Silves é um exemplo de escola. Poucas cidades portuguesas têm como ícone um castelo. Talvez Guimarães, o berço do rei fundador. Mas a sua dimensão é exígua. Pois um castelo não é só uma construção militar. É também símbolo de robustez, força e significado geopolítico quando adotado numa bandeira. O que terá Silves merecedor de ensino aos jovens e comunicação a seus visitantes?
Resposta: A geografia da segurança! O primeiro S. As condições escolhidas para a urbe: não exposição ao mar e seus perigos; acessibilidade por um estuário profundo cercado por colinas envolventes, incluindo o ilhéu do Rosário, para alertar incursões desfavoráveis. Inexistência de caminhos diretos do litoral. Alto sobranceiro a rio para vigilante castelo e armazenamento seguro. Um palco privilegiado militar medieval.
A segurança é objetivo e razão de ser das ordens políticas. E a engenharia o seu instrumento. Segurança é necessidade física e psicológica vital, básica e fundamental da vida humana, individual e coletiva. Com várias dimensões: pessoal, alimentar, económica. Governantes construíram castelos, cisternas, muralhas com armas para a sustentar. Verifique-se em Silves o castelo, a porta da almedina, extensões da muralha a nascente a outras isoladas a poente. Imagine-se na Idade Média. Uma foto aérea atual ainda perceciona o seu alcance.

“Viagem ao Reino do Algarve” e “Portugal Geopolítico”
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Legitimidade política mede-se pelas muralhas que protegem um povo. Quanto mais este contribuir para defesa, aceitando taxação em troca de um urbanismo amuralhado protetor e independente de tiranos para pagar tributo. Ordem política de sucesso é percebida e sentida enquanto comunhão de segurança entre um povo e seus governantes. Castelos, muralhas, tecidos urbanos são tecnologia de segurança populacional. Silves tem castelo e Portugal tem-nos na sua bandeira! Bem-vindos! Sobre berços, Silves tem o seu lugar próprio na história nacional e que conquistou com dignidade geopolítica.
Relembremo-la. Após desmembramento do Califado de Córdova (1031), Silves foi capital intermitente de reinos de taifa. Com a conquista cristã, foi sede de um almoxarifado tributário no século XIII no Reino do Algarve. E de um Rei de Armas auxiliar quando Portugal construía o Império na África muçulmana! Faz sentido: o primeiro poderia financiar o segundo. Fez parte do arcebispado de Sevilha até 1394, numa hierarquia eclesiástica distinta das restantes dioceses portuguesas, prova de que a evangelização cristã não era preocupação primordial do poder secular.

Segundo S. A sabedoria! Um urbanismo define-se pela capacidade de armazenar alimentos, recolher água e acumular conhecimento! De militares destruidores a engenheiros construtores; de comerciantes mercadores a eclesiásticos e poetas espiritualizadores.
A cidade teve, designadamente, governantes poetas e filósofos, como Ibn Amar ou Ibn Qasi. O seu atual brasão municipal é único: integra tanto a simetria axial de reis muçulmanos e cristãos do brasão do Algarve quanto as cinco quinas das armas de Portugal. Um respeito mútuo! Passado prestigiado e futuro promissor! Um exercício de geopolítica inclusiva invulgar na Europa cristã. O rei Afonso III seguiria em Silves o exemplo lisboeta de Afonso Henriques em Lisboa quanto à alforria de mouros seguindo usos, costumes e foro outorgado aos olisiponenses em 1179.
Teixeira e Valla em o Urbanismo Português (1999) afirmam que Silves, a par de zonas de Lisboa, é a cidade portuguesa com um melhor desenho urbano de influência muçulmana. O castelo em colina relembra as alcazabas andaluzas. As torres albarrãs, a Porta da Almedina com entrada em ângulo para o núcleo histórico e portas duplas no acesso testemunham segurança militar sagaz.

Largos (ex: António Enes, Al-Mutamid) funcionavam como antigos rossios extramuros com funções de preparação militar, de feiras, festas e formas de vida nómadas segregadas. Uma segurança extramuros. Pela porta da Almedina seguem-se ruas laterais, «em cotovelo», travessas e becos. Casas abrem para pátios interiores. Intimidade própria do Corão com diferentes perfis no seu percurso.
Terceiro S. O serpenteante rio Arade e seu reflexo no tecido urbano, da ponte medieval pela Rua Moinho da Porta à Porta da Vila, e desta pela Rua da Porta de Loulé, Castelo e Rua Batista Lopes (algarvio e corógrafo do Algarve no século XIX) até ao Castelo rodeado de colinas com estradas sinuosas. Um excelente percurso de portas e caminhos para o turismo militar que tem na serpente alada desde a dinastia de Avis o símbolo heráldico do Exército português.
Silves, capital de reino medieval. Sancho I intitular-se-ia Rei de Portugal, Silves e Algarve conforme a estátua e pergaminho em bronze o recorda no castelo. Urbanismo avançado justificá-lo-ia. Habitações e cisternas na rua do Castelo do Aljibe; dos Cães, poço com escada lateral circular no seu museu municipal, exemplar único em Portugal, nora comunitária almóada. Arqueologia recupera atualmente troços da Couraça do Castelo, audaz engenho hidráulico comunicante de galerias laterais para abastecimento de água do rio ao castelo, constituindo surpresa a um cruzado anónimo narrada na conquista cristã. Técnicas de sua purificação pelo almagre ocre de minerais das rochas de grés e calcário consolidavam salubridade citadina.

A legitimidade silvense deu-lhe força e identidade na revolta, seja pelo malogrado poeta Ibn-Amar, governador, contra Al-Mútamid, rei de Sevilha, seja também por Ibn-Qasi, sufista e aliado de Afonso Henriques, assassinado em 1151. Não há dignidade sem sacrifício!
Conclui-se a viagem pelo caminho dirigido ao outrora Reino de Portugal. Num marco, monumento dádiva de Manuel I, a Cruz de Portugal, simbolizando limite, orla exterior, fronteira imaginária com Portugal e saída geográfica de segurança multisecular que Silves arduamente engenhou.
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