Comprar um automóvel anunciado, por exemplo, com mais de 200 cavalos e descobrir posteriormente um valor bastante inferior no livrete pode levantar dúvidas. Afinal, o carro entregue tem realmente a potência prometida pela marca? A resposta pode ser sim.
Tal como explica o Notícias ao Minuto, um mesmo automóvel pode apresentar valores diferentes de potência consoante o documento ou a medição que esteja a ser utilizada, sem que isso signifique necessariamente que exista informação falsa ou que o consumidor tenha sido enganado. Nos automóveis elétricos, em particular, existe uma distinção importante entre a potência máxima que o conjunto consegue disponibilizar e a potência que consegue manter durante um período prolongado.
O valor anunciado pela marca pode ser a potência máxima
Nas fichas comerciais, os fabricantes tendem a destacar a potência máxima do automóvel, normalmente expressa em quilowatts (kW) e convertida também para cavalos (cv). É este o número mais diretamente relacionado com as prestações que o condutor consegue obter em situações como uma aceleração mais forte ou uma ultrapassagem.
Um automóvel anunciado com 150 kW terá, por exemplo, aproximadamente 204 cv, uma vez que um quilowatt corresponde a cerca de 1,36 cv. O problema surge quando o proprietário consulta a documentação do automóvel e encontra outro número, muitas vezes bastante inferior.
Nos elétricos existe também uma potência medida durante 30 minutos
A regulamentação aplicável aos sistemas de propulsão elétricos prevê, além da potência máxima, uma medição específica denominada potência máxima durante 30 minutos. De acordo com o Regulamento n.º 85 da Comissão Económica das Nações Unidas para a Europa, este valor corresponde à potência útil máxima que um sistema elétrico consegue fornecer, em média, durante um período de 30 minutos.
Não é, portanto, a mesma coisa que a potência máxima que o motor consegue entregar durante períodos mais curtos. Um sistema elétrico pode conseguir fornecer uma potência bastante elevada durante uma aceleração, mas não conseguir sustentar esse mesmo valor durante meia hora sem limitações relacionadas com a bateria, a temperatura ou outros componentes.
A própria regulamentação europeia admite expressamente que, quando a bateria constitui uma limitação, a potência máxima durante 30 minutos de um veículo elétrico pode ser inferior à potência máxima do respetivo sistema de tração.
Porque é que não consegue manter sempre a potência máxima?
Num automóvel elétrico, a potência disponível depende do funcionamento conjunto de vários componentes. O motor elétrico pode ser capaz de atingir um determinado pico, mas a bateria tem de conseguir fornecer energia suficiente e o inversor e o sistema de refrigeração têm de manter todos os componentes dentro das temperaturas previstas.
Manter permanentemente a potência máxima poderia provocar um aumento significativo da temperatura ou exigir mais energia do que aquela que o sistema consegue fornecer continuamente. É por isso que se distingue a capacidade máxima do veículo daquela que consegue ser sustentada ao longo de um período bastante mais longo. Não significa que os cavalos anunciados pela marca «não existam». Significa apenas que aquela potência máxima não foi concebida para estar permanentemente disponível durante meia hora consecutiva.
O que aparece no livrete do seu carro?
Em Portugal, o Documento Único Automóvel contém a potência no campo P.2, expressa em quilowatts. A legislação que define o modelo português do certificado de matrícula identifica este campo como correspondente à potência útil máxima, em kW. A documentação utilizada na homologação europeia dos veículos elétricos contém, contudo, vários valores relativos à motorização.
O modelo europeu de homologação distingue especificamente a potência útil máxima do motor elétrico da potência máxima de 30 minutos. É esta existência de diferentes grandezas técnicas e de diferentes campos utilizados durante o processo de homologação e registo que ajuda a explicar porque podem surgir valores distintos quando se compara a documentação oficial com as especificações comerciais de um modelo.
Não confunda kW com cavalos
Há ainda uma explicação mais simples que pode provocar alguma confusão quando se olha para o livrete. Em Portugal, o Documento Único Automóvel apresenta a potência em kW, enquanto as marcas normalmente promovem os automóveis utilizando cavalos. Os dois números nunca serão iguais.
Por exemplo:
- 100 kW correspondem aproximadamente a 136 cv;
- 110 kW correspondem a cerca de 150 cv;
- 150 kW equivalem aproximadamente a 204 cv;
- 200 kW correspondem a cerca de 272 cv.
Assim, encontrar «110» no campo da potência do livrete de um carro vendido como tendo 150 cv não significa que tenham desaparecido 40 cavalos. São simplesmente duas unidades diferentes para medir a mesma potência.
Nos elétricos a diferença pode ser muito maior
A situação torna-se mais confusa nos automóveis elétricos porque não estamos apenas perante uma conversão entre unidades. Podem existir efetivamente dois valores de potência diferentes, dependendo da característica técnica que está a ser medida. A regulamentação europeia exige que a homologação dos sistemas elétricos contemple tanto a potência útil como a potência máxima mantida durante 30 minutos.
Para determinar esta última, o motor funciona num banco de ensaio durante meia hora. A potência é registada ao longo desse período e o resultado corresponde à média obtida durante os 30 minutos. Já a medição da potência útil máxima é feita noutras condições e o teste completo pode ser concluído em poucos minutos. É, portanto, perfeitamente possível que os valores apresentem diferenças consideráveis.
Então a marca está a enganar o comprador?
Não necessariamente. Se a potência promovida corresponder efetivamente à potência máxima homologada para aquela versão do automóvel, a existência de outro valor técnico na documentação não significa, por si só, publicidade enganosa. São grandezas que podem responder a perguntas diferentes: uma indica aquilo que o sistema consegue entregar no máximo, enquanto outra permite avaliar aquilo que consegue manter continuamente durante um determinado período.
Para evitar dúvidas, quem encontrar uma discrepância deverá confirmar a versão exata do veículo através do número de homologação, comparar os valores com a ficha técnica oficial do fabricante e perceber se está a comparar kW com cv ou dois tipos diferentes de potência. Por isso, encontrar no livrete um número inferior àquele que aparece numa brochura ou no site da marca pode causar surpresa, sobretudo entre os proprietários de carros elétricos, mas não significa automaticamente que o veículo tenha menos potência do que aquela que foi comprada.
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