A abertura da gelataria São Gelados, no centro de Olhão, trouxe para a cidade um conceito que cruza tradição local e técnica italiana. O espaço, criado por Nelson Costa, tem vindo a ganhar protagonismo pelos sabores fora do habitual, entre eles um gelado inspirado no tradicional Folar de Olhão, produzido sem glúten e com base artesanal.
O fundador da marca é luso-francês, filho de emigrantes de São Brás de Alportel, mas nasceu e viveu durante três décadas em Paris. Em entrevista ao POSTAL explicou que foi na capital francesa que construiu o seu percurso académico na área da psicologia e trabalhou na rádio, num programa onde contava a história de Portugal através da música.
Mudança com vários destinos
Antes de chegar ao Algarve, Nelson Costa passou por Itália, onde acabou por redefinir o seu caminho profissional. Foi em Bolonha, na Carpigiani Gelato University, que aprofundou a formação técnica em gelataria, completando depois um estágio em Florença. Essa experiência foi decisiva para a construção do conceito atual. A base técnica do gelado italiano tornou-se o ponto de partida para um projeto que mistura precisão, sazonalidade e identidade portuguesa.
A escolha de Olhão para fundar a São Gelados não surgiu por acaso. Nelson Costa explicou ao POSTAL que a decisão foi influenciada pelo acesso à matéria-prima local e pela dinâmica do mercado municipal. “O mercado de Olhão é fantástico, tem uma variedade de fruta e frescura”, afirmou.
Nelson Costa admite ainda que outras cidades algarvias, como Faro, estiveram em cima da mesa para acolher o projeto, mas a identidade local acabou por pesar mais. Aproximidade a produtos frescos e o ritmo sazonal da cidade encaixavam na filosofia da marca.
Gelados sem exclusões
Há também um detalhe pessoal que moldou diretamente o projeto. Nelson Costa é celíaco e isso levou-o a criar uma gelataria totalmente livre de glúten, incluindo os cones. A decisão surgiu também de experiências próprias enquanto visitante do Algarve. “Quando vinha ao Algarve era difícil comer um gelado, então decidimos fazer uma gelataria que não exclui ninguém”, contou, numa explicação que ajuda a perceber a base inclusiva do espaço.
Entre os sabores disponíveis, um dos que mais se destaca é o gelado de Folar de Olhão. A ideia surgiu através de um desafio lançado pela chef Mariline Pinguinha, da Escola de Hotelaria e Turismo do Algarve. Nelson recorda esse momento com detalhe: “Tínhamos de desconstruir o folar para reconstruir o sabor do gelado”. O resultado foi uma receita inspirada no doce tradicional algarvio, mas adaptada ao conceito da casa e sem glúten.
Entre a memória e a tranquilidade
A produção na São Gelados é diária e feita de raiz, com fruta da época, leite fresco e sem corantes. O açúcar é utilizado apenas no necessário para garantir equilíbrio e textura.
Hoje, longe da agitação parisiense, Nelson Costa diz ter encontrado no Algarve uma realidade diferente. “Olhão tem uma calma que não havia em Paris”, resumiu. Uma frase que ajuda a explicar porque é que a cidade acabou por ser mais do que um destino para abrir um negócio. A também conhecida como “cidade cubista” é agora casa para Nelson e a mulher, no sentido mais simbólico da palavra.
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