Não raro, sobretudo no discurso político, fala-se “aos algarvios” como se se tratasse de um sujeito coletivo inequívoco. A expressão surge com naturalidade, quase como evidência. Mas quem são hoje os algarvios?
Durante décadas, a resposta parecia simples. Num território com menor mobilidade e forte continuidade intergeracional, naturalidade, residência e identidade coincidiam em larga medida. O algarvio era, quase sempre, quem nascera no Algarve e ali permanecia. A categoria tinha densidade social, histórica e simbólica.
Esse quadro alterou-se profundamente.
O Algarve tornou-se uma das regiões mais marcadas pela mobilidade demográfica em Portugal. Residentes estrangeiros fixaram-se de forma permanente. Portugueses de outras regiões mudaram-se por razões profissionais ou por escolha de estilo de vida. Trabalhadores sazonais entram e saem ao ritmo da economia turística. Há ainda quem viva parte do ano na região, participando na sua economia e no seu espaço público sem integrar plenamente as estatísticas da naturalidade.

Jurista
Talvez a questão mais política não seja se o Algarve mudou, mas se continuamos a usar as palavras como se não tivesse mudado. Antes de cada novo “apelo aos algarvios”, talvez valha a pena perguntar: de quem estamos, exatamente, a falar?
Neste contexto, a palavra “algarvios” deixou de ser transparente.
Refere-se aos naturais? Aos residentes? Aos eleitores recenseados? Aos que aqui trabalham e pagam impostos? Aos que se identificam culturalmente com a região, independentemente do local de nascimento? Ou a todos indistintamente?
O uso político da expressão tende a apresentar “os algarvios” como um corpo homogéneo, portador de uma memória comum e de interesses partilhados. Contudo, a recomposição demográfica introduziu uma pluralidade de trajetórias e pertenças que torna essa homogeneidade menos evidente.
Isto não significa que a identidade algarvia tenha desaparecido. Continua viva nas tradições, na gastronomia, na linguagem, na memória familiar e no imaginário regional. Mas já não coincide automaticamente com o conjunto da população que habita o território. Tornou-se uma identidade entre outras, num espaço social mais complexo e diversificado.
A questão ganha particular relevância quando se passa do plano simbólico para o plano da representação política. Se o sujeito invocado — “os algarvios” — não coincide inteiramente com a composição real da população, que implicações isso tem para o discurso público? Quem se sente incluído nessa interpelação? E quem poderá sentir-se apenas tolerado, mas não plenamente reconhecido?
Num regime democrático, a legitimidade política assenta na cidadania e na residência, não na naturalidade. Ainda assim, as categorias simbólicas moldam perceções de pertença e centralidade. Quando se fala reiteradamente “aos algarvios”, pode estar-se a usar uma fórmula inclusiva — mas também se pode, inadvertidamente, reforçar a ideia de que existe um núcleo identitário dominante face ao qual os demais orbitam.
O Algarve contemporâneo é um território plural. A sua vitalidade económica e social resulta, em grande parte, dessa diversidade. Reconhecê-la não diminui a identidade regional; obriga apenas a repensar o seu alcance e os seus contornos.
Talvez a questão mais política não seja se o Algarve mudou, mas se continuamos a usar as palavras como se não tivesse mudado. Antes de cada novo “apelo aos algarvios”, talvez valha a pena perguntar: de quem estamos, exatamente, a falar?
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