Analisados primeiro de forma isolada e depois coletivamente, 60 juvenis de robalo fizeram escolhas diferentes perante as mesmas estruturas, revelou um estudo do Fish Etho Group, no Campus de Gambelas da Universidade do Algarve, em Faro, que aponta para a importância do contexto social no bem-estar dos peixes em aquacultura.
O trabalho procurou perceber como os animais respondem a diferentes formas de enriquecimento ambiental, conceito que abrange a introdução de elementos destinados a tornar os espaços de criação menos monótonos e mais adequados às necessidades comportamentais dos peixes.
Os resultados, publicados na revista científica Applied Animal Behaviour Science, mostram que as preferências identificadas quando um peixe está sozinho podem não corresponder às escolhas feitas quando o mesmo animal se encontra em grupo.
Quatro grupos escolheram a estrutura semelhante a um teto
Na primeira fase do estudo, cada um dos 60 juvenis de robalo foi observado individualmente ao longo de quatro rondas de teste. As opções disponíveis no ambiente experimental eram uma zona aberta e três tipos de estruturas: colunas, abrigos e uma estrutura semelhante a um teto.
As respostas individuais variaram. Alguns peixes procuraram sobretudo o espaço aberto, enquanto outros se aproximaram das diferentes estruturas.
As conclusões também mudaram consoante o critério utilizado pelos investigadores. Uma zona podia parecer mais atrativa quando era contabilizado o número de visitas, mas perder importância quando se analisava o tempo que os animais permaneciam nela.
Foi o que aconteceu com o espaço aberto, frequentemente visitado por alguns peixes, mas onde estes passavam menos tempo.
Numa segunda fase, os mesmos animais foram distribuídos por quatro grupos de 15 indivíduos e novamente avaliados no ambiente experimental. Desta vez, todos os grupos convergiram para a estrutura semelhante a um teto.
“Nós frequentemente perguntamos o que um peixe prefere, mas os peixes raramente vivem isolados. O nosso estudo mostra que essa diferença é importante: uma preferência que parece ser altamente individual pode transformar-se numa escolha partilhada quando os peixes têm a oportunidade de responder como grupo”, afirmou Caroline M. Maia, autora principal do estudo.
Contexto social pode sobrepor-se às escolhas individuais
Os investigadores concluem que o contexto social pode sobrepor-se às preferências manifestadas individualmente e conduzir a uma escolha coletiva.
A procura da estrutura semelhante a um teto poderá estar relacionada com a perceção de segurança, com a coesão do grupo ou com a tendência dos peixes para permanecerem em zonas que oferecem cobertura sem limitarem totalmente os movimentos.
Os resultados sugerem, por isso, que este tipo de estrutura poderá contribuir para melhorar o bem-estar dos juvenis de robalo criados em grupo. Os autores alertam, contudo, para a necessidade de novos estudos que avaliem os efeitos a longo prazo e determinem se a mesma preferência se mantém noutras fases da vida dos animais.
Estudo pode influenciar sistemas de aquacultura
O enriquecimento ambiental pode incluir abrigos, zonas de sombra, estruturas que aumentem a complexidade do espaço ou elementos que ofereçam novas oportunidades de exploração.
Estas soluções têm sido estudadas como forma de favorecer comportamentos naturais, reduzir o stresse e melhorar as condições dos animais nos sistemas de produção.
Para os autores, as estratégias utilizadas na aquacultura não devem ser definidas apenas com base em testes realizados com peixes isolados, sobretudo quando estão em causa espécies que vivem e são criadas em grupo.
A principal implicação prática do estudo é que, para compreender as necessidades dos peixes, não basta observar aquilo que cada animal escolhe quando está sozinho. É igualmente necessário avaliar a utilização coletiva do espaço em condições próximas das encontradas nos sistemas de produção.
A.Pinto / HDF
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