O conflito no Médio Oriente está a aumentar a preocupação em torno dos fertilizantes, numa fase importante para a agricultura mundial. O ponto central é simples: quando há perturbações na energia, no transporte marítimo e nas matérias-primas usadas para produzir adubos, o risco de subida de custos propaga-se rapidamente ao longo da cadeia alimentar, agravando o risco de uma crise.
A pressão vem, desde logo, de uma zona estratégica para o comércio mundial. A Agência das Nações Unidas dedicada ao Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) sublinha que o Estreito de Ormuz transporta cerca de um quarto do comércio marítimo mundial de petróleo, além de volumes relevantes de gás natural liquefeito e fertilizantes. A mesma organização refere que a escalada militar iniciada em 28 de fevereiro perturbou os fluxos marítimos naquela passagem, com reflexos nos mercados da energia, nos transportes e nas cadeias globais de abastecimento.
Fertilizantes no centro da tensão
Os fertilizantes são particularmente sensíveis a este tipo de crise porque dependem fortemente da energia. A Comissão Europeia (CE) recorda que o gás chegou a representar até 90% do custo variável de produção dos fertilizantes azotados em momentos de pico e a FAO refere que o gás natural é uma matéria-prima essencial para os fertilizantes nitrogenados. Isso ajuda a perceber porque é que qualquer choque no gás ou no petróleo acaba por pressionar quase de imediato os custos agrícolas.
A própria FAO alertou, em março, para o peso da região na oferta mundial. Segundo a organização, o Médio Oriente tem representado cerca de 30% a 35% das exportações globais de ureia e cerca de 20% a 30% das de amoníaco, além de aproximadamente 30% do comércio de fertilizantes passar pelo Estreito de Ormuz.
Não significa que o abastecimento mundial vá falhar de um dia para o outro, mas significa que qualquer bloqueio ou atraso naquela zona pode ter impacto muito para lá da região.
Europa sente o impacto, mesmo sem rutura imediata
Na Europa, o problema pode surgir mais pela dependência externa do que por uma rutura imediata de stock. A CE, através da sua página oficial relacionada com agricultura, indica que a UE depende de importações para cerca de 30% do azoto inorgânico que consome, 68% dos fosfatos e 85% da potassa. Isto torna o mercado europeu vulnerável a choques externos, sobretudo quando eles atingem energia, transporte e grandes corredores comerciais.
Por isso, mesmo que não haja, para já, falta generalizada de fertilizantes no espaço europeu, o encarecimento continua a ser um risco real. A UNCTAD avisa que custos mais altos com energia, fertilizantes e transporte podem elevar os custos alimentares e agravar a pressão sobre famílias e economias mais frágeis. Ou seja, o impacto pode aparecer primeiro no preço e só depois, em certos casos, na disponibilidade.
Agricultura entra numa fase sensível
O momento também não ajuda. A primavera é uma fase importante em várias geografias do hemisfério norte e a WFP já avisou que esta perturbação surge numa altura em que cadeias de abastecimento, combustível e custos logísticos estão sob pressão. Quando os fertilizantes ficam mais caros ou chegam mais tarde, muitos agricultores são obrigados a rever quantidades, calendários de aplicação ou até as culturas que vão semear.
Esse efeito pode demorar algum tempo a chegar ao consumidor, mas costuma espalhar-se. Menor eficiência na fertilização pode traduzir-se em custos mais altos de produção e, em alguns casos, em menor produtividade. Num mercado global já muito interligado, pequenas perturbações em pontos estratégicos podem gerar consequências em cadeia, da exploração agrícola até ao preço final dos alimentos.
O risco maior está nos países mais frágeis
As consequências podem ser especialmente duras nos países com maior dependência de importações. A UNCTAD assinala que vários países vulneráveis podem ver o acesso a fertilizantes piorar com as perturbações em Ormuz.
Ao mesmo tempo, a WFP diz que 363 milhões de pessoas estão em risco de fome aguda em 2026 e que 45 milhões enfrentam esse risco por causa do conflito no Médio Oriente, o que mostra como uma crise energética e logística pode rapidamente transformar-se também numa crise alimentar.
Para Portugal, o impacto de uma crise alimentar tende a ser sobretudo indireto, mas isso não quer dizer que seja irrelevante. Sendo parte do mercado europeu, o país fica exposto às oscilações internacionais dos fertilizantes, da energia e dos custos logísticos. Se a tensão se prolongar, o efeito mais provável será uma pressão adicional sobre os custos de produção agrícola e, em última instância, sobre os preços dos alimentos.
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