Com os preços da habitação a atingir níveis históricos em várias capitais europeias, um modelo alternativo está a ganhar força no Reino Unido e começa a despertar curiosidade noutros países, incluindo Portugal. Trata-se dos chamados “guardiões”, pessoas que vivem em edifícios desocupados por rendas muito baixas, em troca de garantir que os imóveis não são vandalizados nem alvo de ocupações ilegais por parte de ‘okupas’, segundo aponta o jornal El Confidencial.
A ideia não é nova. Surgiu nos anos 80, na Holanda, para dar uso temporário a prédios abandonados e oferecer alojamento acessível a artistas e profissionais jovens. Hoje, em Londres, o conceito está consolidado e é visto como uma das poucas formas de viver no centro da cidade sem pagar valores exorbitantes.
Viver num edifício emblemático por uma fração do preço
Um dos casos mais mediáticos foi o de Tom (nome fictício), de 36 anos, que chegou a morar num dos edifícios mais exclusivos da capital britânica, a antiga sede da Scotland Yard, junto ao rio Tamisa, pagando apenas 450 libras (cerca de 517 euros) por mês.
Tom não é inquilino nem ocupa ilegalmente as propriedades. É um “guardião”, termo usado para designar pessoas que residem em edifícios vazios e prestes a ser remodelados, em troca de manterem o espaço habitado e seguro de ocupações ilegais. “Levo 13 anos a viver assim e, apesar de me mudar várias vezes, compensa. Poupas dinheiro, conheces pessoas interessantes e vives a cidade de forma diferente”, contou à imprensa britânica.
Atualmente, vive em Camden Town, num conjunto habitacional que será demolido. “Consegui montar o meu negócio porque pude poupar. Este estilo de vida permite-me viver sem amarras”, explica, citado pela mesma fonte.
Uma alternativa que se expande pela Europa
Estima-se que existam cerca de 14 mil “guardiões” no Reino Unido, comparados com 11 milhões de arrendatários privados. Os preços variam entre 30% e 50% abaixo do mercado e, na maioria dos casos, incluem despesas básicas de água e eletricidade.
O sistema é considerado vantajoso para ambas as partes: os proprietários evitam ocupações ilegais e vandalismo, e os residentes conseguem habitação a custos reduzidos. No entanto, o modelo não é isento de riscos. Como não há regulação específica, os “guardiões” não têm o mesmo nível de proteção legal que um inquilino comum, refere a fonte acima citada.
Normalmente, os contratos são de licença e não de arrendamento, o que significa que podem ser obrigados a desocupar o espaço com apenas 28 dias de antecedência. Além disso, devem assegurar a limpeza e pequenas reparações, e aceitar visitas regulares de inspetores que têm as chaves do edifício.
Entre o privilégio e a precariedade
Segundo a associação britânica Property Guardian Providers Association (PGPA), cerca de 90% dos “guardiões” têm emprego a tempo inteiro, e um terço trabalha em áreas criativas. O perfil é diversificado: há jovens em início de carreira, profissionais de meia-idade e até reformados que procuram alojamento temporário em grandes cidades.
Nem todos, contudo, têm boas experiências. Alguns relatam edifícios degradados, sem água potável ou com pragas de ratos. Outros, pelo contrário, dizem ter vivido em antigas fábricas, escolas e teatros transformados em autênticas comunidades.
O presidente da PGPA, Graham Sievers, garante que as normas de segurança continuam a aplicar-se e que os proprietários podem ser multados se não cumprirem as regras. “As exigências de segurança, eletricidade e incêndio são as mesmas que em qualquer habitação. A procura é hoje a mais alta desde que o modelo chegou ao país”, afirmou.
Um modelo que podia inspirar soluções em Portugal
A experiência britânica desperta debate em vários países, incluindo Portugal, onde a escassez de habitação acessível é cada vez mais evidente. Segundo dados do Eurostat, Portugal é um dos países da Europa onde os custos com a habitação mais cresceram na última década, especialmente em Lisboa e no Porto.
Em teoria, este conceito poderia ser adaptado a edifícios públicos ou privados devolutos, reduzindo o vandalismo e oferecendo alojamento temporário a estudantes, trabalhadores deslocados ou jovens profissionais. Em Lisboa, por exemplo, há prédios municipais sem uso que poderiam beneficiar de uma solução semelhante.
Habitar sem possuir: um novo paradigma urbano
Enquanto o preço médio do arrendamento em Londres ultrapassa as 2.200 libras (cerca de 2528 euros) mensais, o número de “guardiões” continua a aumentar e o modelo começa a ser testado em cidades como Paris e Madrid. De acordo com o El Confidencial, para muitos, representa mais do que uma forma de poupar: é uma nova forma de viver nas grandes cidades, com menos estabilidade, mas também com mais liberdade.
Em Portugal, onde a habitação acessível se tornou uma das maiores preocupações sociais, a ideia de ocupar legalmente edifícios devolutos, evitando ao mesmo tempo ocupações ilegais pode, um dia, deixar de ser apenas uma curiosidade estrangeira e transformar-se numa oportunidade de repensar o modo como habitamos as cidades.
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