As grandes descobertas arqueológicas continuam a lançar novas luzes sobre civilizações antigas e a forma como estas organizavam o seu quotidiano. Na China, uma escavação recente, em julho do ano passado, veio revelar detalhes que podem ajudar a compreender melhor o comércio, a produção artesanal e até a vida espiritual de um dos reinos mais enigmáticos da antiguidade. As ruínas descobertas contemplam vários objetos considerados únicos em ouro.
Uma equipa de arqueólogos identificou, na província de Sichuan, um complexo com mais de 3.400 anos, situado a apenas um quilómetro dos famosos poços de sacrifício de Sanxingdui.
Os investigadores acreditam que este espaço esteve ligado ao antigo Reino Shu, civilização que se desenvolveu entre 2500 e 1000 a.C., e que teve um papel decisivo no contexto da bacia do rio Yangtze, de acordo com a agência oficial de notícias chinesa Xinhua.
Um achado de grande valor histórico
As ruínas de Sanxingdui foram descobertas pela primeira vez em 1920 e abrangem atualmente uma área de cerca de 12 quilómetros quadrados. A região é considerada um dos mais importantes sítios arqueológicos da Ásia, e ao longo de 2024 foram identificadas mais de 400 zonas com vestígios de épocas remotas.
As escavações em Sanxingdui, desde a década de 1980 até às campanhas mais recentes (2020-2024), revelaram:
- Máscaras e estátuas em bronze de grandes dimensões (algumas com olhos salientes, únicas no mundo);
- Artefactos em jade (adornos, lâminas e esculturas rituais);
- Peças em marfim (tanto trabalhado como em bruto);
- Objetos em ouro, incluindo máscaras douradas e folhas finas aplicadas sobre esculturas.
O novo local traz evidências únicas sobre a forma como eram concebidos e trabalhados objetos de grande valor, ajudando a explicar a sofisticação das relíquias encontradas ao longo de décadas em Sanxingdui. Entre os materiais estudados estão pedras em bruto, fragmentos de peças e elementos acabados, que permitem reconstruir parte do processo de fabrico.
Estruturas preservadas durante milénios
De acordo com Ran Honglin, responsável pelas escavações do Instituto de Arqueologia de Sichuan, o espaço conserva fundações, áreas de combustão, valas com cinzas e zonas de transformação de matérias-primas. Para os especialistas, citados pela mesma fonte, este conjunto fornece indícios claros de que se tratava de um centro organizado de produção artesanal.
As estruturas estiveram soterradas durante mais de três milénios, mas mantêm sinais suficientemente visíveis para que se possa compreender como era conduzida a atividade. Esta ligação direta com os tesouros já descobertos em Sanxingdui reforça a ideia de que a região funcionava como um polo de criação e não apenas como local de culto ou armazenamento.
Impacto cultural e científico
Segundo a agência oficial Xinhua, as investigações vão prosseguir para clarificar o papel económico, social e até espiritual que este espaço desempenhava no Reino Shu. A expetativa é de que novas descobertas permitam aprofundar a compreensão da organização produtiva desta antiga civilização e do seu impacto na região do Yangtze, de acordo com a Xinhua.
Além da relevância científica, o achado pode contribuir para consolidar a candidatura de Sanxingdui a Património Mundial da UNESCO.
A importância do sítio, já reconhecida internacionalmente, poderá também reforçar a atratividade turística da província de Sichuan, hoje vista como um dos maiores enclaves arqueológicos do país.
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