Diz-se por aí que o Algarve é o jardim da Europa, mas a verdade é que há quem só se preocupe com o canteiro da frente. É difícil aceitar que se continuem a enterrar milhões de euros na areia, em enchimentos artificiais que o mar levará na próxima tempestade, enquanto que, a poucos quilómetros do litoral, a serra morre de sede e de silêncio.
É esta a nossa realidade: gastam-se fortunas para assegurar boas praias ao turista, mas não se investe um cêntimo para segurar as pessoas na sua própria terra. No litoral, as máquinas movem montanhas de areia para que ninguém molhe o pé onde não deve; na serra, as montanhas movem-se sozinhas, mas é no sentido do abandono. É o triunfo do efémero sobre o humano.

Esta inversão de prioridades revela uma escolha política gritante: prefere-se o “Algarve-Cenário” ao Algarve-Território. Queremos areais extensos para quem cá passa uma semana, mas faltam estradas dignas e saúde para quem resiste nas serras do Caldeirão ou em Monchique o ano inteiro. Parecemos aquele anfitrião que gasta o que não tem a polir a prataria da sala, enquanto o telhado da cozinha está a desabar sobre a cabeça da família.
A nossa serra é o calcanhar de Aquiles que ninguém quer tratar. Falta lá a água que se esbanja nos resorts, o médico é uma miragem que aparece de cinco em cinco dias e o transporte público parece uma lenda urbana. Mas a urgência dos orçamentos, essa, está sempre na orla costeira. Talvez porque a serra não renda “selfies” nem alimente o marketing do turismo de massas.
Enquanto o litoral se transforma num parque temático, o interior vai virando um deserto onde a única coisa que cresce é a idade de quem teima em ficar. O mar continuará a reclamar o que é seu e nós continuaremos a pagar a fatura. Entretanto, a serra perde os jovens, perde a agricultura e perde a alma. No Algarve das prioridades trocadas, vale mais garantir o lugar da toalha ao visitante do que garantir que um serrano consegue chegar ao hospital.
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