A subida do preço do petróleo provocada pelo agravamento da crise no Irão está a ter impacto direto na economia global e pode refletir-se rapidamente no dia a dia dos portugueses, desde os combustíveis até às prestações do crédito à habitação.
O conflito no Médio Oriente voltou a agitar os mercados internacionais, com o barril de petróleo a subir de preço, valorizando mais de 10% em apenas 48 horas. O Brent, referência para a Europa, passou da fasquia dos 68 dólares para cerca de 82 dólares em poucas horas, e vários analistas admitem que possa aproximar-se dos 100 dólares se a tensão se prolongar, de acordo com o portal especializado em economia Ekonomista.
Papel estratégico do Estreito de Ormuz
No centro desta instabilidade está o Estreito de Ormuz, a passagem marítima que liga o Golfo Pérsico ao Mar Arábico. Com pouco mais de 30 quilómetros de largura no ponto mais estreito, é por ali que circula diariamente cerca de 20% do petróleo consumido no mundo.
Após os ataques dos Estados Unidos da América e de Israel, várias empresas de transporte marítimo suspenderam operações na zona, enquanto o Irão declarou o estreito fechado à navegação. Esta interrupção tem efeitos imediatos na oferta global de crude.
Impacto rápido em Portugal
Portugal é totalmente dependente da importação de petróleo e gás, o que faz com que, sempre que o preço do crude sobe nos mercados internacionais, o efeito acabe por chegar ao mercado nacional, ainda que com algum desfasamento temporal.
Uma subida entre 10% e 15% no barril costuma traduzir-se num aumento de vários cêntimos por litro nos combustíveis ao fim de uma a duas semanas. Caso o Brent atinja os 100 dólares, o impacto poderá ser mais expressivo nas bombas de gasolina, de acordo com a mesma fonte.
Combustíveis, eletricidade e gás sob pressão
O efeito mais imediato sente-se no abastecimento automóvel. O preço praticado em Portugal acompanha as cotações internacionais, ajustadas às margens de distribuição e à carga fiscal.
Mas o impacto não se limita à gasolina e ao gasóleo. Parte do gás natural liquefeito consumido na Europa, incluindo o que abastece Portugal, também passa pelo Golfo Pérsico. Uma disrupção prolongada poderá pressionar os preços da eletricidade e do gás natural, com reflexo nas faturas domésticas e empresariais.
Do supermercado à inflação
O petróleo é matéria-prima de inúmeros produtos do quotidiano, como plásticos, fertilizantes, embalagens e produtos químicos. Quando o custo da energia sobe, aumenta também o custo de produção e transporte ao longo da cadeia de abastecimento.
Esse efeito tende a chegar às prateleiras dos supermercados num prazo de um a três meses, dependendo do setor. Historicamente, choques petrolíferos prolongados são um dos principais motores de inflação. Se a inflação voltar a acelerar, o Banco Central Europeu (BCE) poderá rever a sua política monetária, o que tem implicações diretas nas taxas de juro.
Crédito à habitação pode voltar a subir
Num país onde a maioria dos contratos está indexada à Euribor, uma eventual subida das taxas de referência terá impacto imediato nas prestações do crédito à habitação a taxa variável, refere ainda a mesma fonte.
Se o BCE optar por uma postura mais restritiva para conter a inflação, as famílias poderão enfrentar um novo aumento nos encargos mensais com o banco.
Quando se sentem os efeitos em Portugal
O mecanismo de transmissão não é instantâneo, mas é previsível. Nos combustíveis, os ajustes ocorrem geralmente em uma a duas semanas. Na eletricidade e no gás, a revisão pode acontecer ao longo de semanas ou meses, consoante os contratos.
Nos bens de consumo, o efeito é mais gradual e pode demorar vários meses a refletir-se totalmente no preço final.
O que podem fazer os consumidores
Num cenário de incerteza, há medidas que podem ajudar a mitigar o impacto. Antecipar abastecimentos antes de novas subidas, comparar tarifas de eletricidade e gás no mercado liberalizado e reduzir consumos energéticos são algumas opções.
Quem tem crédito à habitação a taxa variável pode também avaliar as condições oferecidas para uma eventual mudança para taxa fixa, dependendo das propostas disponíveis, de acordo com a mesma fonte.
Quanto tempo pode durar este choque?
A duração do impacto dependerá da evolução do conflito e da reabertura do Estreito de Ormuz. Em crises anteriores no Médio Oriente, os preços subiram rapidamente e recuaram assim que a situação estabilizou.
A OPEP+ anunciou um aumento modesto da produção, inferior a 0,2% da oferta global, medida considerada insuficiente para compensar uma eventual interrupção prolongada do tráfego marítimo.
De acordo com o Ekonomista, também a capacidade de resposta de países como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos poderá atenuar parte do impacto, mas enquanto o Golfo Pérsico estiver condicionado, a incerteza continuará a dominar os mercados energéticos.
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