O Japão volta a colocar-se na linha da frente do transporte ferroviário mundial com um projeto de alta velocidade que promete mudar a forma como se viaja entre grandes cidades, recorrendo a tecnologia de levitação magnética e a um investimento de dimensão histórica. Em causa está o futuro comboio-bala SCMaglev, pensado para ligar Tóquio ao centro do país em tempos nunca antes vistos.
Trata-se do Chuo Shinkansen, uma nova linha ferroviária baseada em levitação magnética supercondutora que deverá ligar Tóquio, Nagoya e Osaka, concebida para funcionar a velocidades superiores a 500 km/h. O projeto é liderado pela JR Central e representa uma das maiores obras de engenharia ferroviária alguma vez planeadas no país, de acordo com o Ministério dos Transportes do Japão (MLIT).
Japão e a tradição dos comboios-bala
Desde a entrada em funcionamento do primeiro Shinkansen, em 1964, o Japão construiu uma reputação mundial assente na fiabilidade, segurança e inovação dos seus comboios de alta velocidade. Ao longo de décadas, o sistema ferroviário japonês destacou-se pela pontualidade extrema e por um historial de segurança sem vítimas mortais em acidentes operacionais.
Essa experiência acumulada serve agora de base ao Chuo Shinkansen, que vai além do modelo tradicional de comboios sobre carris, apostando numa tecnologia radicalmente diferente, desenvolvida e testada ao longo de vários anos.
Uma tecnologia que elimina o contacto com os carris
O novo sistema SCMaglev utiliza ímanes supercondutores que permitem ao comboio flutuar alguns centímetros acima da via, eliminando o atrito entre rodas e carris. A propulsão é feita através de motores lineares, o que reduz o desgaste mecânico e permite manter velocidades muito elevadas de forma estável.
O material circulante previsto para o serviço comercial é a série L0 Series, que já entrou para a história ao atingir 603 km/h durante testes na pista experimental de Yamanashi, estabelecendo um recorde mundial absoluto de velocidade ferroviária, de acordo com a mesma fonte.
Tempos de viagem pensados para rivalizar com o avião
Em operação comercial, a velocidade máxima prevista para o comboio-bala ronda os 500 a 505 km/h. Com estes valores, o trajeto entre Shinagawa, em Tóquio, e Nagoya deverá ser feito em cerca de 40 minutos, enquanto a ligação até Osaka poderá demorar aproximadamente 67 minutos.
Estes tempos colocam o comboio como uma alternativa direta ao transporte aéreo doméstico, especialmente em viagens de média distância, reduzindo deslocações para aeroportos e tempos de espera.
Uma obra subterrânea de enorme complexidade
Um dos aspetos mais marcantes do Chuo Shinkansen é a sua engenharia. Cerca de 86% do percurso entre Tóquio e Nagoya será construído em túneis, muitos deles de grande extensão, atravessando zonas montanhosas e áreas geologicamente sensíveis.
Esta opção visa minimizar o impacto à superfície, mas aumenta significativamente a complexidade técnica da obra, exigindo soluções avançadas ao nível de escavação, ventilação e segurança sísmica.
Questão ambiental que continua a travar o calendário
O maior obstáculo ao avanço do projeto encontra-se na prefeitura de Shizuoka, onde persistem preocupações relacionadas com o impacto dos túneis nos recursos hídricos, em particular no caudal do rio Oi.
As autoridades locais têm exigido garantias adicionais de que a obra não afetará os ecossistemas nem o abastecimento de água, o que tem atrasado o início dos trabalhos neste troço e impedido a definição de um calendário fechado para a inauguração, de acordo com a fonte anteriormente citada.
Quando deverá entrar em funcionamento
Até ao final deste ano, a JR Central reconhece que não é possível indicar uma data definitiva para a abertura do troço entre Tóquio e Nagoya. Embora vários cenários apontem para meados da década de 2030 como o horizonte mais otimista, a empresa tem sublinhado que qualquer data depende da resolução do impasse em Shizuoka. Nos seus documentos financeiros mais recentes, o ano de 2035 surge apenas como referência técnica para cálculos internos, não como uma data oficial de inauguração.
Um investimento que continua a crescer
O custo do projeto do comboio-bala reflete a sua dimensão excecional. Em outubro deste ano, a JR Central reviu em alta o investimento previsto para o troço Shinagawa–Nagoya, que passou para cerca de 11 biliões de ienes, cerca de 69 mil milhões de euros, um aumento significativo face às estimativas anteriores.
Quanto à extensão até Osaka, ainda não existe uma revisão final de custos, mas os valores globais deverão ultrapassar largamente as estimativas iniciais, confirmando o Chuo Shinkansen como uma das infraestruturas mais caras alguma vez construídas no Japão.
Um projeto que marca uma nova era ferroviária
Apesar dos atrasos e desafios, o Chuo Shinkansen continua a ser visto como um projeto estratégico para o Japão, tanto do ponto de vista tecnológico como económico, refere o MLIT. Ao apostar numa solução própria e pioneira, o país procura reforçar a sua liderança mundial no setor ferroviário e criar um novo padrão para a mobilidade de alta velocidade nas próximas décadas.
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