Há coisas que dizem muito sobre a forma como um município é gerido. A maneira como trata os seus resíduos é uma delas. Em Loulé, basta pensar no problema dos monos abandonados junto aos contentores e tentar encontrar informação sobre os horários de recolha para perceber que há perguntas que precisam de resposta.
Fala-se muito de sustentabilidade, de proteção ambiental e de responsabilidade dos cidadãos. Mas será que estamos a fazer o suficiente para que esses princípios se traduzam em resultados concretos? E será justo responsabilizar apenas os munícipes quando a informação sobre os serviços nem sempre é fácil de encontrar?
Comecemos pelos números. Segundo os indicadores da ALGAR, em 2024 foram encaminhadas para tratamento 53 469,58 toneladas de resíduos indiferenciados provenientes do concelho de Loulé. Em 2023, tinham sido 55 026 toneladas, o que representa uma redução de cerca de 2,83%.
É uma evolução positiva, naturalmente. Mas continuamos a falar de mais de 53 mil toneladas de resíduos num único ano. No mesmo período, a recolha seletiva das principais categorias de reciclagem atingiu 7 595 toneladas e a recolha de bio resíduos totalizou 3 465 toneladas.
Os números mostram que há trabalho a ser feito. Quanto mais conseguirmos separar, reutilizar e valorizar, menos materiais desperdiçamos. E há uma pergunta que considero indispensável: afinal, quanto dos resíduos produzidos em Loulé acaba efetivamente em aterro?
A ALGAR registou, em 2024, 231 150 toneladas de resíduos depositados diretamente em aterro, cerca de 53% do total recebido nas suas instalações. Este é um valor relativo ao Algarve, não apenas a Loulé. Precisamente por isso, considero importante que sejam divulgados dados específicos do nosso concelho, permitindo conhecer os destinos finais dos resíduos e avaliar os resultados da gestão municipal.
Os cidadãos têm o direito de saber o que acontece ao lixo que produzem e quanto custa recolhê-lo e tratá-lo. A transparência não deve ser uma opção: deve fazer parte de qualquer serviço público que se queira responsável.
Mas há um problema que não se resolve apenas com estatísticas. Quem percorre algumas zonas do concelho conhece certamente situações de móveis, colchões e outros objetos abandonados junto aos contentores. A primeira reação é, quase sempre, falar em falta de civismo. E não tenho qualquer intenção de desculpar quem deposita resíduos indevidamente na via pública. Há regras que devem ser cumpridas.
No entanto, será que estamos a olhar para o problema de todos os ângulos?
Na pesquisa que realizei nos canais oficiais do Município de Loulé, não consegui encontrar um calendário público, completo e facilmente consultável com os horários de recolha organizados por freguesia ou localidade. Pode parecer um pormenor, mas não é. Se um cidadão precisa de se desfazer de um móvel ou de um colchão, deve conseguir descobrir rapidamente como proceder, a quem recorrer e em que condições pode solicitar a recolha.
Quando a informação não é clara ou difícil de encontrar, estamos a criar obstáculos a quem pretende fazer as coisas corretamente. Isto não explica todos os casos de abandono de resíduos, mas é uma questão que não pode ser ignorada.
Não basta exigir civismo aos munícipes. É preciso garantir que sabem o que fazer e que dispõem de alternativas acessíveis e eficazes.
É também por isso que considero importante avaliar seriamente o funcionamento da recolha de monos. Quanto tempo demora, em média, a responder a um pedido? Quantas solicitações ficam pendentes? Existem meios suficientes para responder às necessidades de um concelho com a dimensão e a diversidade territorial de Loulé?
Não conheço dados públicos suficientes para responder a estas perguntas com rigor. Mas é precisamente essa ausência de informação que justifica pedir esclarecimentos e exigir uma avaliação transparente do serviço. Se os meios forem insuficientes, será necessário estudar o reforço das equipas, a reorganização dos circuitos ou o alargamento dos horários, sempre que se justifique.
A comunicação é outra questão que merece atenção. Uma gestão moderna dos resíduos não pode limitar-se a publicar campanhas de sensibilização ou a pedir aos cidadãos que reciclem mais. É preciso disponibilizar informação útil, simples e atualizada: horários, calendários, procedimentos para a recolha de monos e contactos para esclarecer dúvidas.
Essa informação deve estar facilmente acessível na página oficial da Câmara Municipal e chegar também às pessoas através das juntas de freguesia e de outros canais de proximidade. Não podemos esperar que todos os cidadãos procurem informação por iniciativa própria quando o município tem a responsabilidade de a tornar acessível.
E porque não olhar para exemplos que já existem noutras regiões do país?
A LIPOR, responsável pela gestão de resíduos de vários municípios da região do Grande Porto, desenvolve modelos de recolha seletiva porta a porta em zonas abrangidas, com calendários e equipamentos adequados. É uma experiência que merece ser estudada, não para ser copiada cegamente, mas para perceber o que pode ser adaptado à realidade de Loulé.
O nosso concelho tem características próprias, com zonas urbanas, localidades dispersas e uma população que aumenta significativamente em determinados períodos do ano. A resposta deve ter isso em conta. Em algumas zonas, a recolha porta a porta poderá ser uma solução interessante; noutras, sistemas de proximidade bem organizados poderão funcionar melhor.
O essencial é que exista planeamento e que as decisões sejam tomadas com base nas necessidades reais da população.
Também a compostagem doméstica e comunitária, a reutilização de mobiliário e a recuperação de equipamentos podem ajudar a reduzir a quantidade de resíduos encaminhados para tratamento. Em vez de olhar para tudo como lixo, precisamos de aproveitar melhor os recursos que ainda têm valor.
Defendo, por isso, que o Município de Loulé divulgue anualmente um balanço claro dos resíduos recolhidos e dos seus destinos, publique os horários de recolha por localidade, simplifique os pedidos de recolha de monos e avalie se os meios disponíveis são suficientes. Defendo ainda que sejam estudadas soluções de recolha adaptadas a cada zona e reforçadas as iniciativas de compostagem e reutilização.
Não são propostas extraordinárias. São medidas concretas que permitiriam melhorar os serviços, facilitar a vida aos munícipes e avaliar os resultados de forma objetiva.
A responsabilidade é partilhada. Os cidadãos devem separar os resíduos, cumprir as regras e não abandonar objetos na via pública. Mas o município tem de garantir que a informação chega às pessoas e que os serviços funcionam de forma acessível e eficaz.
Não pretendo desculpar quem abandona resíduos na rua. Mas também não aceito que se fale apenas em falta de civismo sem questionar se a informação é clara, se a recolha responde às necessidades e se existem alternativas práticas para os cidadãos.
Loulé precisa de uma gestão de resíduos que funcione na prática, não apenas no discurso ambiental. Precisa de mais transparência, melhor comunicação e vontade de corrigir aquilo que não está a resultar.
Porque uma terra que se quer sustentável não se distingue apenas pelo que anuncia. Distingue-se também pela forma como cuida dos seus espaços, gere os seus recursos e respeita quem nela vive.
E é por aí que a mudança tem de começar.
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