedor do Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho 2025.
Em 2022, teve ainda publicados dois pequenos livros, que constituem contos, O homem na rotunda (Nova Mymosa), que pode ser encomendado no site da Livraria Snob, e Quando virmos o mar (Relógio D’Água).
Leia também: Afonso Reis Cabral: Uma conversa sobre processos de criação | Por Paulo Serra
















