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Viriato Villas Boas, presidente e fundador da WallRide Associação, escritor e consultor | Foto DR
Opinião

Recuso-me a tratar o meu país por você | Por Viriato Villas-Boas

“O verdadeiro ato de Amor é escolher insistir na critica daquilo que afasta Portugal dos nossos corações”

16:50 18 Agosto, 2025 16:43 18 Agosto, 2025 | Cristina Mendonça
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Eu tenho um defeito. Aliás, tenho vários. Mas neste caso em particular este é um defeito que roça na autoflagelação digital, mas o qual não consigo corrigir, nem em nome da minha saúde.

Na minha vida já consegui deixar de fumar, transitei com a eloquência possível para longe dos excessos da juventude, até consigo manter alguma disciplina no que toca ao exercício físico regular e alimentação (um tanto) equilibrada… Mas, o que não consigo mesmo deixar de fazer é ler comentários nas redes sociais.

Como qualquer pessoa ‘agarrada’ a comportamentos autodestrutivos, não sou imune á manufatura de desculpas:

“É um bom barómetro para o que as pessoas pensam”;

“Em perfis anónimos as pessoas perdem a vergonha, por isso reflete mais genuinamente a sociedade em que vivemos”;

“Ao menos sei com o que contar do mundo que me rodeia”…

Eu, um verdadeiro antropólogo, escondido por entre emojis e likes no Facebook, a observar o troglodita digital, que ainda caminha lado a lado com outros Homo Sapiens Sapiens em tempo real.

Mas apesar de toda a ginástica mental, e valor sociológico que se possa espremer deste exercício, a verdade é que o impulso quase masoquista de absorver informação visceralmente estimulante, é o verdadeiro culpado. Um impulso análogo a alguém que passa por um carro em chamas na berma da autoestrada e abranda inconsequentemente, não para ajudar, mas só para ver – e se der, filmar.

Contemporaneamente, não existem desastres maiores no contexto desta analogia, que os de cariz político, em que aqueles que dizem ‘aquilo que pensam’ (por norma, atrocidades desumanizadoras) chocam com aqueles que nos relembram que há coisas que nem se deviam pensar (como se tal coisa fosse controlável).

‘Amo mais o meu País do que Tu’

Por entre as trincheiras digitais encontramos muitas vezes o mesmo argumento para justificar posições assimetricamente irreconciliáveis: o Amor/Afeto/Respeito/Consideração pelo nosso País.

Por exemplo:

Reconhecimento do Estado da Palestina:

Porque Portugal é um País que se opõe ao genocídio, o mesmo tem de ser a favor. [VERSUS] Portugal não pode compactuar com terroristas do Hamas.

Austeridade e medidas conservadoras:

Porque Portugal é um País Humano, o Estado deve cuidar do Povo. [VERSUS] Os Portugueses e Portuguesas têm de se sacrificar pelo bem da Nação.

Imigração:

Portugal sempre foi uma Nação de Emigrantes e focado nos Direitos Humanos, logo temos de tratar todos e todas como gostaríamos que nos tivessem tratado (ou como gostaríamos que nos continuassem a tratar) [VERSUS] Portugal tem de ser protegido daqueles que se queiram aproveitar dos seus recursos e cidadãos/cidadãs.

Esta é uma lista que claramente poderia ser muito mais exaustiva e detalhada. Mas creio que a mensagem básica é clara:

Quando o conceito de ‘Amor’ á Pátria é algo amorfo o suficiente, o mesmo tona-se num carapuço universal, que cabe universalmente bem a quem o quiser moldar à sua cabeça – Do acéfalo ao cabeçudo, e até ao careca, cabe a todos igual.

Mas isto não é expressão de Amor, e não tem nada a ver com Pátria ou País. Assim como a água ou o ar não têm forma, e só podemos descrever o recipiente que os contém, uma grande parte destas opiniões apenas refletem o individuo e não a veracidade dos factos.

Amor incondicional ou ‘incontextual’?

Assim como existem várias maneiras de amar, também existem diversos contextos. E o gesto certo na hora errada, poderá ser tão nocivo como o gesto errado na hora certa. Na presente realidade existe muita coisa que já não faz sentido, e as boas intenções de antigamente podem ser as imprudências e agressões de hoje.

Para conseguirmos estar o mais próximos possível da realidade atual um misto de três fatores são essenciais:

– Uma capacidade de observação continua (para recolher informação);

– Humildade trabalhada (para poder adaptar comportamentos);

– Flexibilidade temporal (para reconciliar possíveis contradições entre comportamentos presentes e passados).

Ou seja, se conseguirmos recolher informação acerca dos contextos em que nos inserimos, possuirmos a capacidade de reconhecer que estamos errados noutra situação (ou que sempre estivemos errados), e consequentemente efetuarmos mudanças sem comprometer a nossa harmonia interna (moral ou intelectual), possuímos a capacidade global de nos manter atualizados.

O equilíbrio entre a distância do respeito e a proximidade do Amor

No contexto atual Português, tratar alguém por ‘Você’ está cada vez mais associado com respeito, mas um respeito hierárquico e não afetivo. Um respeito que cria um distanciamento entre dois pontos, de modo a favorecer o conteúdo e a performance da interação acima da substância afetiva da mesma.

Paradoxalmente o trato por ‘Tu’ implica um atalho, que corta diretamente através das curvas e contracurvas da etiqueta, e nos traz mais rápida e diretamente até algo ou alguém. Aqui prioriza-se o sentimento, e não o veículo da mensagem, numa linguagem mais intuitivamente emocional, mas também ambígua; uma ambiguidade que é amenizada pela abertura do diálogo, da troca, e da participação igualitária mútua.

A evolução geracional do trato linguístico entre país e filhos é um excelente exemplo, podendo-se observar ainda no seio de várias famílias aqueles que continuam a ter um discurso mais formal para com os seus pais, mas que porventura modificaram essa linguagem para com os próprios filhos – Os ‘filhos de ontem’ que tratam os pais por ‘Você’, são os ‘pais de hoje’ que tratam os seus filhos por ‘Tu’.

Creio que esta evolução acompanha o padrão associado com (1) a evolução do contexto das coisas, (2) a humildade inter-geracional adaptada e conquistada, e (3) a inevitável adaptabilidade que permitiu conciliar todo o processo.

(1) A evolução da nossa sociedade para uma realidade menos austera e mais emocionalmente competente, permitiu (2) uma maior transformação e flexibilidade no tacto interpessoal, num processo encapsulado (3) na adaptação natural às necessidades de todos os envolvidos.

*Claro que em todas as sobre-simplificações pintadas em tom de analogia, existem exceções e casos que são completamente opostos ao descrito… mas o padrão maior mantém-se.

Quem gosta cuida, mas também critica

No início do artigo identificaram-se os seguintes exemplos:

“Reconhecimento do Estado da Palestina:

Porque Portugal é um País que se opõe ao genocídio, o mesmo tem de ser a favor. [VERSUS] Portugal não pode compactuar com terroristas do Hamas.

Austeridade e medidas conservadoras:

Porque Portugal é um País Humano, o Estado deve cuidar do Povo. [VERSUS] Os Portugueses e Portuguesas têm de se sacrificar pelo bem da Nação.

Imigração:

Portugal sempre foi uma Nação de Emigrantes e focado nos Direitos Humanos, logo temos de tratar todos e todas como gostaríamos que nos tivessem tratado (ou como gostaríamos que nos continuassem a tratar) [VERSUS] Portugal tem de ser protegido daqueles que se queiram aproveitar dos seus recursos e cidadãos/cidadãs.”

Após esta configuração conceptual do artigo, creio que se torna mais evidente quais os posicionamentos que se aproximam ao caloroso discurso de amor, e quais os que se afastam do conceito frio e ultrapassado de respeito.

Reconhecimento do Estado da Palestina:

Ter empatia para com um Povo que na sua maioria está a ser chacinado indiscriminadamente (mulheres, crianças, homens, animais, etc.), vem certamente de um local mais alinhado com a afetividade do amor. Em contraste, temos uma racionalidade fria e distorcida que escolhe rotular todo um Povo pelo prisma de uma minoria radical, de modo a justificar esse mesmo distanciamento emocional.

Portugal é uma Nação, e como tal tem voz no panorama internacional (independentemente do quão reduzida). No contexto do genocídio e ocupação da Palestina, a única expressão de amor para com Portugal é seguir a trajetória emocional que não nos deixa aceitar que a nossa Nação se torne num monstro frio, ou que compactue com outros monstros.

Justificar o extermínio de crianças com as ações radicais (racional ou historicamente compreensíveis, mesmo que nem sempre justificáveis) de uma minoria armada da população, é fugir o mais distantemente possível para longe de uma relação afetiva com Portugal.

Se não temos proximidade e sintonia suficiente entre o nosso diálogo emocional interno, e as ações feitas em nosso nome pelo Estado onde habitamos ou votamos… Não somos cidadãos ou cidadãs que amam o nosso país, mas pessoas subjugadas sob o peso do mesmo.

Austeridade e medidas conservadoras:

Esta é provavelmente a analogia mais clara. Li em tempos que os sinais mais evidentes de uma civilização, estão na capacidade de curar os membros da mesma. A ideia aqui é que, se em contextos primordiais aqueles seres humanos, conseguiram mobilizar recursos materiais e sociais para cuidar de alguém – mesmo quando era mais fácil e produtivo deixá-lo/a para trás – então deixámos de ser um conjunto de animais e passamos a ser uma civilização.

Um grupo que abdica de recursos escassos, para partilhar com um/a membro que não consegue produzir nada (comida, trabalho, etc.), esse grupo conseguiu ascender além do que é meramente prático e instintivo. E quando vamos além dos instintos, começamos a nossa longa jornada de (tentar) Ser Humanos.

Por isso é que quando se pensam em Países como sendo a finalidade da existência dos mesmos, e por consequência retiramos as pessoas da equação, estamos a tratar o país por ‘Você’.

Quando temos de racionalizar que existem pessoas sem casa, mas empresas que precisam de resgates financeiros através de dinheiros públicos…

Quando temos de demolir barracas sem providenciar alternativas de habitação viável a pessoas vulneráveis…

Quando temos casas fechadas por disputas de partilha de bens em nome do direito à propriedade privada (um direito a que não me oponho na integra) …

Quando temos superfícies comerciais a destruir comida por não poder ser vendida (apesar de ainda poder ser consumida) e temos pessoas e animais a comer, literalmente, no lixo…

Quando temos ordenados miseravelmente desproporcionais ao volume do trabalho da mão de obra no terreno, e lucros desproporcionais dos patrões distantes desses mesmo/as trabalhadores/as…

Quando demolimos abrigos de animais por questões burocráticas, mas não realojamos os animais que voltam daqueles espaços para as ruas…

Quando temos pessoas a coabitar com os seus agressores porque não conseguem arranjar casa sozinhos…

Quando temos fundos para arte pública, mas não tetos para pessoas…

Quando temos um sistema de saúde, e ensino, cuja qualidade aumenta com o preço (assim como as condições de quem lá trabalha) …

Quando temos todas estas coisas, e tantas, mas tantas outras a acontecer, estamos a tratar o nosso País por ‘Você’. Porque o mesmo não nos dá nem espaço nem razões para o amar… Aqui prioriza-se o ‘respeito’, e o ‘porque sim’.

E apesar de críticas periféricas, a nossa Nação (e outras com problemas semelhantes, iguais, ou piores) prossegue, inabalável no seu trajeto de auto-perpetuação. Distante do afeto das pessoas que o constituem, Portugal prossegue, frio, calculista e racionalista, na sua soberba de existir em nome de uma imortalidade privada de mérito. As pessoas aqui são um mero alimento para uma máquina que exige declamações de amor, mas que só é capaz impor respeito.

Imigração:

Dos vários ângulos possíveis nesta temática, creio que (no contexto deste artigo) o mais relevante se prenda com a ‘Amnésia Seletiva’ que envenena o debate. A frieza do distanciamento dos Seres Humanos da Nação que deles depende, significa que existe uma ginástica mental para retalhar o assunto ‘á lá carte’, degustando um menu de ignorância ativa.

Ora vejamos: No âmbito da visão vazia que dita que ‘Os Portugueses’ sempre tiveram aptidões acima da média para existir fora dos confins do seu país, como constatado pela teoria ultrapassada do ‘Lusotropicalismo’, ou pelas ondas migratórias motivadas (histórica ou contemporaneamente) por austeridade económica, social ou política.

Aqui, de forma muito rápida conseguimos ver uma seletividade na narrativa, porque:

(1) Se Portugal é realmente um sítio e Nação excecional:

– Porque existiu uma resistência indiscutível ao projeto colonial Português?

– Porque tiveram os próprios Portugueses de sair do seu País, para poder viver uma vida digna ou sustentável?

(2) Se o ‘Povo’ Português é assim tão excecional:

– Porque não quiseram os nativos das colónias a sua presença continuada?

– Porque emigraram tantos Portugueses ilegalmente?

– Porque existiram tantos Portugueses a viver em condições precárias ou sub-humanas nos países para onde emigraram?

– Porque foram os emigrantes Portugueses culpados pelos mesmos males que os Portugueses culpam os imigrantes em Portugal presentemente (por exemplo, criminalidade e delinquência)?

Muitos dirão que existiram contextos maiores que Portugal e os Portugueses a influenciar estes acontecimentos… Mas a verdade é que os regimes, pessoas, e sistemas em questão eram em si Portugueses, e constituídos por pessoas Portuguesas. E se esta noção de Portugal é assim tão grandiosa e excecional, a mesma deveria ser sempre superior a qualquer colapso ou falha, pois a excelência Portuguesa em si seria suficiente para colmatar todas e quaisquer dificuldades.

Se o sistema colonial, e o colono Português eram assim tão bons, nenhuma resistência ou colapso teria sido possível…

Se a Nação Portuguesa, independentemente do sistema ou regime que a comanda, é assim tão grandiosa, nunca existiriam razões para a deixar, nem a mesma seria propicia ao desenvolvimento de condições adversas…

Se o Povo Português fosse assim tão superior ou excecional, o mesmo nunca teria sido o protagonista de tamanhas falhas ou má gestão, históricas ou contemporâneas…

Mas a verdade é que, por muito que custe acreditar a algumas pessoas, Portugal é só um lugar no mundo, delimitado por fronteiras imaginadas e justificadas por uma narrativa também imaginada (se bem que vastamente aceite). E o Povo Português é constituído por Pessoas, Pessoas tão Humanas, tão falíveis, tão extraordinárias, tão variadas como as pessoas de qualquer outra Nação. E essa é a ideia racionalizadora do Amor, pela Nação e pelas suas gentes.

Não existem pessoas (e muito menos coletivos de pessoas) perfeitas. A perfeição é um conceito altamente subjetivo, e a pessoa ou país de sonho de uns, pode ser facilmente o pesadelo de outros. Qualquer relacionamento – com outras pessoas, coletivos das mesmas, ou ideias – exige um certo grau de flexibilidade, e também, de gestão de expetativas.

O Amor implica negociação, critica construtiva, aceitação e espaço para diálogo – tudo conceitos incompatíveis com a ilusão de perfeição, e as expetativas surreais que a mesma gera.

Portugal é só um sítio no mapa, assim como alguém que amamos é só mais uma pessoa no mundo. E isto não embaratece nenhuma destas nossas relações, apenas nos equipa com a perspetiva necessária de gerir qualquer situação com base na realidade.

Se eu consistentemente insistir que um familiar cego tem uma visão perfeita, eu nunca vou criar mecanismos eficazes para ter a melhor relação possível com o mesmo. Ou se a minha parceira tiver um comportamento consistentemente incompatível com a minha personalidade, mas escolho simplesmente ignorar o assunto porque aquela pessoa ‘é perfeita’, a relação vai colapsar.

A mesma coisa com Portugal, se continuamos a acreditar que o nosso país e Povo são ‘a última água no deserto’, vamos continuar a perpetuar um ciclo de inércia, que não nos permite nem identificar as áreas de melhoria, nem agir sobre as mesmas; delegando todas as falhas do mundo a tudo e todos/as que nos são estrangeiros.

Não é desrespeito, é Amor

Comecei o artigo por afirmar que tenho falhas, e muitas.

E, além de ler os comentários, também tento (de forma extremamente falível) navegar as minhas interações emocionais em moldes meritocráticos – Inclusive comigo próprio. Diariamente, antes de me deitar, tento avaliar se mereci gostar de mim próprio.

Já estive exposto a contextos e interações suficientes para ter aprendido que (salvo algumas exceções) a incondicionalidade afetiva pode ser tão destrutiva como o excesso de condições. Ou seja, se alguém (incluindo-me nessa equação) mereceu o meu carinho, o meu afeto, o meu reconhecimento, o meu amor… então o mesmo é sem dúvida atribuído.

Por exemplo, a língua Portuguesa reside no meu coração não por ser a minha Língua-Mãe, mas sim por ser a Língua Da Minha Mãe. Esta foi a Língua que me permitiu experienciar interações aprofundadas e significativas com uma das pessoas mais importantes da minha vida durante meus primeiros anos de existência; foi a ferramenta responsável por cimentar este laço afetivo. Sem essa ponte emocional, o que resta são sons, amorfos e mecânicos, tão valiosos e produtivos como quaisquer outras milhares de ferramentas de comunicação disponíveis.

A hierarquização dos afetos constrói-se então com base na longevidade, qualidade e intensidade das interações. ‘A diferença entre família e amigos, é que os primeiros têm um pouco mais de tolerância’, disse eu, há largos anos ao irmão de uma ex-namorada. Isto no contexto de uma relação que eu considerava ser emocionalmente abusiva, e em que o mesmo me disse que tal fator era irrelevante, ‘porque ela é minha irmã e tem obrigação de me aturar’.

A verdade é que se o nosso País não nos dá razões para gostarmos do mesmo, é um ato de tirania que nos seja exigido Amor. O verdadeiro ato de Amor é escolher insistir na critica daquilo que afasta Portugal dos nossos corações. Sem essa postura, o que resta é simplesmente desistir da noção que a nossa Nação alguma vez será capaz de possuir os atributos necessários para o desenvolvimento de um laço afetivo.

O ‘Você’ não Ama nem se Ama, apenas impõe, exige e ordena.

Como tal, recuso-me a não tratar o meu País por ‘Tu’, porque no dia em que a subserviência substituir o afeto, Portugal deixará também de ser a minha a Pátria.

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