Há personagens literárias que parecem destinadas a renascer noutras épocas, com outros rostos e em diferentes contextos sociais. Jay Gatsby, a personagem imortalizada por F. Scott Fitzgerald em O Grande Gatsby, é uma delas. E, olhando para a sociedade portuguesa contemporânea, é difícil não encontrar alguns paralelismos entre o misterioso milionário dos anos 20 e João Barbosa, mais conhecido como Numeiro.
À primeira vista, a comparação poderá parecer exagerada. Afinal, o que terá um jovem youtuber português, que construiu uma fortuna através da internet e de diferentes negócios, em comum com uma das personagens mais fascinantes da literatura americana?
Talvez muito mais do que aquilo que imaginamos.
Gatsby nasceu longe dos salões aristocráticos que tanto desejava frequentar. Era um homem de origens humildes que, através de uma fortuna envolta em mistério, procurou reinventar-se. Não lhe bastava ser rico. Precisava de ser reconhecido como alguém que pertencia a um mundo que, na verdade, nunca o tinha considerado um dos seus.
Numeiro, guardadas as devidas distâncias, parece percorrer um caminho semelhante.
Um jovem de origens modestas que encontrou na exposição mediática, na irreverência, na polémica e em diferentes atividades empresariais os instrumentos para construir uma riqueza considerável. A legitimidade e a natureza de algumas dessas atividades têm sido objeto de discussão pública, mas não é esse o verdadeiro centro desta reflexão.
O que me interessa é aquilo que acontece depois de alguém conquistar dinheiro suficiente para comprar praticamente tudo aquilo que desejou durante a juventude.
Porque existe uma diferença profunda entre ter dinheiro e pertencer a uma determinada classe social.
E é precisamente nessa fronteira invisível que começa a tragédia de Gatsby.
O milionário americano organizava festas monumentais, recebia centenas de convidados, exibia automóveis extraordinários e vivia numa mansão que parecia saída de um conto de fadas. Mas, por detrás de todo aquele espetáculo, escondia-se um homem desesperadamente interessado em conquistar a aceitação de um círculo social que continuava a olhar para ele como um intruso. O dinheiro abria-lhe as portas das festas. Não lhe garantia, contudo, um lugar à mesa da verdadeira aristocracia.
Em Portugal, onde os apelidos, as relações familiares, os círculos de influência e determinadas tradições sociais continuam a ter um peso significativo, esta realidade assume contornos particularmente interessantes.
Numeiro parece procurar, cada vez mais, aproximar-se de ambientes associados à burguesia tradicional, à aristocracia e até a figuras ligadas à antiga realeza portuguesa.
E aqui surge a pergunta inevitável: será esta aproximação apenas o resultado natural de uma ascensão económica ou representará também uma necessidade de reconhecimento social?
Não tenho a resposta. Mas a semelhança com Gatsby é demasiado interessante para ser ignorada.
Porque o dinheiro novo tem uma característica que o dinheiro antigo raramente precisa de demonstrar: a necessidade de provar constantemente que existe.
O dinheiro antigo pode ser discreto, quase invisível. O dinheiro novo, sobretudo quando nasce da exposição mediática, tende a transformar-se num espetáculo permanente.
Os automóveis, as viagens, as festas, as companhias e os lugares frequentados deixam de ser apenas experiências pessoais. Transformam-se em símbolos de estatuto, destinados a comunicar ao mundo que alguém chegou finalmente ao topo.
Mas terá realmente chegado?
A sociedade portuguesa possui uma particular crueldade nesta matéria. Gosta de admirar quem enriquece, mas nem sempre está disposta a aceitar quem enriqueceu como um dos seus.
É capaz de aceitar o dinheiro de alguém sem aceitar verdadeiramente a sua presença.
É capaz de frequentar as suas festas, usufruir da sua generosidade e sorrir para as fotografias, mantendo, contudo, uma distância social que nenhum saldo bancário consegue eliminar.
E talvez seja esta a dimensão mais triste da comparação.
Gatsby estava rodeado de pessoas, mas profundamente sozinho. A multidão que frequentava as suas festas desapareceu quando deixou de haver champanhe, música e espetáculo. No final, quando Gatsby morreu, quase ninguém apareceu no seu funeral.
Essa é, provavelmente, uma das mais devastadoras lições da literatura moderna: a popularidade não é amizade, a admiração não é respeito e a proximidade social não significa pertença.
Não pretendo afirmar que Numeiro terá o mesmo destino, nem reduzir a sua personalidade a uma personagem literária. Seria injusto e intelectualmente desonesto.
Mas confesso que, ao observar determinadas manifestações públicas da sua ascensão social, encontro ecos daquele homem que, do outro lado da baía, contemplava uma pequena luz verde, convencido de que, com dinheiro suficiente, conseguiria finalmente alcançar o mundo a que desejava pertencer.
Há também uma ironia nesta história.
Talvez o problema não esteja em Numeiro querer entrar nesse mundo. Talvez esteja no próprio mundo, que continua a medir o valor das pessoas pela origem familiar, pelo apelido e pelas relações herdadas.
Afinal, que superioridade moral pode reivindicar uma aristocracia que despreza o dinheiro novo, mas tantas vezes vive confortavelmente à sombra de fortunas antigas cuja origem também nem sempre foi exemplar?
Gatsby não era necessariamente menos digno do que aqueles que o desprezavam. Em muitos aspetos, era até mais genuíno na sua capacidade de sonhar.
E talvez Numeiro, com todas as suas contradições, represente também esse confronto entre duas realidades: a de quem conquistou riqueza fora dos circuitos tradicionais e a de quem continua a acreditar que o estatuto social é uma herança, e não uma conquista.
No entanto, existe uma armadilha perigosa em procurar a validação daqueles que nunca nos quiseram aceitar.
É que, quando alguém passa a medir o seu sucesso pelo reconhecimento de uma elite, entrega a essa mesma elite o poder de decidir se a sua vida foi ou não bemsucedida.
E nenhuma fortuna deveria conceder tamanho poder a terceiros.
Não sei se João Barbosa alguma vez leu O Grande Gatsby. Mas talvez devesse.
Não para aprender a enriquecer. Essa parte, aparentemente, já conseguiu. Nem para aprender a organizar festas, exibir luxo ou conquistar notoriedade. Também aí parece dispensar lições.
Deveria lê-lo para compreender que há uma diferença abissal entre ser convidado para uma festa e ser verdadeiramente bem-vindo.
Entre ser admirado pelo que se possui e respeitado por aquilo que se é.
Entre comprar uma mansão junto dos poderosos e conquistar um lugar genuíno entre as pessoas que realmente importam.
Porque, no fim, o maior drama de Gatsby nunca foi a origem da sua fortuna, nem sequer a impossibilidade de conquistar Daisy.
Foi ter passado grande parte da vida a tentar tornar-se suficientemente importante aos olhos de pessoas que nunca foram suficientemente importantes para merecer tamanho esforço.
E talvez seja essa a grande lição que o Grande Gatsby português ainda esteja a tempo de aprender: o dinheiro pode comprar o convite, o champanhe e até a companhia. Mas nunca poderá comprar a sinceridade de quem levanta o copo.
E, quando a festa acabar, a verdadeira riqueza será descobrir quem ficou.
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