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Cultura.Sul, Edição Papel

Entrevista ao diretor do Grupo de Teatro Lethes: “Orçamento para a cultura é uma pequena migalha e as autarquias não ajudam”

Emílio Campos Coroa diz que: ➡ Há falta de apoios ao teatro e à cultura ➡ A pandemia penalizou atividade ➡ Continuamos à espera da sede social prometida pela autarquia ➡ A crítica social de Eça de Queirós vai subir ao palco proximamente

11:00 8 Outubro, 2021 10:56 29 Novembro, 2024 | Cristina Mendonça
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Emílio Campos Coroa, diretor do Grupo de Teatro Lethes

Agora que começa a subir o pano de uma pandemia que dura há cerca de ano e meio, que balanço é possível fazer no que respeita às actividades culturais e ao teatro em particular? Em que medida o Grupo de Teatro Lethes foi afetado?
Creio que não é exagero afirmar o reflexo extremamente nefasto da pandemia na sociedade em geral e em todas as manifestações culturais e artísticas no País, quaisquer que se considerem, desde as artes de palco como o teatro, a música, o bailado, às artes circenses.

Naturalmente, aqueles que fazem da arte a sua profissão, foram fortemente penalizados e, na nossa opinião, deveriam beneficiar do máximo suporte financeiro possível, como garante da sua subsistência, porque a arte, nas suas formas diversas, é um património insubstituível na sanidade mental das gentes. No que ao Grupo de Teatro Lethes respeita, veio suspender o trabalho que tínhamos em cena, no salão do Club Farense, gentilmente cedido por aquela distinguida coletividade; tratava-se de “A Relíquia” de Eça de Queirós, cujo último espectáculo ocorreu em 7 de fevereiro de 2020, mas que está disponível para visualização na íntegra no youtube – site maisalgarve – para aqueles que não tiveram oportunidade de ver em tempo real.

Claro que foi um contratempo, pois tínhamos enviado e-mailsa muitas das autarquias do Algarve para propor a apresentação do espectáculo, não tendo recebido qualquer resposta, o que demonstra o impacto da pandemia na nossa atividade. Mas, como é evidente, sendo o Grupo de Teatro Lethes um grupo de teatro amador, não há qualquer prejuízo financeiro.


“Os profissionais da cultura foram fortemente penalizados e deveriam beneficiar do máximo suporte financeiro possível, porque a arte, nas suas formas diversas, é um património insubstituível”


No tempo que durou a pandemia, as atividades culturais de um modo geral receberam alguns apoios do estado ou das autarquias. E o vosso grupo?
Parece-me que a fatia do Orçamento de Estado destinada à Cultura é sempre uma pequena migalha, em comparação com os investimentos que são feitos noutras áreas, nomeadamente o desporto. Não contesto a importância do desporto na vida de cada um e na sociedade em geral, mas julgo que há uma grande desproporção de verbas e mesmo no desporto, as diferenças entre as diversas modalidades são muito consideráveis.

Penso que, apesar do esforço suplementar implementado pelo governo, os artistas profissionais, quer de teatro, quer do cinema, da música sinfónica, da ópera, do bailado, do circo, passaram e ainda passam por graves dificuldades económicas, o que é lamentável. Nós, felizmente, não solicitámos qualquer subsídio para qualquer evento e, como tal, não temos de justificar onde está a verba atribuída.

Aliás, em meu entender, os responsáveis autárquicos pensam sempre que as associações culturais e mesmo as desportivas vão “pedir” alguma coisa, entre elas financiamentos; pois eu penso que as associações vão dar, oferecer os seus préstimos para o enriquecimento cultural e formação desportiva às populações de vários escalões etários dos seus concelhos e, antes pelo contrário, são as autarquias que devem satisfazer a curiosidade das populações acerca do que fizeram ao dinheiro dos contribuintes e quais são os planos futuros, a curto, médio e longo espaço temporal. O Grupo de Teatro Lethes não tem pedido subsídio regular à Câmara de Faro, porque ao longo dos seus provectos 64 anos de idade, tem conseguido constituir património suficiente para as suas produções, mas pergunta à Câmara de Faro quando será cumprida a promessa feita desde 1986 e repetida várias vezes e em público, da construção da sua sede social, a qual viria colmatar uma lacuna importante essencial ao trabalho diário. Esse sim, seria um subsídio, que me parece devido. ainda mais, a uma coletividade de utilidade pública sem fins lucrativos, já agraciada por 2 vezes com a medalha de Ouro da Cidade e que dispunha, por lei, de um subsídio regular anual para a sua atividade, subsídio que foi suspenso, como a outras coletividades, pela câmara presidida, se a memória me não atraiçoa, pelo Sr. Engº Macário Correia.

Julgo saber que esta pausa na representação teatral, abriu espaço para a organização de novas produções e o grupo de Teatro Lethes não esteve propriamente parado. Ou esteve?
Na verdade, esta tara genética, esta inquietude permanente, leva a que estejamos sempre a pensar no que vamos fazer a seguir, contra ventos e marés e enquanto houver capacidades física e intelectual para continuar, sem nos tornarmos ridículos; por isso, analisamos texto atrás de texto, estudamos alternativas, possibilidades, espaços físicos, excluindo dos planos o que nos não parecer exequível, por incapacidade técnica ou humana ou por manifesto desinteresse do ponto de vista de crítica social, beleza estética, atualidade ou diversão.

De facto, temos passado este tempo a trabalhar em particular em dois projetos, sendo um deles uma dramaturgia construída com base em obras de outros autores sobre os múltiplos aspetos da vida e de várias das obras de Eça de Queirós, cujo texto está estabelecido, mas que poderá ainda vir a sofrer algumas alterações, o que iremos averiguar a breve trecho e também noutro projeto, que tem mais de vinte anos, mas que está em evolução constante, que é a elaboração de um livro com o registo de toda a atividade do Grupo, desde o primeiro espetáculo e até ao mais recente, que será ilustrado com fotografias, programas, cartazes, desenhos de cenários, críticas, enfim, com a reprodução de muito do espólio existente, para que no futuro, quem quiser debruçar-se com seriedade sobre a história do teatro em Faro, disponha de uma fonte fidedigna de informação no que respeita a um dos Grupos de Teatro Amador mais antigos do País, sem ter que se conformar com a informação errónea de algumas fontes, que dão o Grupo como “falecido” ou “desaparecido em combate”.


“Pergunta-se à Câmara de Faro quando será cumprida a promessa feita desde 1986 e repetida várias vezes, da construção da sua sede social”


Sei que o grupo vai iniciar o ensaio de uma nova peça. Pode levantar a ponta do véu? Qual o tema central?
A nova peça a que se refere é, provavelmente, a dramaturgia que referi acima, mas não podemos afirmar ainda, neste momento, ser garantido que avance, embora tenha sido pensada, escrita para os recursos humanos que o Grupo dispõe. Para “subir à cena” há ainda um longo caminho a percorrer, sendo que um importante problema a resolver é onde será a cena?

O Grupo ocupou instalações no Teatro Lethes, por convite da Direção da Cruz Vermelha de Faro àquela época, desde 1972 e até 1986, ano em que foi ordenada a saída pela Srª delegada regional do Ministério da Cultura. Estivemos no Lethes apenas 13 anos; hoje é necessário saber em outubro, quais os dias do ano seguinte em que necessitaremos da sala para apresentação de espectáculos, o que é quase uma “Missão Impossível”, porque num grupo amador como o nosso, habituado desde sempre a respeitar compromissos, não podemos saber se há disponibilidade para uma data concreta por parte de todos os amadores envolvidos no espectáculo, a seis ou mais meses de distância.

E também não podemos aceitar que em todos os documentos de divulgação produzidos para o espetáculo tenha que constar “uma produção Acta – A Companhia de Teatro do Algarve”. Para o Grupo de Teatro Lethes, isso representa um ligeiro acréscimo de dificuldades, mas devo lembrar que antes do Teatro Lethes ter reaberto ao público em 1972, a actividade do Grupo ficou marcada por espectáculos de grande beleza estética ao ar livre.

Já depois de termos saído do Lethes, concretizámos alguns, tais como “O Render dos Heróis”, de José Cardoso Pires, na Alameda João de Deus ou “Felizmente há Luar”, de Luís de Sttau Monteiro, em Cacela Velha.

O maior problema que enfrentamos é a renovação do quadro de amadores, porque o mais notável fator que tem permitido a sobrevivência do grupo, é um excelente naipe de amadores muito experientes, alguns acompanham o grupo desde os primeiros espectáculos, o que merece especial relevo, sendo que os mais novos têm 20 anos de teatro, salvo raras excepções. Importa pois assegurar a sucessão e fazer o registo histórico do que foi realizado; É, portanto errónea, para não dizer maliciosa, a ideia que o grupo morreu com os seus fundadores.


“O grupo sem fins lucrativos, já agraciado por 2 vezes com a medalha de Ouro da Cidade, dispunha, por lei, de um subsídio regular anual que foi suspenso, pela Câmara Municipal no tempo da Macário Correia”


O Grupo foi criado, dinamizado e dirigido com a sabedoria e a genialidade de Emílio Campos Coroa, Maria Amélia Campos Coroa e José de Campos Coroa, que souberam rodear-se de grandes e talentosos amadores. Tanto Emílio como Maria Amélia como José de Campos Coroa estão sempre presentes, ainda hoje, no Grupo de Teatro. Mas o grupo já conta com mais anos de sobrevivência após a morte física de Emílio Campos Coroa, do que os 28 anos em que esteve sob a sua direcção. O que deve querer dizer que transmitiram saberes, valores a todos os que os acompanharam e que mantêm o Grupo a funcionar com grande amor ao teatro e um grande espírito de missão, de solidariedade, respeito e amizade entre todos. Poderão contrapor que a importância das coisas não reside no tempo que duram, mas na intensidade com que se vivem; posso assegurar-vos que essa intensidade continua a existir.

O que acontece é que há menor visibilidade, porque existem outros grupos e mais actividades culturais, às vezes com sobreposição de datas e horas e o Grupo não dispõe de uma máquina de marketing para divulgação da sua atividade. Precisamos, portanto, de jovens, amantes de teatro, precisamos da generosidade, vitalidade e combatividade da juventude, apoiada pela experiência e conhecimento dos mais velhos para que o Grupo possa continuar.

O Grupo de Teatro Lethes é provavelmente o grupo mais antigo do Algarve. Como se garante a sobrevivência de um grupo de teatro ao longo de tantos anos?
Esta é uma questão pertinente: como se garante a sobrevivência? Garante-se com a comunhão de objetivos, relegando o que nos separa individualmente para segundo plano, centrando-nos no que nos une: o amor ao teatro, a catarse que cada um de nós faz num espaço comum e partilhado, a defesa intransigente da independência de objectivos político-partidários, uma verdadeira, profunda e grande amizade entre todos, o respeito de cada um por todos e de todos por cada um e um pano de fundo onde assentam valores humanistas essenciais: liberdade, democracia, igualdade, justiça e beleza.

Um palco cheio de aplausos mas vazio de apoios públicos

É um dos grupos de teatro amador mais antigos do país. Fundado em Outubro de 1957, como secção de teatro do Círculo Cultural do Algarve, tem andado quase sempre com a casa às costas. Em 1972, a convite da Cruz Vermelha Portuguesa, vai instalar-se no Teatro Lethes, tomando nessa época o seu nome atual.

Em 1986, por ordem da delegada regional da Secretaria de Estado da Cultura, – que não devia entender a representação teatral como uma forma de expressão cultural – é expulso do Teatro Lethes.

Desde 1989, por cedência da Câmara Municipal de Faro, instala-se num pequeno armazém de vão de escada, ou nem tanto, sem espaço nem dignidade, apenas com capacidade para acomodar o seu património e proceder a ensaios de leitura.

E, no entanto, o Grupo de Teatro Lethes, mantém-se teimosamente vivo, graças à persistência e amor ao teatro de todos os elementos que o compõem e o integraram ao longo destes 64 anos de atividade e do seu diretor, que contra ventos e marés, vão sustentando e mantendo vivo o espírito e o legado do seu fundador, Emílio Campos Coroa.

O seu primeiro espetáculo ocorreu a 23 de maio de 1958, com a peça “Quando a Verdade Mente”, de Costa Ferreira. O mais recente, foi “A Relíquia” de Eça de Queirós. Pelo meio fica um total de 535 espetáculos que envolveram 468 atores. Muitos deles prosseguiram depois as suas carreiras como profissionais das grandes companhias de teatro portuguesas.

Pelo seu passado e respeito pelo seu contributo para a cultura teatral do Algarve e do país, espera-se que um dia o Grupo de Teatro Lethes venha a receber das entidades da cultura e do poder autárquico, – já que Lisboa fica muito longe – os aplausos feitos dos apoios que lhe têm faltado.

Palmas, senhores, para o Grupo de Teatro Lethes e para o seu diretor, Emílio Campos Coroa.

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