À primeira vista, Oslo até pode desapontar. Para quem esperasse uma cidade arquitectonicamente monumental, ao jeito do que acontece no Báltico, pode parecer pouco. Mas seria um equívoco.
Desde logo a sua situação, geográfica, o cenário. Braços de água, que avançam pela frente marítima da cidade como mãos num monte de areia, definindo penínsulas, reentrâncias caprichosas que se combinam com uma orografia criativa, cheia de colinas estrategicamente distribuídas pela malha da cidade. Em vez de um centro histórico castiço há vários pontos icónicos, ligados por uma malha urbana que tem o condão de, não só não agredir os elementos fundamentais como, e através da sua singeleza, criar uma tessitura que é muito agradável.

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Na frente ribeirinha, há dois elementos fundamentais: a fortaleza de Akershus, desde o século xiii nas margens do Fiorde de Oslo, com as suas muralhas, casamatas, armazéns históricos em torno do castelo que acolhe a igreja e a cripta com os mausoléus dos reis da Noruega desde os tempos da fundação; e em frente, do outro lado de uma baía modesta, o edifício, magnífico, da ópera de Oslo, um projecto extraordinariamente bem conseguido dos arquitectos Snøhetta que também assinaram a moderna biblioteca de Alexandria. No exterior vemos um anfiteatro ondulante em degraus de mármore branco, que também evocam o volume de um iceberg, que parece emergir do mar. E dentro, o revestimento com carvalho nórdico, esplêndido, que contribui fortemente para a acústica notável dos auditórios. Há anos tive o privilégio de assistir ali a uma representação da ópera de Benjamin Britten, Peter Grimes, com uma forte ligação à Noruega, que me deixou siderado.

Ainda, um pouco atrás, como que espreitando abrigado pelo corpo da ópera, está o museu Munch, nome do ícone da pintura expressionista, que para além de abrigar três das quatro versões do famoso quadro, o grito, conta com dezenas de milhares de outras peças do autor, sendo que algumas, as apresentadas no quarto andar, são substituídas diariamente, para que a rotação cuidada ajude a preservá-las, evitando o desgaste inerente à sua exibição. Há um texto em que Munch aborda a criação da tela, mencionando uma caminhada por um trilho ao longo do fiorde com a cidade na sua frente, quando inesperadamente, ao pôr do sol, as nuvens assumiram uma cor vermelho-sangue que o levou a sentir como que um grito infinito perpassando pela natureza. Quem sabe, então, o próximo passo na exploração da cidade possa ser o encetar dessa caminhada ao longo do trilho no Ekebergparken…

Mas os atractivos da cidade não se limitam a esse sector da marginal. Na península de Bygdøy, face à cidade, do outro lado do fiorde, ficam alguns museus importantes, mas quero ressaltar aqui o museu Kontiki dedicado ao explorador norueguês Thor Heyerdahl que apresenta objectos fascinantes associados às suas explorações e teses científicas e a jangada com que as quis demonstrar, toda feita em madeira-balsa e que seguiu como ele previra, as correntes do Pacífico desde a costa peruana até Rapa Nui, a ilha de Páscoa. Mais de uma década depois da minha primeira visita ao museu em Bygdøy, cumpri uma espécie de promessa que ali fiz e visitei, por fim, a pequena ilha no Pacífico – mas isso ficará para outra crónica. Da pena de Thor Heyerdahl importa ler: A Expedição Kon-Tiki (1948) e Aku-Aku: O Segredo da Ilha de Páscoa (1957).
Incontornável é o prémio Nobel norueguês Knut Hamsun e a sua obra-prima: Fome, publicado no final do século dezanove que narra a descida aos infernos de um jovem escritor que deambula, atormentado pela miséria e pela fome, pelas ruas da cidade. Fome funciona como um mapa emocional da cidade, com abundância de referências, que podem facilmente tornar-se num prazeroso desafio de leitura durante a visita. É uma obra-chave do modernismo que veio a influenciar alguns grandes, como Kafka e Hemingway.

Se lhe sobrar orçamento – subsistir em Oslo pode ser um verdadeiro desafio – a saga familiar de Lars Saabye Christensen, O Meio-Irmão, acompanha a vida de duas gerações na cidade entre o final da segunda guerra mundial e a década de sessenta, em que o narrador, um guionista de cinema se afoita a reconstituir o passado da família para tentar entender a sua própria identidade. O enfase, aqui, situa-se no bairro de Fagerborg e o relato é uma declaração de amor à cidade.
Por fim, a Biblioteca Pública de Oslo, alberga o projecto da Biblioteca do Futuro. Mas na sua visita, invariavelmente chegará cedo de mais… aqui, ao ritmo de uma obra por ano, manuscritos inéditos de autores contemporâneos famosos, ficarão guardados um século, até 2114, quando os textos serão finalmente publicados. Sabemos já que Margaret Atwood, Eli Shafak e Han Kang, já depositaram os seus contributos. Ainda é cedo, mas, porventura, só o deambular pelo espaço da biblioteca, será recompensa suficiente, enquanto aguardamos o desvelar e publicação das obras.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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