O fenómento do cyberbullying entre crianças e adolescentes aumentou em praticamente todos os países europeus, com números que chegam a ultrapassar um quarto dos jovens em alguns casos, segundo revela um novo relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).
Entre 2021 e 2022, a Lituânia registou a taxa mais elevada, afetando 27,1% dos jovens, enquanto Espanha apresentou o valor mais baixo, 7,5%. Portugal surge com 9,3%, acima dos 8% registados entre 2017 e 2018, mas ainda abaixo da média europeia de 15,5%. França e Grécia também ficam abaixo desse patamar, segundo dados avançados pelo site especializado em atualidade e negócios, Executive Digest.
O que é o cyberbullying e quem está mais exposto
De acordo com o relatório da OCDE “Como é a vida das crianças na era digital?”, o cyberbullying consiste no assédio, ameaças ou comentários negativos online dirigidos a uma criança por colegas ou desconhecidos.
O fenómeno pode manifestar-se através do envio de mensagens ofensivas, publicações maliciosas em perfis de redes sociais, criação de sites para gozar com alguém ou partilha não autorizada de fotografias impróprias. O estudo analisou crianças de 11, 13 e 15 anos, focando-se em comportamentos repetidos e intencionais que refletem desequilíbrios de poder no ambiente digital, segundo a mesma fonte.
Fatores que explicam as diferenças entre países
James O’Higgins Norman, professor na Dublin City University e titular da Cátedra UNESCO sobre Bullying e Cyberbullying, aponta que os contrastes entre países resultam de uma combinação de fatores tecnológicos, culturais e institucionais.
No plano tecnológico, variam o acesso à internet, a penetração de smartphones e as plataformas online mais utilizadas. Culturalmente, normas sociais que aceitam maior agressividade verbal ou indireta tendem a associar-se a níveis mais elevados de cyberbullying. Do ponto de vista institucional, programas escolares de literacia digital e segurança online contribuem para prevenir e responder ao fenómeno.
Especialistas da European Antibullying Network (EAN) acrescentam que desigualdades sociais e económicas, bem como o apoio familiar e comunitário, condicionam a vulnerabilidade dos jovens e a eficácia das escolas. Entre 2017/18 e 2021/22, todos os 29 países analisados registaram um aumento, sendo mais significativo na Dinamarca, Lituânia, Noruega, Eslovénia, Islândia e Países Baixos. A OCDE relaciona este crescimento com o maior acesso dos adolescentes a dispositivos digitais e o tempo extra passado online durante a pandemia da Covid-19.
O período de confinamento acelerou a utilização de smartphones e redes sociais, multiplicando oportunidades de ligação social, mas também de interações nocivas. Segundo O’Higgins Norman, o anonimato e a imediaticidade das plataformas digitais reduziram a responsabilização social e normalizaram comportamentos hostis. Dados recentes indicam, contudo, que os níveis de cyberbullying poderão ter estabilizado após a pandemia.
O relatório aponta ainda diferenças significativas entre raparigas e rapazes, sendo as primeiras mais suscetíveis a sofrer cyberbullying na média europeia, com 16,4% de vítimas contra 14,3% dos rapazes. A disparidade ultrapassa cinco pontos percentuais em países como Suécia, França, Inglaterra e Itália, refletindo padrões de comunicação e normas de género que favorecem a exposição das raparigas a exclusão social, boatos e assédio ligado a imagens.
Adolescentes de famílias monoparentais também enfrentam maior risco, com 19,8% de vitimização contra 14,1% em agregados biparentais. O’Higgins Norman sublinha que pressões financeiras, de tempo e emocionais sobre pais solteiros podem limitar a supervisão digital, aumentando a exposição dos filhos a riscos online.
De acordo com a Executive Digest, o estudo da OCDE evidencia que o cyberbullying é um fenómeno em crescimento em toda a Europa, fortemente influenciado por fatores tecnológicos, culturais e familiares. As conclusões reforçam a necessidade de políticas educativas robustas, literacia digital e apoio familiar, com especial atenção às raparigas e aos jovens de famílias monoparentais.
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