Vivemos tempos em que os julgamentos se fazem na praça pública, muitas vezes em segundos, e quase sempre reduzindo tudo a preto e branco. A velocidade das redes sociais e a ânsia de opinião instantânea parecem não deixar espaço para os tons intermédios, para o contexto, para a circunstância. Mas será possível compreender o homem sem atender às circunstâncias que o rodearam?
O filósofo espanhol Ortega y Gasset deixou-nos uma fórmula que continua a ser atual: «Yo soy yo y mi circunstancia, y si no la salvo a ella no me salvo yo». O homem não é apenas vontade isolada. É também o resultado das pessoas com quem se cruzou, dos livros que leu, dos acasos que o marcaram, do tempo histórico em que nasceu. Ignorar isso é amputar a realidade.

Jurista
Na era da opinião imediata, esquecemos que compreender exige tempo e contexto. Reduzimos vidas complexas a etiquetas fáceis: culpado ou inocente, herói ou vilão
É certo que o homem não é mero produto das circunstâncias. Há sempre margem de escolha, espaço de decisão, responsabilidade. Mas essa liberdade é situada: não se exerce no vazio, mas dentro de um horizonte de possibilidades que o mundo oferece. Julgar alguém sem considerar esse horizonte é cair na abstração injusta; negar a sua responsabilidade é cair no determinismo.
Na era da opinião imediata, esquecemos que compreender exige tempo e contexto. Reduzimos vidas complexas a etiquetas fáceis: culpado ou inocente, herói ou vilão. Mas a realidade raramente cabe em binários. O homem é liberdade e circunstância, projeto e condicionamento.
Talvez o maior desafio do nosso tempo seja recuperar a capacidade de julgar com justiça, isto é, com contexto. Reconhecer que cada ato humano se inscreve numa rede de circunstâncias, sem com isso negar a responsabilidade individual. É nesse equilíbrio que se joga a dignidade do julgamento público.
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