A recomendação de esperar várias horas antes de entrar no mar ou numa piscina atravessou gerações e continua a condicionar muitos dias de praia. O receio de que uma refeição possa provocar um problema grave dentro de água permanece muito presente, sobretudo quando estão crianças por perto.
“Não se pode ir à água depois de comer!” é uma das frases mais repetidas em praias e piscinas. Depois de crescerem com este aviso, muitos adultos acabam por transmiti-lo aos filhos, obrigando-os a permanecer duas ou três horas fora de água, mesmo quando fizeram apenas uma refeição ligeira.
A evidência disponível, porém, não sustenta uma proibição absoluta. Nadar durante a primeira hora depois de comer não aumenta o risco de afogamento em adultos ou crianças, tanto em atividades recreativas como na natação de competição, segundo a Cruz Vermelha norte-americana.
Regra das três horas tem fundamento?
Nenhuma das principais organizações médicas ou de segurança aquática recomenda atualmente um período obrigatório de espera depois de uma refeição. Os estudos analisados também não encontraram uma redução significativa do desempenho dos nadadores nem efeitos graves associados ao momento em que comeram, de acordo com a mesma fonte.
Durante muitos anos, acreditou-se que a digestão desviava uma quantidade elevada de sangue para o estômago, deixando os braços e as pernas com menos capacidade para nadar. Apesar de existir um aumento do fluxo sanguíneo no aparelho digestivo, não há fundamento científico para concluir que esse processo provoque um cansaço capaz de causar um afogamento.
“Sabemos agora que não existe qualquer fundamento científico para essa recomendação”, explicou Michael Boniface, médico de urgência da Mayo Clinic. O especialista admite que nadar depois de comer pode causar desconforto, cólicas no estômago ou cãibras musculares, mas considera que esta não é, por si só, uma atividade perigosa.
O que pode realmente acontecer?
Entrar na água com o estômago muito cheio pode provocar uma sensação de peso, náuseas ou indisposição, sobretudo quando a pessoa começa imediatamente a nadar com intensidade. Estes sintomas podem tornar o banho menos agradável, mas não correspondem à chamada “paragem da digestão” nem significam que todas as pessoas tenham de esperar o mesmo número de horas.
“Embora possa não ser muito confortável nadar com o estômago cheio, o mundo não vai acabar se ignorar o conselho da sua mãe e não esperar entre 30 e 60 minutos”, explicou o mesmo médico.
Depois de uma refeição ligeira, uma pessoa saudável que se sinta bem pode, em princípio, tomar um banho tranquilo e permanecer perto da margem. A decisão deve ter em conta o estado físico, a quantidade de alimentos ingeridos, as condições do mar e as indicações dadas pelos nadadores-salvadores.
Tempo de espera depende do esforço
A situação é diferente quando está previsto um treino exigente ou uma prova de natação. Nestes casos, a preocupação não está num suposto risco de a digestão parar, mas no conforto digestivo, na energia disponível e no desempenho físico.
Para os atletas, uma refeição rica em hidratos de carbono pode ser feita três a quatro horas antes do exercício, enquanto um pequeno lanche poderá ser consumido uma a duas horas antes. Alimentos ricos em gordura, proteínas ou fibras, por serem digeridos mais lentamente, podem aumentar a possibilidade de desconforto durante o esforço, segundo o portal de saúde do Governo do estado australiano de Vitória.
Uma refeição abundante antes de uma sessão intensa de natação pode, por isso, justificar algum tempo de espera. A mesma precaução não tem necessariamente de ser aplicada a uma criança que comeu uma peça de fruta ou uma sanduíche e pretende apenas brincar calmamente numa zona vigiada.
Choque térmico não é causado pela refeição
O chamado choque térmico é um fenómeno diferente e não acontece por a pessoa ter acabado de comer. A entrada súbita em água fria pode provocar alterações bruscas na respiração, no ritmo cardíaco e na tensão arterial, mesmo em nadadores experientes.
A reação inicial pode incluir uma inspiração involuntária, respiração muito rápida, pânico e dificuldade em pensar com clareza. Caso a pessoa inspire água nesse momento ou não consiga manter-se à superfície, o risco de afogamento aumenta, alerta o Serviço Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos.
Por precaução, deve evitar-se uma entrada brusca quando existe uma grande diferença entre a temperatura do corpo e a da água. Esta recomendação é particularmente importante no mar, em rios e em albufeiras, onde a temperatura pode ser bastante inferior àquela que o banhista esperava.
Há perigos mais importantes dentro de água
No caso das crianças, o principal cuidado não deve ser contar as horas desde a última refeição, mas garantir uma vigilância próxima e permanente. Os mais novos têm maior dificuldade em avaliar os perigos e podem não possuir competências suficientes de natação e segurança aquática, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Nadar sozinho, consumir álcool antes de entrar na água, ignorar as bandeiras, afastar-se demasiado da margem e desrespeitar as condições do mar representam perigos muito mais relevantes. A OMS associa parte dos afogamentos a uma maior exposição à água e a comportamentos de risco, incluindo nadar sozinho e beber álcool antes de nadar.
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