Quem foi o rei do Reino do Algarve? No prefácio escrito à obra “Viagem ao Reino do Algarve”, pelo Presidente da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, Ribeiro e Castro, a resposta é clara. E única. O rei do Reino do Algarve é a sua História. Palavras eruditas que alavancam o Algarve. Afinal, esta região poderá ter tido alguma forma de unidade política, de estatuto especial, de longevidade multissecular. Ainda que o seu rei fosse também o rei do Reino de Portugal.
Razões mais do que suficientes para a Universidade do Algarve Editora publicar esta obra. A ser lançada brevemente. Trata-se de um contributo. Talvez modesto. Ou antes, inovador. E discutível, sempre, no plano das ciências sociais. O tratamento do Algarve como Reino, esse, é indiscutível: desde as titulaturas dos reis medievais às expressões utilizadas nas Constituições liberais do século XIX e até ao fim da monarquia portuguesa.

Cabe à Ciência debater e resolver esta questão. Em particular, a Ciência Política. Com a ajuda da sociedade, cultura e politica algarvias. Foi um verdadeiro Reino? Ou um imaginário? Pode um Reino existir sem autonomia, instituições ou leis próprias? Nuno Palma, no seu recente livro “As causas do atraso português” (1ª edição, p. 32) ladeia a questão, considerando-o um mero reino nominal. E, como tal, não suscetível de explicar a construção da ordem politica portuguesa.
Trata-se de um erro profundo. Humildemente, o assumo, pois também, como muitos outros, não dediquei muito tempo a desmontar essa tese. O reino, seria, talvez, um mito, uma construção imaginária, um fabulística heráldica e militar de Portugal. Intrigam-me, neste contexto, as palavras do filósofo Edmund Burke, segundo o qual “ um povo que não conhece a sua História, está fadado a repeti-la”.
O que podemos aprender com a história do Reino do Algarve para o futuro? Que falhanços ou sucessos teve enquanto unidade? Afinal, o que foi esse Reino? Teve instituições ou leis próprias? Quais? Que relevância tiveram para a construção de Portugal? São muitas questões que não podem ser respondidas num simples artigo, mas que o podem convidar à leitura da “Viagem”. Um repto lançado.

Posso, apenas, dizer, que o Algarve tem uma História única a ser revelada e debatida. A compilação de trabalho publicado pela Academia, com relevo para historiadores da Universidade do Algarve, ajudou muito esta construção. Estruturas militares, tributárias e coativas vão acompanhar-nos. A plasticidade e a transferibilidade de governos de armas, instituição formal única no quadro peninsular, também. A explicação do significado do Aquém e Além Mar dos Algarves de um Reino poderá ser caso singular numa História da Humanidade, como seu Património imaterial. Porquê?
Pela transformação duma colisão de imaginários intercontinental numa coesão política assente no mar, convertendo a ordem politica portuguesa a um projeto de rede, mais do que de Império. Por isso, muita simpatia recolheu o Reino dos Algarves numa Europa de resistências a uma hegemonia politica centrípeta imperial.

Para que não fiquem dúvidas: o Reino do Algarve foi objeto de um reconhecimento internacional. Um exemplo geográfico, cartográfico e fotográfico: o globo de 1688 do académico Vincenzo Coronelli vendido a muitos príncipes da Europa na coleção permanente do Bayerisches Nationalmuseum em Munique apresenta o Algarve como uma delimitação geográfica distinta do Reino de Portugal. Muitos outros exemplos poderão ser descobertos nessa Europa fora.
Sem que esta configuração constitua um alento a um separatismo anacrónico, o Reino do Algarve é, de facto, uma construção política única da História de Portugal. E extremamente valorizante do Algarve e Portugal nas suas memórias, identidades e orgulhos. Numa História partilhada. A “Viagem ao Reino do Algarve” está aí a chegar. Em Setembro.
Leia também: Parece dinheiro esquecido, mas é burla: saiba como funciona o truque da nota no Multibanco e proteja a ‘carteira’
















