No final do 3.º milénio a.C. dá-se uma rutura na estável e produtiva sociedade agropastoril: uma redução demográfica, povoados colapsam, outros mostram redução das áreas ocupadas e a concentração das populações em “cidades” de grande dimensão e amuralhadas. As causas são desconhecidas, embora se apontem, entre outras, a chegada de novos povos a partir de 2400 a.C.
Por esta altura, os Yamnaya, povos vindos das estepes a Norte do Mar Negro (Ucrânia-Rússia) que se vinham deslocando desde meados do 5º milénio em direção a Oeste, atingem a Península Ibérica em vagas de pequenos grupos que coexistiram nas proximidades das comunidades autóctones.

Professor coordenador (aposentado).
Escola Superior de Educação e Comunicação, Universidade do Algarve
Possuidores de uma cultura muito diferente: O povo da cultura Yamnaya tinha olhos castanhos, cor da pele intermédia e cabelo castanho escuro, embora surgissem pessoas com cabelo louro; tolerantes à lactose, uma economia ganadeira com manadas que manejavam a cavalo, carruagens/carroças puxadas por bois, associados à difusão da cerâmica campaniforme e uma cultura de enterramentos em túmulos com os corpos em decúbito com as pernas fletidas lateralmente, frequentemente cobertos de ocre e com pouco espólio. A presença de armas no espólio funerário de indivíduos Yamnaya, mostra o seu carácter guerreiro, que o domínio do bronze e do cavalo terão afirmado como dominadores.
Assiste-se a uma mudança radical na genética peninsular. Não obstante a composição genética feminina não se alterar na globalidade da Península, a estrutura genética masculina é substituída, em apenas 400 anos, pela genética dos homens Yamnaya. São várias as hipóteses para explicar o sucedido: massacre dos homens locais, confisco das mulheres, preferência das mulheres por estes cavaleiros ou ainda uma doença a que as populações locais masculinas não eram resistentes. O que é certo é que a genética Yamnaya se generalizou em toda a península.

Não obstante os Yamnaya já possuírem armas em bronze, esta tecnologia apenas terá chegado à Península por difusão cultural cerca de 1700 ac., no Norte de Portugal, com carácter doméstico e só terá chegado à Andaluzia e à bacia do Sado no final do 2º milénio. Teorias fundamentadas defendem que é desta população Yamnaya que surge a cultura Celta, na região Sado-Tejo, e que se expande pelo litoral atlântico até às ilhas britânicas e centro da Europa, todavia é de considerar que esta evolução terá ocorrido independentemente em vários locais, nomeadamente Hallstatt (Áustria), onde a descoberta da tecnologia do ferro (1200-1000 ac.), e a sua rápida expansão, permitiu aos Celtas dominarem a Europa e na Península ocuparem parte do território, gerando sub-culturas territoriais de natureza e cultura Celtas: os Lusitanos, os Celtiberos, os Galáicos, os Asturos, os Cantabricos, os Celtici, no Alentejo, entre outros, mas não a faixa Este e Sul, da Catalunha ao Algarve.
No Sul, os pequenos assentamentos nas proximidades da costa e estuários, junto a terrenos férteis mantêm uma economia agropastoril complementada por recursos marinhos e fluviais, especializam-se na produção de materiais, como cerâmica, tecelagem, metalurgia do cobre, de que a Serra Algarvia era rica, formavam uma teia dispersa de comunidades confluindo para um assentamento litoral donde partia a circulação de produtos por via marítima.
A colina de Santa Maria, ocupada na face sueste, por um povoado com boas condições de defesa e para o comércio marítimo e controlo do trânsito entre o litoral e o interior de uma região farta em recursos, gradualmente se assumiu como polo de exportação donde partia a circulação de produtos por via marítima por todo o arco atlântico-mediterrânico. Este comércio promoveu interações étnicas e culturais, em especial, com o Mediterrâneo Oriental, com consequente desenvolvimento das comunidades: crescem em população, complexidade social e o empoderamento de uma elite especializada no armazenamento, comércio e atividade portuário-naval, assumindo-se como proto-capital de um território que adquire identidade. A importância deste povoado justificou a necessidade de construir uma muralha, no final do século VIII ac., no tempo dos primeiros contactos com o mundo fenício.
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