Aparentemente existe uma tendência que parece estar a infiltrar-se na fotografia documental de concertos musicais e outros eventos e está, silenciosamente, a perder relevância cultural, quando, na verdade, sempre desempenhou um papel essencial no registo histórico da sociedade. É através dela que conseguimos preservar, de forma visual e relativamente imparcial, momentos, comportamentos e expressões culturais, permitindo que as gerações futuras compreendam e interpretem o passado com maior profundidade.
A recente decisão da artista espanhola Rosalía de proibir fotojornalistas nos seus concertos de 8 e 9 de abril em Portugal levanta questões pertinentes sobre os limites entre controlo de imagem e liberdade de imprensa. Ao restringir a cobertura a texto escrito, elimina-se uma dimensão essencial da narrativa jornalística: a imagem. A fotografia não é apenas um complemento — é, muitas vezes, o elemento mais direto, emocional e universal da comunicação.

Membro da ALFA – Associação Livre Fotógrafos do Algarve
Este não é um caso isolado. No ano passado, em Leiria, Andrea Bocelli exigiu que todo o material captado fosse previamente revisto antes de qualquer publicação. Este tipo de prática sugere uma tendência preocupante: a ideia de que artistas podem atuar como entidades fiscalizadoras do conteúdo jornalístico, aprovando ou censurando aquilo que é divulgado. Ora, isso colide frontalmente com os princípios de independência e liberdade que sustentam o jornalismo.
É possível que, numa era dominada pelas redes sociais, muitos artistas considerem dispensável o papel dos fotojornalistas. Afinal, qualquer pessoa com um telemóvel pode captar e partilhar imagens em tempo real. No entanto, essa democratização da imagem não substitui o olhar crítico, técnico e contextualizado de um profissional. Pelo contrário, abre espaço a uma narrativa controlada, filtrada e, muitas vezes, cuidadosamente construída para proteger interesses pessoais ou comerciais.
No fundo, o que está em causa é a pluralidade de perspetivas. A fotografia jornalística oferece um olhar externo, independente, que nem sempre coincide com a imagem que o artista pretende projetar — e talvez seja precisamente isso que incomoda. A meu ver, há uma crescente tendência para considerar os fotógrafos profissionais como elementos dispensáveis ou até incómodos, quando deveriam ser vistos como parte integrante do ecossistema cultural.
Talvez esteja na altura de promotores e municípios repensarem soluções, criando condições que conciliem o trabalho dos fotógrafos com o conforto dos artistas e do público. Espaços dedicados, menos intrusivos, poderiam ser uma alternativa viável.
Caso contrário, a perda será inevitável. E não apenas para o jornalismo, mas para a memória coletiva. Cultural e historicamente, ficamos todos mais pobres.
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