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A canadiana Margaret Atwood é romancista, poeta, contista, ensaísta e crítica literária. Crédito: Liam Sharp
Cultura.Sul, Edição Papel, Opinião

A História de Uma Serva, de Margaret Atwood – Um tríptico (entre romance, novela gráfica e sequelas) | Por Paulo Serra

LETRAS & LEITURAS: Artigo de Paulo Serra publicado no Caderno de Artes Cultura.Sul de abril

07:30 3 Abril, 2026 19:47 4 Maio, 2026
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As distopias continuam cada vez mais na ordem do dia, talvez porque na atualidade a História que escrevemos hoje pareça ter tomado algum desvio errado. Como salienta Alberto Manguel no prefácio do livro, A História de Uma Serva funciona hoje como um espelho das injustiças presentes em regimes totalitários pelo mundo, sendo um símbolo de resistência e um alerta para as sociedades contemporâneas.

Publicado originalmente em 1985, A História de Uma Serva tornou-se um dos romances mais influentes da literatura contemporânea. A primeira edição portuguesa é da Bertrand Editora, no ano de 2013.

A obra imortal de Margaret Atwood foi celebrada, em 2025, com uma edição especial do 40.º aniversário, que inclui um prefácio exclusivo do ensaísta, romancista, e crítico literário, Alberto Manguel.

PAULO SERRA
Doutorado em Literatura na UAlg
e Investigador do Centro de Investigação em Artes e Comunicação (CIAC)

Margaret Atwood consegue manter toda a suspensão de um mundo possível que é tão ou mais plausível do que a realidade que hoje vivemos, e fá-lo com a deliciosa ironia e humor a que nos habituou

A edição comemorativa apresenta especificações técnicas distintas, incluindo ilustrações e sprayed edges, reforçando o carácter singular desta publicação da Bertrand Editora. A tradução do romance é de Rosa Amorim e a tradução do texto do prefácio de Alberto Manguel é de Rita Almeida Simões.

Através de Defred, uma Serva da República de Gileade, outrora os Estados Unidos da América, ficamos a saber, sempre de forma gradual e com indicações muito dispersas, como o governo norte-americano foi derrubado por extremistas cristãos e Gileade é agora um país cuja Constituição foi suspensa sem qualquer motim ou resistência, assente em princípios fundamentalistas, onde se nega o direito à individualidade, a sociedade está agrupada em algumas classes privilegiadas principais (as Esposas, os Comandantes, as Martas, os Guardiães), vivem-se tempos próximos de uma Idade Média obscurantista, as mulheres estão proibidas de ler, cita-se a Bíblia como forma de comunicação e ocultando o mais possível as ideias próprias, a poluição e o controlo da natalidade perturbaram gravemente o desenvolvimento demográfico, aboliram-se todas as medidas científicas que visavam auxiliar a gravidez e agora as mulheres férteis são agrupadas entre as Servas para poderem dar às classes privilegiadas os filhos que geram no seu próprio ventre. Defred na verdade não é o nome da nossa heroína, pois esta deixa de ter identidade e apenas tem importância enquanto “barriga de aluguer” capaz de gerar um filho a Fred, pois este nome é um patronímico, composto pelo pronome possessivo e pelo nome do seu dono. Conforme salvaguardado na passagem bíblica do Génesis em epígrafe, quando Raquel se revelou incapaz de conceder um filho a Jacob, ela disse-lhe que fosse buscar a sua serva Bila: «Que ela dê à luz sobre os meus joelhos; assim, por ela, eu também terei filhos.». Fred irá assim passar a possuir (literal e figurativamente) Defred algumas vezes, na presença da mulher. Mas esta mulher, que teve em tempos um nome, teve também um marido que não sabe agora se está ainda vivo e uma filha que lhe foi tirada. A narrativa narrada na primeira pessoa, a partir do ponto de vista de Defred, ajuda-nos a sentir mais proximamente o vazio e a subjugação que vive no quotidiano, à medida que a história alterna entre dois planos iniciando no momento em que a Serva passa a viver na casa do seu novo senhor, à medida que os seus flashbacks nos conduzem pelas suas memórias de um tempo em que tinha uma família com quem era feliz e nos dão conta de como tudo mudou. Se bem que esta Serva tente sempre «não pensar demais» pois: «À semelhança de outras coisas, agora o pensamento tem de ser racionado. Há muitas coisas em que é insustentável pensar. Pensar pode diminuir as hipóteses de uma pessoa, e a minha intenção é durar.» (pág. 16).

Livro A História de Uma Serva é tido como um espelho das injustiças presentes em regimes totalitários pelo mundo

Além da escrita cuidada e intimista da autora, a sua mestria reside essencialmente numa ambiguidade próxima à literatura fantástica em que deixa o leitor em suspenso até finalmente pela página 200 (de 348) descrever o que realmente sucedeu de modo a criar uma realidade como a de Gileade possível, um tempo de totalitarismo onde não há universidades ou advogados em que estas mulheres (e sente-se também aqui o feminismo da autora) não só não podem ler, como devem andar cobertas («Algumas pessoas chamam-lhes hábitos, uma boa palavra para os designar. Os hábitos são difíceis de quebrar» (p. 36), possuem tatuagens no tornozelo como uma «marca de gado», raramente têm acesso a notícias (e que nunca se sabe se não são falsas) e não podem olhar diretamente nos olhos de outros. Mas resta-lhe ainda este poder, não só o de dar vida, mas também o de despertar desejo: «Gosto do poder; o poder de um osso de cão, passivo, mas que está ali. Espero que fiquem excitados por olhar para nós e que tenham de se esfregar colados às barreiras pintadas, sub-repticiamente. Hão de sofrer mais tarde, à noite, nas camas regimentais. Agora não têm alternativa que não eles próprios, e isso é um sacrilégio. Já não há revistas, nem filmes, não há substitutos; só eu e a minha sombra, a afastarmo-nos» (pág. 33).

A cor vermelha está presente de diversas formas ao longo do livro, nos tijolos vermelhos das construções, nas tulipas, na cor dos trajes das Servas, o vermelho do sangue menstrual e da vida, mas também da proibição e das letras escarlates do adultério. O vermelho da luxúria e da paixão que é uma das poucas armas que Defred possui como resistência à colonização do seu corpo.

A novela gráfica que dá vida à obra de Margaret Atwood tem ilustrações de Renée Nault

A História de Uma Serva teve ainda uma adaptação a novela gráfica, cuja primeira edição se esgotou. Ilustrada pela artista Renée Nault, a adaptação a BD regressou às livrarias em março – onde o vermelho é também omnipresente – com uma nova capa, numa belíssima articulação entre texto e desenho, comprovando que um livro não se esgota numa leitura nem numa adaptação à televisão. Mesmo quando esta série registou um enorme sucesso, criada por Bruce Miller.

A história de uma serva foi adaptada a série televisiva pela Hulu, e encontra-se disponível no canal de streaming da Amazon a primeira temporada. Quando estreou, em 2016, era a produção mais ambiciosa e dispendiosa deste canal de streaming com o acréscimo de Elizabeth Moss figurar no principal papel (quem não viu a sua brilhante interpretação em Top of the Lake, série criada por Jane Champion, a realizadora de O Piano). A protagonista é interpretada, de forma brilhante, por Elisabeth Moss, que ao longo de seis temporadas conquistou vários prémios, como 15 Emmys ou o Globo de Ouro para Melhor Série Televisiva de Drama (em 2018).

Mais recentemente, também nos chegou uma nova edição de Chamavam-lhe Grace, de Margaret Atwood. Este livro é um romance igualmente arrebatador, dos melhores da autora, originalmente publicado em Portugal com o título Criminosa ou Inocente? e, entretanto, também foi adaptado a minissérie.

Nos próximos dias será ainda lançada uma nova edição de O Assassino Cego, com tradução de Elsa T. S. Vieira – a 1.ª edição é de 2009. Prepara-se ainda uma nova surpresa, precedida pela reedição de Os Testamentos – que coincide aliás com a estreia, no início de abril, da nova série Os Testamentos, também da Hulu, e disponível na plataforma da Disney. O livro – aqui mostrado com a sua capa original – vai ganhar nova capa, condizente com a adaptação televisiva.

Os Testamentos

Quando estreou, em Abril de 2017, a série televisiva do canal de streaming Hulu que adaptava A História de uma Serva superou todas as expectativas. A série The Handmaid’s Tale tornou-se uma das mais populares dos últimos anos, até pela irónica coincidência de Gileade parecer representar o futuro dos Estados Unidos da América, com a eleição (e reeleição) de Trump. A própria autora chega a aparecer numa das cenas mais perturbadoras da série. Entretanto, as distopias parecem ter-se tornado uma possibilidade cada vez mais próxima – parece aliás que vivemos numa, com esta pandemia, que levou a que praticamente o mundo inteiro se fechasse em casa.

Os Testamentos dá sequência ao romance A História de uma Serva e venceu o Prémio Booker 2019

Os Testamentos, com tradução de Sofia Ribeiro, foi lançado em 2020 com o selo da Bertrand Editora, depois de ter sido lançado internacionalmente em 2019 e é a continuação, ou a conclusão, da história de Gileade, 35 anos depois da obra anterior. A intriga da narrativa tem lugar 15 anos depois do final em aberto de A história de uma Serva, até porque a segunda temporada da série se torna completamente independente da obra de Margaret Atwood. E a autora, depois de obras menos conseguidas como O Coração é o Último a Morrer, está aqui em pleno fôlego criativo, tanto que arrecadou novamente o Booker Prize de 2019 com este livro. A narrativa alterna entre a história de três mulheres, totalmente diferentes: Agnes Jemima é uma jovem já criada no regime de Gileade, filha de um dos Comandantes mais destacados; Daisy foi criada no Canadá, país vizinho de Gileade; e a terceira narradora é uma mulher mais velha, uma das Fundadoras de Gileade, com direito a estátua e a oferendas de laranjas e ovos que roçam a idolatria.

Margaret Atwood consegue manter toda a suspensão de um mundo possível que é tão ou mais plausível do que a realidade que hoje vivemos, e fá-lo com a deliciosa ironia e humor a que nos habituou: «Se queres fazer Deus rir, conta-lhe os teus planos, costumava-se dizer; se bem que, nos dias que correm, a ideia de Deus a rir está muito perto da blasfémia. Um sujeito ultrassério é o que Deus é agora.» (p. 230)

É absolutamente brilhante que se tome como protagonista uma das vilãs do livro anterior, pois a Fundadora é ninguém mais do que a execrável Tia Lydia: um pouco mais humana ou ambígua na série do que no livro, na minha perspetiva… Além de que é também ela que interpela diretamente o leitor, sem qualquer pejo em revelar como a sua mente retorcida e sinuosa é capaz de tecer uma teia de aranha fatal, em que o destino das duas jovens se entretece…

É ainda muito inteligente da autora procurar responder, com esta obra, aos leitores que lhe perguntavam como é que afinal caiu o reinado de Gileade, ao mesmo tempo que tirou partido do sucesso da série e do seu impacto junto de milhares de espectadores para pegar em algumas pontas soltas, mesmo quando estas nada têm a ver com a sua obra original… Por isso, ficaremos a saber o que aconteceu, 15 anos depois, com a Bebé Nicole (este nome é tomado da série), a filha da protagonista do romance anterior, bem como o que aconteceu afinal com Offred (Defred) – este nome é um patronímico, composto pelo pronome possessivo e pelo nome do seu dono.

Romance Chamavam-lhe Grace é baseado numa história real e foi adaptado a uma minissérie

É quase impossível parar ao longo das 450 páginas deste livro, especialmente nas últimas 50 páginas, em que a ação se precipita e os capítulos são cada vez mais curtos, contando apenas o essencial da ação. A primeira parte do livro, contudo, forma-se num lento crescendo, em que as histórias alternadas tornam o cenário de Gileade vívido, ao mesmo tempo que se pressentem as falhas e fraturas que preparam a sua queda, laboriosa e ardilosamente tecida pela mais inesperada das personagens, cujas intenções a autora consegue indiciar muito subtilmente, sem nunca empurrar verdadeiramente o leitor. Além de que é muito difícil não sentir alguma piedade cristã pela Tia Lydia, antes uma poderosa juíza e defensora dos direitos das mulheres, conforme percebemos como foi tratada, assim como as outras mulheres, quando os E.U.A. se transformam no país ultrarreligioso e patriarcal de Gileade.

«Ficarias espantado ao perceber a rapidez com que a mente fica entorpecida na ausência de outras pessoas. Uma pessoa sozinha não é uma pessoa completa: nós existimos na relação com os outros. Eu era uma pessoa: arriscava-me a tornar-me pessoa nenhuma.» (pág. 165)

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