Fábio Paim é, provavelmente, um dos maiores exemplos de talento desperdiçado no futebol português. Um jovem que chegou a ser considerado uma das maiores promessas da sua geração, mas cuja vida acabou marcada por polémicas, excessos, decisões erradas e problemas com a Justiça.
O seu percurso está longe de ser exemplar. As oportunidades desperdiçadas, os episódios ligados ao mundo da droga, as polémicas pessoais e os sucessivos escândalos contribuíram para construir uma imagem pública profundamente negativa.
Mas será que um passado marcado por erros transforma automaticamente um homem em culpado de tudo aquilo de que é acusado?
A recente acusação de violação que envolve Fábio Paim voltou a colocar o seu nome no centro da polémica. E, como tantas vezes acontece em Portugal, parece que uma parte da sociedade já proferiu a sentença, muito antes de o tribunal o fazer.
Sou amigo pessoal de Fábio Paim. Conheço a pessoa, conheço parte do seu percurso, conheço os seus defeitos e também as suas qualidades. Mas conheço igualmente a lei. E, acima de qualquer amizade, está o respeito pelo Estado de Direito.
Não escrevo estas palavras para defender o indefensável, nem para desvalorizar uma acusação tão grave como a de violação. Escrevo porque acredito que a presunção de inocência não é um privilégio reservado aos cidadãos com um passado irrepreensível. É um direito constitucional de todos.
O artigo 32.º, n.º 2, da Constituição da República Portuguesa estabelece que todo o arguido se presume inocente até ao trânsito em julgado da sentença de condenação.
E esse princípio aplica-se a Fábio Paim, como se aplica a qualquer outro cidadão.
É evidente que os erros acumulados ao longo da sua vida contribuíram para uma espécie de metamorfose da sua imagem pública. O menino-prodígio transformou-se no futebolista problemático, depois no homem dos escândalos e, finalmente, numa figura sobre a qual muitos parecem estar preparados para acreditar no pior.
Mas uma condenação por tráfico de droga não é prova de um crime de violação. Uma vida de excessos não é uma sentença judicial. E uma má reputação nunca poderá substituir os factos.
Também não devemos esquecer quem apresenta uma denúncia. Uma acusação desta natureza exige investigação rigorosa, respeito por todas as pessoas envolvidas e uma Justiça capaz de apurar a verdade sem pressões mediáticas.
Não devemos julgar apenas por julgar. Não devemos condenar apenas porque é mais fácil condenar. E também não devemos absolver apenas porque conhecemos ou gostamos de alguém.
Não conheço todos os factos deste processo. Não tive acesso à totalidade da prova e não pretendo substituir-me aos tribunais. Ser amigo de Fábio Paim não me dá o direito de proclamar a sua inocência, da mesma forma que o seu passado não dá a ninguém o direito de antecipar a sua culpabilidade.
Aquilo que sei é que a verdade, tal como o azeite, tende sempre a vir ao de cima. E é precisamente por acreditar nisso que considero fundamental aguardar serenamente pelo trabalho da Justiça.
Se for considerado culpado, deverá responder pelos seus atos. Se não for provada a sua culpabilidade, deverá ser respeitada a decisão do tribunal. Sem julgamentos de conveniência, sem tribunais populares e sem condenações antecipadas.
Porque a verdadeira grandeza de uma sociedade não se mede pela facilidade com que condena aqueles de quem desconfia, mas pela coragem com que respeita os direitos daqueles de quem seria mais fácil desistir.
Talvez este processo não venha apenas colocar Fábio Paim perante um tribunal. Talvez venha também colocar a sociedade portuguesa perante um espelho. Um espelho onde veremos a nossa facilidade em condenar, a nossa atração pelo escândalo e a nossa dificuldade em separar factos de perceções.
E, no fim, resta-nos uma pergunta que deveria incomodar-nos a todos:
Queremos verdadeiramente saber se Fábio Paim é culpado, ou estamos apenas à espera que um tribunal confirme aquilo que já decidimos acreditar?
Não condenamos ninguém. Não absolvemos ninguém. Apenas recusamos que o preconceito ocupe o lugar da prova e que a opinião pública se sente na cadeira do juiz.
Até lá, que falem os factos.
Que fale a prova.
Que fale a Justiça.
E que o silêncio da nossa prudência seja sempre mais forte do que o ruído dos nossos preconceitos.
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