Em tempos de fadiga democrática — essa era em que a cidadania disputa espaço com o zapping — talvez tenha chegado o momento de ousarmos onde a Constituição permanece tímida. O Conselho de Estado, digníssimo e respeitável, cumpre o seu papel; mas num país onde os debates se decidem mais nos estúdios do que nas urnas, faz falta um órgão verdadeiramente adaptado ao espírito nacional: um Conselho de Comentadores, entidade suprema da sabedoria televisiva, guardiã da verdade opinativa e árbitra oficial das eleições em horário nobre.

Jurista
Afinal, que valor têm os milhões de votos dos cidadãos se não forem devidamente calibrados por aqueles que, noite após noite, nos esclarecem quem “ganhou” o debate
A proposta é simples e rigorosamente inspirada no grande laboratório democrático contemporâneo: a Eurovisão. Se o festival já conciliou com elegância o voto do público e o veredicto dos júris especializados, por que não aplicar o mesmo modelo à eleição presidencial? Afinal, que valor têm os milhões de votos dos cidadãos se não forem devidamente calibrados por aqueles que, noite após noite, nos esclarecem quem “ganhou” o debate, quem “pareceu mais presidencial” ou quem abusou da vírgula em direto?
O novo modelo proposto
- O povo vota, como manda a tradição.
- O Conselho de Comentadores atribui uma pontuação técnica e artística, de 0 a 12 pontos, conforme o cânone eurovisivo.
- A soma final decide não só quem será Presidente da República, mas também quem terá o merecido privilégio de cantar o hino em playback na tomada de posse.
As vantagens da reforma:
Transparência mediática
Sempre se suspeitou que os comentadores governavam silenciosamente o serão nacional. Com esta revisão, passariam a fazê-lo às claras, com legitimidade constitucional e luzes de estúdio apropriadas.
Espetáculo garantido
Em vez de eleições cinzentas, teríamos um festival pleno de gráficos coloridos, suspense dramático e votações regionais anunciadas com sotaque. A democracia ganharia em audiência, ritmo e banda sonora.
Justiça opinativa
Nenhum candidato ficaria imune ao escrutínio dos especialistas em gestualidade, tonalidade e número de piscadelas por minuto. Finalmente, critérios objetivos.
Conclusão
Se a Constituição é a partitura da democracia, talvez esteja na hora de lhe acrescentar uns acordes elétricos e refrões dignos de final internacional. O futuro da República não pode depender exclusivamente da vontade popular; precisa também da sabedoria dos nossos comentadores, esses verdadeiros presidentes do prime time que, de segunda a domingo, já exercem mandato informal sobre a nação.
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