A possibilidade de levar seres humanos até Marte continua a levantar uma questão decisiva: como reagirá o corpo a uma gravidade muito mais baixa do que a da Terra. No planeta vermelho, a gravidade corresponde a cerca de 38% da terrestre, e um novo estudo com ratos em órbita trouxe dados relevantes sobre aquilo que pode acontecer, sobretudo ao nível dos músculos.
O trabalho foi divulgado pela JAXA, a agência espacial japonesa, e publicado na revista Science Advances com o título “0.33G Mitigates Muscle Atrophy While 0.67G Preserves Muscle Function and Myofiber Type Composition in Mice during Spaceflight”. A experiência usou o sistema MARS, instalado no módulo japonês Kibo da Estação Espacial Internacional, para manter ratos durante cerca de um mês em quatro níveis de gravidade: microgravidade, 0,33G, 0,67G e 1G.
Segundo a própria agência espacial, citada pelo portal científico Science Alert, os resultados mostraram que 0,33G foi suficiente para atenuar a perda de massa muscular, mas não chegou para preservar totalmente o tipo de fibras musculares nem a função do músculo. Já com 0,67G, essa proteção foi muito mais robusta, incluindo a manutenção da função muscular e da composição das fibras.
Isto é relevante para Marte porque a sua gravidade, que segundo a NASA é de cerca de 0,38G, fica muito mais próxima do nível de 0,33G testado no estudo do que do patamar de 0,67G. Dito de outra forma, os novos dados sugerem que a gravidade marciana pode não chegar, por si só, para manter os músculos a funcionar como na Terra durante estadias prolongadas. Ainda assim, trata-se de uma inferência baseada em ratos e não de uma prova direta em humanos.
Corpo humano está feito para a gravidade da Terra
A gravidade terrestre é um fator central no funcionamento normal do organismo. A NASA recorda que, em microgravidade, os músculos enfraquecem porque deixam de ser obrigados a trabalhar com a mesma carga, e os ossos que suportam o peso corporal tornam-se menos densos se não houver contramedidas.
A agência norte-americana refere também que os astronautas fazem, em média, cerca de duas horas de exercício por dia na Estação Espacial Internacional para reduzir a perda de músculo e os efeitos sobre o sistema músculo-esquelético. Mesmo assim, o problema não desaparece totalmente.
Problema pode não ficar pelos músculos
O novo estudo centra-se nos músculos, mas a investigação espacial já mostrou que os efeitos da baixa gravidade vão além disso. Um resumo técnico da NASA indica que a exposição prolongada ao espaço reduz a função cardiovascular e sensório-motora, diminui a densidade mineral óssea, reduz massa e força muscular e acaba por limitar a tolerância ao esforço físico.
A própria agência sublinha que, sem precauções, os ossos sujeitos ao peso corporal podem perder cerca de 1% de densidade por mês no espaço. Isso ajuda a perceber porque é que a questão da gravidade em Marte não é apenas um detalhe técnico, mas um ponto central para a saúde dos astronautas.
O que este resultado significa para futuras missões
Os dados agora divulgados não dizem que viver em Marte será impossível. O que mostram é que há um limiar de gravidade importante para a saúde muscular, e que esse limiar pode estar acima da gravidade marciana para alguns aspetos do funcionamento do músculo. A JAXA resume o resultado de forma clara: 0,33G ajuda a travar a atrofia, mas 0,67G é o nível que preserva melhor a função muscular e o tipo de fibras.
Isso significa que missões longas a Marte poderão exigir medidas adicionais, como programas intensivos de exercício, tecnologias de gravidade artificial e monitorização médica mais apertada. Essa necessidade encaixa no que a NASA já defende para missões longas: otimizar contramedidas para proteger a saúde e o desempenho físico em viagens que poderão durar vários anos.
O que ainda falta saber
Também é importante não exagerar as conclusões. Este estudo foi feito com ratos, durante cerca de quatro semanas, e não reproduz toda a complexidade de uma permanência humana longa em Marte. Além disso, o ensaio testou 0,33G e 0,67G, não a gravidade exata de Marte. Por isso, o trabalho oferece um sinal científico importante, mas não fecha a questão.
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