Alguns hábitos culturais têm sido alvo de estudos quando se trata de saúde e desempenho cognitivo. Vários trabalhos recentes sugerem que um determinado hábito pode influenciar o cérebro, sendo que a relação entre este hábito e o cérebro surge como tema central de investigação. Neste contexto, a discussão sobre o “hábito” e o “cérebro” volta a ganhar relevância.
O que mostram os estudos mais recentes
A sesta, associada à tradição da siesta em Espanha, está relacionada com maior volume cerebral em adultos de meia-idade, segundo um estudo de 2023 liderado por equipas da University College London e da Universidade da República do Uruguai. A investigação, baseada em dados genéticos e imagiologia de mais de 35 mil participantes, estimou diferenças médias superiores a 15 centímetros cúbicos entre quem dorme sestas com regularidade e quem não tem este hábito.
Os autores apontam que a preservação do volume cerebral poderá corresponder a um atraso de três a seis anos nos efeitos do envelhecimento estrutural. O trabalho incidiu sobre indivíduos entre os 40 e os 69 anos, faixa etária em que se começam a detetar mais doenças crónicas que também se associam à atrofia cerebral.
Benefícios de curto prazo e desempenho
Para além dos indicadores estruturais, as sestas curtas, entre cinco e quinze minutos, têm sido associadas a melhorias imediatas no desempenho mental. A BBC refere até que, segundo o estudo em causa, fazer a sesta “mantém o cérebro maior por mais tempo”. Ensaios observam ganhos na atenção, na velocidade de reação e no humor até três horas após o despertar, sobretudo quando a sesta ocorre entre as 13 e as 16 horas.
O interesse no desporto de alto rendimento tem crescido, com equipas técnicas a integrarem pausas programadas ao início da tarde. O objetivo é somar ganhos incrementais em treino e competição, sem comprometer a rotina noturna.
Não substituir o sono da noite
Especialistas sublinham que a sesta não deve servir de substituto a um sono noturno suficiente e regular. Em pessoas com privação de sono, como pais de crianças pequenas ou trabalhadores por turnos, uma sesta breve e planeada pode mitigar a sonolência diurna, mas não corrige padrões de descanso insuficientes.
O equilíbrio é central: sestas superiores a 20 minutos aumentam o risco de inércia do sono, uma fase de despertar difícil e desorientado que reduz a produtividade imediata. A recomendação comum é manter a duração curta e evitar finais de tarde, para não interferir com a hora de deitar.
Como e quando fazer
O intervalo entre as 14 e as 16 horas coincide com uma descida fisiológica da temperatura corporal e maior propensão para adormecer, o que favorece sestas curtas. Já as primeiras horas da manhã, com temperatura em subida e alerta mais elevado, tendem a ser menos propícias a adormecer rapidamente.
Nem todas as pessoas adormecem com facilidade a pedido, pelo que a adaptação a uma sesta diária pode não ser viável para todos. Ainda assim, quando o hábito é consistente, os estudos sugerem benefícios cumulativos, reforçando a ligação entre hábito e cérebro numa perspetiva de longo prazo.
Cultura, rotina e limites
Países mediterrânicos, como Espanha, mantêm tradições de sesta integradas no quotidiano, o que pode implicar horários noturnos mais tardios. O desafio passa por compatibilizar uma pausa diurna curta com uma rotina noturna estável, evitando que a sesta se prolongue ou desloque a janela de sono principal.
Em resumo, a evidência atual indica que sestas regulares, breves e a meio da tarde podem contribuir para a saúde cerebral e para o desempenho cognitivo ao longo do dia. O hábito, quando bem estruturado, pode ser uma ferramenta adicional de autocuidado, desde que não comprometa o descanso noturno.
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