“Sabemos que a nossa liberdade está incompleta sem a liberdade dos palestinos”
Nelson Mandela, Prémio Nobel da Paz 1993.
No século II Cláudio Ptolomeu, historiador, astrónomo e geógrafo grego, definiu três Arábias. A “Arábia Petra”, montanhosa e rochosa corresponde à actual Síria, a “Arábia Desértica” de nómadas dedicados à domesticação de camelos e comércio de caravanas, com duas urbes importantes Medina e Meca, e a “Arábia Felix” que ligava o Iémen, Heydaz (Medina/Meca) e Gaza, litoral próspero e mercantil.
“Médio Oriente” é uma designação surgida na Europa no século XX, referência geográfica simplificadora para uma extensa área na sua maioria desértica, com 5% de terras irrigadas e férteis, entre a Europa, Norte de África e Ásia e ligações ao Mediterrâneo e Índico.
Região densamente povoada junto às bacias hidrográficas do Nilo e Tigre-Eufrates, a Mesopotâmia. A demografia histórica estima que na Antiguidade concentrasse 20% da população mundial, nómadas em sedentarização, a cultura “natufiana” de acampamentos temporários substituídos por casas circulares semienterradas, caçadores e agricultores com meios de subsistência que garantiam a fertilidade humana.

Sociólogo
O Medio Oriente é há décadas a fogueira permanente da geopolítica mundial, sucessivas guerras, violações de direitos humanos e o actual genocídio de palestinianos confirmado pela ONU e organizações humanitárias internacionais
Etnicamente o Médio Oriente foi habitado por clãs não coincidentes com religiões. As origens genéticas são diversas, grupos humanos da Mesopotâmia, os sumérios, o grupo semita de fenícios, hebreus, árabes e o grupo de indo-europeu, hititas e persas orientais, gregos e itálicos a ocidente,…
O Médio Oriente foi uma confluência de povos que originou extraordinárias civilizações mediterrânicas, geocultura da qual somos herdeiros.
Região encruzilhada de itinerários comerciais, a “rota da seda” vinda da China e a “rota da Índia”, com ligações à península hindustânica e mercados das especiarias. Os portugueses controlaram séculos depois o Golfo Pérsico.
Tarefa complexa é compreender o surgimento na região de monoteísmos, evolução de politeísmos hierarquizados, o “henoteísmo” no qual um dos deuses é superior, reconhecendo outras religiões. O judaísmo étnico do século VI a.C. é exclusivista, o cristianismo de populações marginalizadas pelo poder romano-hebraico e o islamismo, aspiração a um Deus próprio das comunidades arábicas excluídas, são evangelizadores e expansivos.
Os monoteísmos viveram rupturas internas, o Concílio de Niceia de 325 d.C. foi marcante na alteração do cristianismo original e surgimento de movimentos dissidentes.
Com a morte de Maomé o poder islâmico ficou dividido entre três califados, que reivindicaram a sua legitimidade como sucessores do Profeta. Em Damasco os omíadas de Ali genro do profeta, em Bagdad os abássidas de Abu Bakr companheiro de Maomé na hégira e os fatímidas, ramo xiita ismaelita, que dominou o Cairo e o norte de Africa, descendentes de Fátima filha de Maomé.
Datas marcantes foram a fundação do Império Romano do Oriente em 395 d.C, a formação da primeira dinastia islâmica, os omíadas de Damasco em 661 d.C, as cruzadas para retomar a Jerusalém e o Santo Sepulcro entre 1095 e 1291, a invasão dos mongóis de 1285, a tomada otomana de Constantinopla em 1453…
A partir do século XVI-XVII com o declínio do poder marítimo das repúblicas italianas, de Portugal e Castela, ingleses e franceses começaram a dominar e colonizar o Mediterrâneo procurando controlar as rotas comerciais do Oriente.
A França tinha influência em Constantinopla e no Egipto, Napoleão ocupou o Cairo em 1789, levou consigo um exército e 160 artistas e cientistas que procederam a estudos e levaram para França espólios da civilização egípcia.
O canal do Suez, projecto estratégico francês em aliança com o vice-rei do Egipto, foi construído em dez anos por 20 mil trabalhadores egípcios, aberto em 1869. À entrada foi colocada a estatua do francês Lesseps retirada em 1956.
No final da I Guerra Mundial a Conferência de San Remo em 1920 o Médio Oriente foi partilhado em “mandatos”, os franceses ficaram com a Síria, os britânicos com a Mesopotâmia e a Transjordânia.
O Império Otomano derrotado na I Guerra Mundial perdeu a Palestina. Nesse período, os Sau reunificaram a Arábia, nasceu em 1932 a Arábia Saudita. Na Pérsia influenciada por Kemal Ataturk da Turquia tomou o poder Reza Kahn, mudou o nome do País para Irão, foi coroado Imperador iniciando a dinastia Pahlavi.
O sionismo nasceu em Inglaterra no final do século XIX, é um movimento político visando a criação de um Estado judaico na Palestina. O secretário inglês dos Negócios Estrangeiros, Lord Balfour, enviou em 1917 uma declaração ao barão Rothschild, líder judaico, o compromisso do mandato inglês de criar um Estado judaico na Palestina. O movimento de judeus para a Palestina é dinamizado e a emigração cresce.
Os asquenazes, emigrantes judeus saídos da Europa, financiados para comprar terras, são recebidos com distanciamento pelos mizrahim, judeus da Palestina. Desembarcaram a partir de 1930 mais de 200 mil de judeus sionistas e muitos ultrarreligiosos, sucedem-se confrontos com a maioria de palestinianos árabes.
Ben Gurion proclama o Estado de Israel a 14 de Maio de 1948, data em que expirou o mandato britânico, colonos israelitas ocuparam 77% do território, expulsando pela força 800 mil palestinianos, a “Nakba”, que significa a catástrofe. Israel estabelece colonatos, cerca de 4 milhões de palestinianos fogem para vários países sem direito de regresso.
O Medio Oriente é há décadas a fogueira permanente da geopolítica mundial, sucessivas guerras, violações de direitos humanos e o actual genocídio de palestinianos confirmado pela ONU e organizações humanitárias internacionais.
Gaza, parte da “Arábia Feliz” de Ptolomeu, é uma realidade insuportável.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
Leia também: Museus portugueses: história e actualidade | Por Jorge Queiroz
















