Vivemos mergulhados num tempo curioso: um tempo que se ajoelha perante especialistas como quem se ajoelha perante novos sacerdotes. Cada qual guarda o seu pequeno templo — às vezes microscópico — e nós, peregrinos desgarrados, caminhamos com uma devoção misturada de receio, sem saber bem em que altar depositar as nossas aflições. Talvez por isso a história que me contaram — verídica? talvez; retocada pelo folclore oral? provavelmente; irresistível? sem dúvida — ressoe como parábola destes dias.
Diz-se que um homem acordou, certa manhã, com um sobressalto que não admite metáforas: o testículo esquerdo, esse discreto companheiro da anatomia, surgira subitamente inchado como um fruto que amadurece fora de tempo. A dor não permite filosofia, e ele fez o que os mortais de bom senso fazem quando o corpo proclama alarme: procurou o médico de família.

Jurista
A medicina reparte-se em reinos microscópicos; o Direito fraciona-se em províncias herméticas; e as restantes artes inventam novas especialidades como quem inventa sobremesas
O clínico examinou-o com aquele ar atento de quem consulta não apenas órgãos, mas também mistérios. Poucos segundos bastaram para lhe franzirem o sobrolho. Depois, num sopro grave, decretou:
— Isto é para especialista.
E não havia ali protesto possível. O generalista é um navegador no mar largo; não lhe peçam cartografias minuciosas de ilhotas tão íntimas. Com gesto cerimonioso, puxou um cartão do bolso da bata e entregou-o ao paciente. “Marque já; é colega de toda a confiança”, assegurou. Só que a confiança, como sabemos, tem armadilhas. O cartão, por engano, era… do seu advogado.
O homem marcou. Obedientemente. Compareceu no dia combinado. Entrou no gabinete onde o profissional do Direito — alheio ao drama — aguardava com a gravidade própria de quem habita leis e códigos. O paciente, ansioso por atalhar explicações, desapertou as calças, ergueu a camisa e apresentou o problema com a sinceridade nua de quem sofre.
O advogado empalideceu. A voz, que habitualmente acomodava artigos e cláusulas, saiu num fio:
— Perdoe-me… mas deve haver um equívoco! A minha especialidade é o Direito!
E então caiu sobre a sala aquele silêncio peculiar que costuma anteceder uma pequena implosão do universo. O homem, ruborizado mas digno, recompôs as calças com a lentidão de quem devolve as peças a um mecanismo antigo. E murmurou, quase suplicando:
— Peço desculpa, Sr. Doutor… mas eu não sabia que já havia especialistas para cada um dos «tomatinhos»: para o do lado esquerdo e para o do lado direito.
Se a história aconteceu assim, palavra por palavra, pouco importa. Talvez tenha rolado de boca em boca, arredondada como seixos de rio. Mas a parábola mantém o seu brilho: vivemos num mundo tão estreitamente compartimentado que cada profissão se transforma num arquipélago, onde só se entra com visto carimbado. A medicina reparte-se em reinos microscópicos; o Direito fraciona-se em províncias herméticas; e as restantes artes inventam novas especialidades como quem inventa sobremesas.
E nós, pobres viajantes, caminhamos com cartões na mão, esforçando-nos por não entrar no templo errado — não vá o especialista que nos recebe dominar toda a ciência… exceto aquela que fomos lá procurar.
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