Impulsionada pela chegada de artistas estrangeiros, pelo crescimento de clubes e eventos e pelo aparecimento de novas comunidades, Lisboa tem conquistado espaço internacional na música eletrónica, embora DJ portugueses alertem para o risco de esta transformação agravar a gentrificação e afastar da cidade quem nela vive e trabalha.
A crescente projeção da capital portuguesa tem alimentado comparações com Berlim, uma das principais referências mundiais do género. Artistas ouvidos pela agência Lusa durante o Tomorrowland, na Bélgica, reconhecem o momento positivo vivido em Portugal, mas consideram que as duas cidades continuam a ter dimensões e histórias distintas.
“Lisboa é a nossa nova Berlim, não só pela cena eletrónica, mas pelas condições que proporciona aos artistas estrangeiros, permitindo um maior crescimento financeiro”, afirmou Beatriz Soares, conhecida artisticamente como BIIA.
A jovem DJ portuguesa, que se estreou num dos maiores festivais de música eletrónica do mundo, explicou que vários artistas internacionais se têm mudado para Lisboa devido a fatores económicos e à qualidade de vida. BIIA encontra-se atualmente radicada em Itália.
Portugal ganhou reconhecimento internacional
Na perspetiva da artista, a cena eletrónica portuguesa tem vindo a afirmar-se e o país é hoje mais conhecido no estrangeiro.
“Antigamente ninguém ou poucas pessoas conheciam Portugal e hoje em dia é um país que toda a gente tem alguém que conhece que vive lá ou que quer visitar”, observou.
Além da qualidade de vida, BIIA apontou os regimes fiscais mais favoráveis e a localização geográfica de Portugal como fatores de atração para alguns criadores internacionais.
A DJ ressalvou, contudo, que Lisboa ainda não pode ser colocada ao mesmo nível da capital alemã.
“Infelizmente, Portugal ainda não está a par de Berlim e penso que nunca irá estar porque Berlim tem muita história”, afirmou.
Também os MXGPU, projeto formado por Moullinex, nome artístico de Luís Clara Gomes, e GPU Panic, de nome Guilherme Tomé Ribeiro, reconhecem a evolução da música eletrónica portuguesa e a atenção crescente que Lisboa recebe no estrangeiro.
“Existem muitos produtores, novas gerações de DJs, também nomes consolidados com projeção artística internacional e muitos nomes a vir para cá e a sediarem-se cá e não só a utilizarem Lisboa para dormir, mas também para criar coisas e fazer coisas, que também é uma coisa que aplaudimos e celebramos”, declarou Moullinex.
Para o produtor, “Portugal está ao nível de qualquer outra cena” de música eletrónica.
“Há muitos eventos em Portugal, muitos produtores, novas gerações de DJs e nomes consolidados com projeção artística internacional, além de muitos nomes a virem para cá e a criarem coisas”, enumerou, concluindo que “a cena eletrónica portuguesa está fértil”.
Crescimento levanta dúvidas sobre acesso à cidade
Apesar da evolução artística, Moullinex considera necessário discutir se os eventos, espaços e estruturas associados à música eletrónica permanecem acessíveis a pessoas com diferentes capacidades económicas.
“Resta saber de que forma é que estes eventos, esta estrutura, esta plataforma é acessível a todos com diferentes poderes de compra e essa é uma questão que obviamente tem de ser discutida”, defendeu.
O músico alertou também para o risco de se criar “uma Lisboa muito bonita para a música eletrónica quando as pessoas que cá trabalham não podem cá viver”.
A preocupação prende-se com uma eventual “gentrificação da cidade”, associada à valorização dos imóveis, à entrada de novos investimentos e à chegada de novos moradores, num contexto de crise habitacional que dificulta a permanência dos residentes e de atividades culturais tradicionais.
Apesar destes desafios, os artistas portugueses presentes este fim de semana no Tomorrowland destacaram o reconhecimento internacional alcançado pelo país. Os MXGPU estreiam-se este domingo no festival belga.
“Hoje Portugal é muito mais respeitado internacionalmente”, afirmou Diego Miranda, DJ português com mais de 20 anos de carreira e dez participações no Tomorrowland, na Bélgica.
Clima e qualidade de vida atraem artistas
A porta-voz do Tomorrowland, Debby Wilmsen, confirmou também a popularidade do género em Portugal e a escolha do país como residência por vários profissionais.
“Em Portugal, acho que a música eletrónica já é bastante popular e sei que muitos DJs vivem atualmente em Portugal”, declarou.
Segundo a responsável, “muitos artistas estão a escolher Portugal, também pelas condições de vida, pelo clima e pela possibilidade de viver na Europa do Sul”.
Entre os nomes internacionais ligados às cenas techno e house apontados como tendo escolhido Portugal como base nos últimos anos encontram-se Patrick Mason, Steffi, Virginia, Miss Monique, Damian Lazarus, Blawan e Charlotte de Witte.
Lisboa consolida, assim, a sua capacidade de atração no circuito internacional da música eletrónica, embora os artistas considerem que permanece distante de substituir Berlim, cuja história, dimensão e influência continuam a fazer da cidade alemã uma referência mundial do género.
A.Pinto / HDF
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