Quando alguém dobra a casa dos setenta anos, como este escriba aqui, começa-se a fazer o balanço de uma geração inteira. Olhando pelo rectrovisor, ressaltam os altos e baixos de uma vida, os progressos e os retrocessos, os acidentes e as recuperações, quer na perspectiva individual de cada um, quer do ponto de vista da sociedade como um todo, local, nacional ou global. Embora com um grau de reivindicação e de exigência crescente até ao absurdo, são inegáveis as conquistas do último meio século. Percorrendo o Algarve em dois traços cruzados, de norte a sul, de barlavento a sotavento, ainda sobra a memória de um tempo com carências de tudo, de luz nas casas e de saneamento básico, de estradas alcatroadas e de escolas, de parques desportivos, de acesso aos cuidados de saúde e à segurança social, de casas decentes e confortáveis para morar, e de empregos com férias, fins de semana, horários laborais, horas extraordinárias pagas, creche para os rebentos e salário certo ao fim do mês, descontando para a reforma.
Basta vir um rio de tempestades com nomes de gente, uma aragem fora do normal que levante as telhas do nosso conforto, e fica de repente a nu a fragilidade de quem se desabituou de viver com pouco ou quase sem nada, o que deve ser a mesma coisa, e não aguenta dois dias sem televisão nem telemóvel. É nestes momentos de tragédia que fica mais evidente a ingratidão de quem pensa que Abril não serviu para nada, excepto para a demagogia em águas mil.
Desconfia-se que o mundo caminha para o abismo, sentimo-nos impotentes para mudar o que quer que seja, fazem de nós bonecos tontos a levar chapada de extremos opostos, sendo cada vez mais difícil escapar à manipulação que forças ocultas orientam, escondidos em nuvens tecnológicas que ninguém sabe ao certo em que cavernas habitam, e cada dia se torna mais complicado distinguir a verdade da mentira, a realidade da virtualidade, oh que cansaço nos vai invadindo a alma, querendo parar este rio de contradições com o dedo indicador. Mas o contraste maior, chocante, aberrante mesmo, falhanço supremo da minha geração, é aquele que contrapõe uma riqueza sem precedentes, de avanços tecnológicos e recursos disponíveis, a uma crise humanitária de proporções alarmantes, marcada pela fome, pobreza e desigualdade crescentes em muitas partes do planeta. Torna-se incompreensível a torrefacção colossal de recursos mundiais em conflitos bélicos, que podiam ser aplicados a dar uma vida condigna a toda a população do mundo.
O ser humano é a espécie mais irracional de todas. Nunca aprende com os erros do passado. E nesta Europa, no ocidente que conhecemos, sempre em guerra desde a queda do império romano, por onde passaram invasões vikings, conflitos religiosos, cruzadas, guerras centenárias, invasões napoleónicas, dois conflitos mundiais de larga escala, uma guerra fria e impactos balcânicos, de novo a batalha bate à porta, e prepara-se para sugar uma parte substancial do nosso futuro.
Que saudades do projecto europeu que durante décadas alimentou o nosso sonho de sociedade baseada numa integração económica e comercial, na institucionalização da cooperação e numa cultura de paz e solidariedade, baseada nos valores democráticos e direitos humanos, assente no intercâmbio entre povos e não numa substituição populacional absurda e desequilibrada. Por onde anda agora? Parecerá absurdo, também, andar com inquietações existenciais destas, em tempo de Carnaval. Mas há tanta máscara à solta, que o melhor é ir até Alte, pequena aldeia-pérola do interior do concelho de Loulé, onde é o povo residente quem ainda faz a festa, atira os foguetes e apanha as canas, num arraial de genuinidade. Por uns momentos, umas horas, ali conseguiu-se esboçar um sorriso sem esforço. Respirar Portugal.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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