O regresso ao mercado de trabalho depois da reforma pode acontecer por necessidade, por vontade pessoal ou devido a uma oportunidade inesperada. Foi o que sucedeu com uma mulher que, depois de ter encerrado o próprio negócio, voltou a trabalhar aos 78 anos no mesmo espaço onde anteriormente tinha mantido uma loja.
Carla está prestes a completar 102 anos
Carla Villa tem 101 anos e completará 102 no próximo dia 28 de outubro. Numa entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera, citada pelo jornal digital espanhol Noticias Trabajo, recordou uma vida marcada pela perda de familiares, pela maternidade a solo e por um regresso inesperado ao trabalho depois da reforma.
A italiana continua a viver na mesma casa familiar, situada na Via San Marco, em Milão. Mudou-se para aquela morada em janeiro de 1927, quando tinha dois anos, o que significa que ali permanece há 99 anos.
No rés-do-chão do edifício funcionava a Drogaria Villa, aberta pelo pai, Luigi. Carla recorda que, naquele período, ainda era possível observar o canal Naviglio a partir das janelas e que precisava de atravessar uma ponte para chegar à escola.
Criou o filho sozinha numa época de preconceitos
Carla foi mãe em 1967 e decidiu criar o filho, Thomas, sem a presença do pai. Conheceu-o no Jamaica Bar, um conhecido ponto de encontro de artistas em Brera, mas a relação terminou antes de descobrir que estava grávida.
Depois do nascimento, o antigo companheiro procurou-a e perguntou se a criança era sua. Carla respondeu negativamente porque já tinha decidido avançar sozinha. A família, nomeadamente os quatro irmãos, apoiou-a e manteve uma relação próxima com o filho.
“Fiz o que quis, mas sejamos claros: não foi nada fácil”, reconheceu. Ser mãe solteira implicava enfrentar fortes preconceitos sociais, mas Carla garante que nunca abandonou as decisões que tomou para a própria vida.
Perdeu um dos irmãos durante a guerra
Um dos acontecimentos mais dolorosos foi a morte do irmão Aldo, aos 22 anos. O jovem partiu como soldado durante a Segunda Guerra Mundial e morreu na Rússia, na batalha do Don.
A mãe, que já se encontrava doente, nunca conseguiu recuperar completamente da perda. Carla era a única rapariga entre cinco irmãos e é atualmente a última sobrevivente da família mais próxima.
“Todos já morreram, mas continuo a recordá-los e a falar com eles, porque as pessoas permanecem aqui depois de partirem, mesmo que seja de forma invisível”, contou ao jornal italiano.
Loja de antiguidades fechou ao fim de 18 anos
Em 1972, Carla abriu uma loja de antiguidades, onde procurava peças antigas para posteriormente as vender. O estabelecimento acabou por encerrar em 1990, depois de cerca de 18 anos de atividade.
O mesmo espaço foi posteriormente ocupado por uma loja de vestidos de noiva. Anos mais tarde, quando Carla já estava reformada e tinha 78 anos, recebeu um convite para substituir temporariamente uma funcionária que se encontrava de baixa devido à gravidez.
A italiana aceitou regressar ao trabalho no local onde tinha mantido o próprio negócio. Apesar da idade e do tempo passado desde o encerramento da loja de antiguidades, descreve aquele período como “uma verdadeira experiência”.
Mantém interesse pela moda e pela atualidade
Carla levanta-se habitualmente entre as 07:30 e as 08:00 e começa o dia com café e bolachas. Não segue uma dieta especial e, ao jantar, escolhe frequentemente frango com legumes ou peixe, reservando ocasionalmente espaço para um gelado de café levado pelo filho.
Aos 101 anos, enfrenta algumas dificuldades de mobilidade e uma deterioração da visão. Dispõe do apoio de cuidadoras financiadas pelo município e do acompanhamento do filho, procurando sair para caminhar pelo bairro quando o estado do tempo permite, de acordo com o Noticias Trabajo.
A moda continua a fazer parte da sua vida. Quando era mais nova, desenhava os próprios vestidos e entregava os projetos a costureiras. Carla recorda ainda ter assistido à reabertura do Teatro alla Scala depois da guerra com um vestido comprido concebido por si.
Um reformado pode voltar a trabalhar em Portugal?
Em Portugal, a regra geral permite acumular livremente a pensão de velhice com rendimentos do trabalho. Esta possibilidade está prevista no artigo 62.º do Decreto-Lei n.º 187/2007 e é confirmada pelo Guia Prático da Pensão de Velhice da Segurança Social.
Existem, contudo, exceções. Uma pessoa que tenha recebido uma pensão antecipada através do regime de flexibilização ou devido a uma carreira contributiva muito longa não pode, durante os três anos seguintes, acumular essa pensão com rendimentos obtidos na mesma empresa ou grupo empresarial.
Também não é possível acumular rendimentos profissionais com uma pensão de velhice resultante da conversão de uma pensão de invalidez absoluta. Fora destas situações, um reformado pode regressar ao mercado de trabalho e receber simultaneamente o salário e a respetiva pensão.
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