A associação ambientalista Zero declarou à Lusa estar contra o plano do Governo, apresentado na sexta-feira, que prevê a construção de uma incineradora na região Alentejo/Algarve, inserida no plano TERRA – Transformação Eficiente de Recursos Ambientais. Para os algarvios, este projeto é mais do que uma decisão técnica: é uma ameaça ao bolso, à sustentabilidade e à identidade de uma região que vive do turismo e da natureza.
Um fardo financeiro e ambiental
A Zero afirmou à Lusa que o plano, com um investimento de 1.500 milhões de euros – financiado por endividamento junto do Banco Europeu de Investimento (BEI) –, inclui duas novas unidades de incineração, uma no Centro e outra no Alentejo/Algarve, além da ampliação das existentes Lipor e Valorsul. Segundo a associação, este custo vai recair sobre os portugueses, com um aumento nas faturas de resíduos, e “colocará uma enorme pressão” sobre as contas das autarquias algarvias, já fragilizadas por orçamentos limitados. “Cada algarvio vai sentir este peso no bolso, enquanto o Governo opta por uma solução que nos afasta das metas de reciclagem”, criticou a Zero em declarações à Lusa.
O Algarve no centro da controvérsia
A possibilidade de uma incineradora no Algarve ou no Alentejo vizinho levanta sérias questões. A Zero disse à Lusa que não contesta a emergência do esgotamento dos aterros – alguns com apenas meses ou poucos anos de capacidade –, mas critica a aposta numa solução que demorará anos a implementar. “Numa região como o Algarve, onde a aceitação social de aterros já é difícil, como será recebida uma incineradora?”, questionou a associação à Lusa. O impacto visual, ambiental e económico numa área dependente do turismo é uma preocupação crescente entre os residentes.
Metas de reciclagem em risco
Portugal está obrigado a reciclar 55% dos resíduos em 2025, 60% em 2030 e 65% em 2035, mas a Zero alertou à Lusa que o foco na incineração – que absorve mais de 70% do investimento do plano – comprometerá estes objetivos. “É um caminho que nos rouba recursos valiosos e a resiliência económica, especialmente no Algarve, onde o turismo sustentável é vital”, declarou a associação à agência noticiosa. A Zero acusou ainda o Governo de falta de transparência, revelando à Lusa que tentou, sem sucesso, aceder ao relatório do grupo de trabalho que elaborou o TERRA, num processo que considera apressado e pouco participativo.
Soluções ignoradas
Em vez de incineradoras, a Zero propôs à Lusa alternativas que poderiam aliviar a pressão no Algarve de forma mais rápida e eficaz: o pré-tratamento obrigatório dos resíduos antes do aterro, o reforço das instalações de tratamento mecânico e biológico (TMB) e a recolha seletiva de alta eficiência, como o modelo porta-a-porta. “São medidas que funcionam já, não daqui a uma década”, sublinhou a associação à Lusa, lamentando que o Governo opte por uma “agenda própria” em detrimento do bem comum.
Uma esperança no horizonte
Num momento de incerteza política, com a queda do Governo no horizonte, a Zero expressou à Lusa uma nota de esperança: a possibilidade de um futuro executivo abandonar este “mau plano”. Para o Algarve, este é um apelo urgente. A região, que já enfrenta desafios sazonais e climáticos, não pode suportar mais um fardo que ameace o seu futuro. “Queremos um Algarve verde, não cinzento de cinzas”, resume um residente de Tavira, ecoando o sentimento de muitos que temem ver a sua terra transformada num depósito de resíduos.
Leia também: Aprenda o método norueguês para secar a roupa em cinco minutos sem recurso a máquina
















