A água que desaparece pelo ralo depois de uma lavagem automática leva muito mais do que pó, lama e espuma. Alguns compostos presentes nos resíduos acumulados no veículo ou nos produtos utilizados podem resistir aos tratamentos convencionais e permanecer no ambiente durante muitos anos, os chamados “químicos eternos”.
Entre essas substâncias encontram-se os PFAS, designação atribuída a uma extensa família de compostos sintéticos. A presença destes químicos nas águas residuais de centros de lavagem automóvel tem despertado a atenção de investigadores e autoridades ambientais, sobretudo nos Estados Unidos, de acordo com o jornal digital espanhol com especialização em auto El Motor.
O que são os chamados “químicos eternos”
As substâncias perfluoroalquiladas e polifluoroalquiladas começaram a ser utilizadas devido à sua capacidade para repelir água, gordura, manchas e sujidade. Podem estar presentes em diferentes produtos industriais e de consumo, embora isso não signifique que todos contenham PFAS.
Muitos destes compostos degradam-se muito lentamente, razão pela qual ficaram conhecidos como “químicos eternos”. Depois de libertados, podem permanecer na água, no solo e nos sedimentos, acumulando-se progressivamente no ambiente.
Como podem chegar aos centros de lavagem
Os PFAS encontrados nestas instalações podem ter diferentes origens. Alguns podem resultar dos produtos aplicados durante a lavagem, enquanto outros chegam através de resíduos presentes na pintura, nos estofos, nos tapetes ou nos revestimentos impermeáveis dos veículos.
A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos inclui os centros de lavagem automóvel entre as atividades comerciais que podem libertar PFAS para as redes de águas residuais. Ainda assim, não é possível concluir que todos os detergentes, ceras ou abrilhantadores contenham estas substâncias.
Estudos detetaram PFAS nas águas residuais
Um estudo realizado na região da Baía de São Francisco analisou amostras provenientes de habitações, lavandarias industriais, hospitais, fábricas e três centros de lavagem automóvel. Nestes últimos foram encontradas concentrações totais de PFAS moderadamente superiores às registadas à entrada das estações de tratamento.
Os investigadores sublinharam, contudo, que não foram encontrados valores extremamente elevados nos centros de lavagem. A reduzida dimensão da amostra também impede generalizações, mas os resultados indicam que estas instalações podem contribuir para a entrada de PFAS nos sistemas de saneamento.
Exposição está associada a diferentes problemas de saúde
A preocupação sanitária está relacionada sobretudo com a exposição repetida e prolongada. A agência norte-americana ATSDR refere associações entre determinados PFAS e alterações do colesterol e das enzimas do fígado, menor resposta a algumas vacinas e maior risco de cancro do rim ou dos testículos.
Estas associações não significam que uma lavagem ocasional do automóvel provoque diretamente uma doença. O risco depende da substância envolvida, da quantidade, da frequência, da duração e da via de exposição, além das características individuais de cada pessoa.
Problema continua depois da passagem pelo ralo
As estações de tratamento recebem PFAS provenientes de várias fontes domésticas, comerciais e industriais. Como muitos destes compostos são difíceis de destruir, o tratamento pode não os eliminar completamente, permitindo que uma parte permaneça na água tratada ou passe para as lamas, de acordo com o jornal acima citado.
A contaminação pode, assim, alcançar rios, solos e águas subterrâneas. Por esse motivo, especialistas defendem um maior controlo na origem, a identificação dos produtos que contêm PFAS e a substituição por alternativas com menor persistência ambiental.
União Europeia prepara restrições mais abrangentes
Alguns PFAS já estão proibidos ou fortemente limitados na União Europeia, incluindo o PFOS, o PFOA e substâncias relacionadas. Também foram adotadas restrições para determinados produtos de consumo e para as espumas utilizadas no combate a incêndios.
A Agência Europeia dos Produtos Químicos continua a avaliar uma proposta de restrição mais abrangente. Segundo a Comissão Europeia, essa avaliação deverá ficar concluída até ao final deste ano, servindo posteriormente de base a uma proposta legislativa europeia.
O que acontece em Portugal
Em Portugal, o controlo mais direto está atualmente centrado na qualidade da água destinada ao consumo humano. O Decreto-Lei n.º 69/2023 estabelece valores máximos de 0,50 microgramas por litro para o total de PFAS e de 0,10 microgramas por litro para a soma de 20 PFAS, cuja monitorização passou a ser obrigatória em 12 de janeiro de 2026.
Nos centros de lavagem aplicam-se também as regras gerais relativas à descarga de águas residuais e ao saneamento, enquanto eventuais limitações específicas aos produtos utilizados dependerão principalmente da legislação europeia sobre substâncias químicas.















