Apesar dos avanços na ciência médica, a doença de Alzheimer continua a representar um dos maiores desafios para a saúde pública. A ausência de uma cura eficaz e a crescente incidência em populações envelhecidas mantêm esta patologia no cérebro sob investigação contínua por parte da comunidade científica.
De acordo com a Harvard Health Publishing, um estudo recente revelou que a probabilidade de morte por Alzheimer varia de forma surpreendente entre diferentes profissões. Em particular, os motoristas de táxi e ambulância apresentam taxas significativamente mais baixas de mortalidade associada à doença.
Estas conclusões apoiam-se em estudos anteriores, realizados nas últimas duas décadas, que identificaram alterações estruturais específicas no cérebro de motoristas de táxi londrinos. Segundo a mesma fonte, essas alterações surgem, sobretudo, numa região chamada hipocampo, responsável pelo desenvolvimento da memória espacial.
Esta é, aliás, uma das zonas do cérebro mais afetadas pela progressão da doença de Alzheimer. O facto de estes profissionais desenvolverem mais essa área do cérebro levou à especulação de que estariam mais protegidos contra a patologia.
Capacidades espaciais em destaque
Para aprofundar esta possibilidade, investigadores analisaram dados de cerca de nove milhões de pessoas cujas certidões de óbito incluíam informações sobre a profissão exercida. O período de análise abrangeu três anos, abrangendo mais de 443 ocupações distintas.
Segundo a mesma fonte, o estudo concluiu que motoristas de táxi e ambulância apresentavam mais de 40% menos mortes relacionadas com Alzheimer do que a média da população analisada.
Em contrapartida, profissões como pilotos de avião ou capitães de navio registaram algumas das taxas mais elevadas de mortalidade associada à doença. Já os motoristas de autocarro situaram-se mais próximos da média, sem registar o mesmo benefício observado nos condutores de táxi e ambulância.
Outros tipos de demência não seguiram o mesmo padrão
Escreve o artigo que, no caso de outros tipos de demência, não se observou uma redução semelhante da mortalidade entre estes profissionais. A explicação poderá residir na especificidade das funções exigidas a quem conduz táxis ou ambulâncias.
Conforme explica a mesma fonte, estas profissões requerem competências de navegação em tempo real, adaptação constante e orientação espacial, elementos que podem estimular o hipocampo de forma mais intensa e continuada.
Esse estímulo repetido pode ter um efeito protetor, tanto a nível estrutural como funcional, sobre essa zona do cérebro, reduzindo o risco de desenvolvimento de patologias que ali se manifestam, como o Alzheimer.
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Robert H. Shmerling, autor do artigo publicado na Harvard Health Publishing, sublinhou o impacto dos resultados obtidos. Para além da menor taxa de mortalidade, destacou o facto de esses efeitos não se estenderem a profissionais de navegação com rotas pré-definidas, como motoristas de autocarro.
Segundo o mesmo autor, este dado reforça a hipótese de que a estimulação mental constante e imprevisível, típica de quem conduz em tempo real, seja um fator de proteção cognitiva mais relevante do que simplesmente operar um veículo.
Porquê só alguns motoristas?
Os autores do estudo observam que motoristas de veículos com percursos fixos, como autocarros, ou em contextos altamente controlados, como aviões, não apresentam o mesmo padrão de proteção. Isso poderá dever-se à menor exigência cognitiva associada à navegação.
Refere ainda a mesma publicação que essa diferença ajuda a compreender por que razão alguns profissionais beneficiam de um efeito protetor e outros não, mesmo quando trabalham com mapas, direções ou georreferenciação.
Uma hipótese que ganha força
Acrescenta a Harvard Health Publishing que estas descobertas corroboram estudos mais antigos sobre o aumento do volume do hipocampo em motoristas de táxi londrinos, onde exames de imagem demonstraram alterações neurológicas mensuráveis.
Embora não sejam conclusivos, os resultados apoiam a hipótese de que atividades que exigem navegação em tempo real têm um impacto positivo na saúde cerebral a longo prazo.
Limitações reconhecidas
Os autores do estudo alertam, contudo, para limitações importantes: a precisão das certidões de óbito e a impossibilidade de estabelecer uma relação direta entre profissão e patologia.
Apesar disso, segundo a mesma fonte, as conclusões abrem caminho a novas investigações que poderão ajudar a compreender melhor como certos estímulos diários influenciam a saúde neurológica.
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