A crise habitacional que o país atravessa tem, seguramente, múltiplas causas, interligadas entre si. Há, contudo, um fator que assume particular relevância no Algarve.
Como é sabido, com o propósito de atrair investimento estrangeiro e novos residentes, foram criados regimes como o dos Residentes Não Habituais (RNH) e os Vistos Gold. Muitos dos seus beneficiários, sobretudo pessoas dotadas de elevado poder de compra, escolheram o Algarve para residir ou investir.
Perante esta realidade, dificilmente poderia causar surpresa que a entrada de um número significativo de pessoas com capacidade financeira substancialmente superior à da população local viesse a exercer uma pressão acrescida sobre o mercado imobiliário. Era previsível que os preços da habitação, quer para aquisição, quer para arrendamento, subissem progressivamente para níveis cada vez mais distantes das possibilidades de uma parte significativa dos residentes.
E isto numa região que continua a apresentar uma forte dependência do trabalho sazonal e onde os salários permanecem, em muitos setores de atividade, relativamente modestos. Quando a capacidade de compra de quem procura casa é tão desigual, o mercado tende naturalmente a responder aos que podem pagar mais, relegando os restantes para uma posição cada vez mais difícil.
É certo que a crise habitacional não se explica apenas por estes fatores. A insuficiência da oferta, a pressão turística, o crescimento do alojamento local e outras dinâmicas do setor imobiliário também terão contribuído para o agravamento da situação. Mas precisamente porque algumas destas consequências eram previsíveis, seria legítimo esperar que os poderes públicos, em particular as autarquias, procurassem antecipar os seus efeitos sociais, promovendo políticas de habitação capazes de responder às necessidades da população residente, designadamente através da construção de habitação a custos acessíveis.
As autarquias não podiam impedir a chegada de investimento estrangeiro nem controlar todas as dinâmicas do mercado. Mas podiam reconhecer os efeitos que delas inevitavelmente decorreriam. E podiam, sobretudo, ter colocado a habitação no topo das suas prioridades políticas, preparando respostas para um problema cuja evolução se anunciava há muito.
Mas não.
Em demasiados casos, parece ter-se preferido assobiar para o lado. Multiplicaram-se investimentos em festivais, eventos, animação e celebrações diversas, enquanto a habitação acessível permanecia frequentemente remetida para segundo plano.
Não está em causa negar a importância da cultura, do lazer ou dos eventos para a vida económica e social da região. Está, isso sim, em causa questionar as prioridades definidas e a insuficiência da resposta pública perante um problema que ameaça afastar os próprios residentes dos lugares onde vivem e trabalham.
Se era previsível que a conjugação destas dinâmicas viesse a pressionar o mercado habitacional, porque não foram antecipadas as suas consequências sociais? Porque não se planeou com maior antecedência? Porque não se investiu, quando ainda havia margem para o fazer, em soluções habitacionais destinadas à população local?
A crise habitacional não surgiu de um dia para o outro. Não rebentou como uma tempestade inesperada nem caiu do céu como uma fatalidade inevitável. Foi-se anunciando, discretamente primeiro, de forma cada vez mais evidente depois, perante os olhos de todos.
E é precisamente por isso que o problema de hoje não se mede apenas pelo preço das casas. Mede-se também pela incapacidade, ou pela falta de vontade política, de agir quando ainda havia tempo para prevenir aquilo que agora tantos lamentam. Afinal, uma crise anunciada pode ser difícil de evitar. Mais difícil de compreender é uma resposta que teima em chegar depois de se instalar.
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