Durante muito tempo, a obesidade esteve associada a falhas pessoais, dietas repetidas e frustração constante. Nos últimos anos, esse discurso começou a mudar com a chegada das canetas injetáveis para perder peso, que passaram rapidamente do anonimato para o centro do debate público. Medicamentos como Ozempic, Wegovy ou Mounjaro tornaram-se protagonistas de uma nova fase no tratamento da obesidade, ainda que muitas das suas implicações continuem pouco compreendidas.
De acordo com o Ekonomista, site especializado em economia pessoal e literacia financeira, o interesse por estes medicamentos tem crescido de forma abrupta, tanto pelo seu potencial clínico como pelo impacto no orçamento das famílias, numa tendência que acompanha o aumento da procura em farmácias e consultas privadas.
Como funcionam estas canetas
O mecanismo baseia-se numa hormona produzida naturalmente pelo intestino chamada GLP-1. Após a ingestão de alimentos, esta hormona envia sinais ao cérebro que promovem a sensação de saciedade e abranda o esvaziamento do estômago. Em pessoas com obesidade, este sistema de regulação do apetite tende a estar alterado, o que contribui para a ingestão excessiva de alimentos.
As canetas injetáveis utilizam moléculas que imitam a ação desta hormona. A semaglutida, por exemplo, reproduz esse sinal químico e ajuda o organismo a recuperar parte do controlo do apetite. A administração é feita de forma semanal, o que simplifica a adesão em comparação com terapêuticas orais.
De medicamentos para diabetes a fármacos para a obesidade
O desenvolvimento começou no contexto da diabetes tipo 2. Fármacos como o Ozempic foram desenhados para estabilizar os níveis de glicose no sangue através do atraso do esvaziamento gástrico. Com o tempo, os médicos observaram uma perda de peso consistente em muitos doentes, o que levou à sua utilização fora das indicações formais.
Mais tarde, surgiu o Wegovy, que utiliza o mesmo princípio ativo em doses superiores, já com aprovação específica para o tratamento da obesidade. Os dados dos ensaios clínicos indicam reduções médias próximas dos 15% do peso corporal ao fim de cerca de 68 semanas, ainda que esse valor possa variar entre doentes.
Novos medicamentos, resultados mais intensos
O Mounjaro, baseado na tirzepatida, introduziu um novo mecanismo ao atuar simultaneamente nos recetores GLP-1 e GIP. Esta combinação tem permitido perdas de peso mais acentuadas em comparação com a geração anterior de fármacos. Alguns estudos apontam reduções superiores a 20% em determinados perfis de doentes.
Em Portugal, o Wegovy na formulação de 2,4 mg encontra-se disponível, com um custo mensal na ordem dos 245 euros, sem comparticipação, o que limita o acesso a uma fatia significativa da população.
Riscos, efeitos adversos e alertas
Apesar dos resultados, os efeitos secundários não são negligenciáveis. Náuseas, vómitos, diarreia, obstipação e dor abdominal são relatados com frequência, sobretudo nas primeiras semanas de utilização. Em alguns casos, verificam-se alterações das enzimas pancreáticas e formação de cálculos biliares associados a perdas de peso rápidas.
A redução acelerada de gordura corporal também pode refletir-se na diminuição da massa muscular e na flacidez da pele, incluindo o rosto, fenómeno que se tornou conhecido de forma informal como “rosto de Ozempic”.
A utilização sem acompanhamento médico é uma preocupação crescente. A venda online de substâncias não certificadas tem sido alvo de alertas por parte das autoridades reguladoras internacionais, devido ao risco de contaminação, dosagens incorretas e ausência de controlo de qualidade.
A ciência continua a avançar e novas moléculas, como a retatrutida, estão em fase avançada de estudo, prometendo atuações ainda mais abrangentes nos recetores hormonais ligados ao apetite e ao metabolismo.
Segundo o Ekonomista, o grande desafio dos próximos anos será equilibrar eficácia terapêutica com segurança e garantir que estes tratamentos não ficam restritos apenas a quem tem maior capacidade financeira.
















