Na vetusta sala do poder lusitano, onde os retratos de antigos estadistas ainda fingem observar a nação com solenidade, instalou-se há anos uma vocação singular: a de transformar o exercício do governo numa sala de espera para destinos mais cintilantes. Portugal, nesse entretempo, tornou-se país de passagem — não de compromisso.
O primeiro a dar o mote foi um certo Durão, homem de fala pausada e olhar de seminarista arrependido. Quando declarou o país “de tanga” — metáfora mais própria de revista popular que de líder em funções — a expectativa geral era de que, reconhecendo o estado do doente, o tratasse. Mas não: preferiu tratar de si. E, com a leveza de quem troca um casaco amarrotado por traje de gala, embarcou para Bruxelas e, mais tarde, para os salões dourados da finança global, onde a Goldman Sachs lhe ofereceu tapete de entrada.

Jurista
Ah, que lideres temos tido! Uns que fogem, outros que governam de passagem e outros que se despedem em língua alheia
Veio depois António, o Costa, que com maioria absoluta nas mãos — dádiva rara como cometa em noite de nevoeiro — prometeu estabilidade, reformas, futuro. Mas governou de olhos postos no horizonte europeu, como quem organiza a mala antes de decidir o itinerário. Quando o país esperava obra, encontrou ausência; quando pedia rumo, obteve silêncio; e quando reclamava liderança, recebeu… disponibilidade para outras paragens. A pátria, essa, ficou a ver navios — ou melhor, aviões.
E agora, Marcelo, o Presidente dos afetos, que trocou o cetro da magistratura de influência pelo pau de selfie. Homem de mil abraços e mil fotografias, que percorreu o país como mascote de si mesmo, deixando como legado um álbum de família nacional. E eis que, findo o mandato, não se recolhe à biblioteca para escrever memórias, nem ao conselho de Estado para aconselhar, mas antes à Califórnia, onde o sol é mais constante e os alunos mais reverentes. E porque não? Afinal, já discursava em inglês na ONU, como quem ensaia o adeus à língua que o viu nascer.
Ah, que lideres temos tido! Uns que fogem, outros que governam de passagem e outros que se despedem em língua alheia. A pátria, essa senhora envelhecida e esquecida, continua de tanga — mas agora de marca, comprada em saldos europeus, com IVA incluído e patriotismo excluído.
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