Há instituições que atravessam séculos graças a uma fantástica flexibilidade; outras sobrevivem talvez porque todos nos esquecemos de questionar a sua utilidade. A aristocracia, numa proeza notável, consegue a façanha de pertencer a ambos os grupos. Mesmo desprovida de qualquer poder real, órfã dos seus velhos privilégios e reduzida, no fundo, à gestão nostálgica do pó dos seus antepassados, mantém uma autoestima tão inabalável que deixaria roxo de inveja qualquer organismo que sirva, de facto, para alguma coisa.
É, pois, com um interesse antropológico reservado às espécies resistentes à extinção social que aguardo a boda do infante D. Dinis, filho mais novo dos Duques de Bragança, com a condessa austríaca Anna Schaffgotsch von und zu Kynast und Greiffenstein, baronesa de Trachenberg, cerimónia anunciada para Lisboa, em 16 de outubro de 2027.
O evento promete juntar, na mesma sala, relíquias que o tempo teima em não extinguir: brasões e poses herdadas, apelidos com hífen e a bela ilusão de que nascer num berço de ouro equivale a um doutoramento. O amor? Detalhe irrelevante. O que importa aqui é o pedigree; afinal, se o sentimento serve para os noivos, o registo da etnia pura, da reprodução social da casta, é o que realmente acalma o coração dos arquivistas.
Poder-lhe-ão chamar um comício de vaidades, mas é o chão onde o útero materno é celebrado como o melhor currículo do mundo.
Confesso que nunca compreendi inteiramente esta ciência da superioridade hereditária. Nasci plebeu, circunstância que não me envergonha, embora tenha exigido de mim esforços que um apelido ilustre talvez tivesse dispensado. Atravessei os corredores da instrução pública, subi, degrau a degrau, a escadaria universitária e aprendi, à minha custa, que o conhecimento não se herda, a inteligência não se transmite por escritura notarial e a competência, ao contrário dos títulos, carece de demonstração.
A aristocracia, porém, possui uma vantagem que os diplomas académicos não oferecem: dispensa a prova. Uma pessoa pode passar a vida a estudar, a trabalhar, a errar e a corrigir os seus erros sem conseguir que o mundo lhe reconheça a grandeza; outro, por um desses caprichos da biologia que a sociedade elevou à categoria de instituição vitalícia, recebe à nascença uma respeitabilidade que não precisou de conquistar. A um, exigem-lhe provas; ao outro, basta-lhe o registo de nascimento.
Não pretendo, todavia, fazer da República um altar de virtudes. Conheço o suficiente a vida pública para saber que a ausência de sangue azul não garante a pureza do sangue político. Os partidos instituíram, por vezes, as suas próprias pequenas aristocracias, com lugares reservados, sucessões preparadas com bastante cuidado e uma notável habilidade para converter a lealdade em mérito e o mérito em inconveniência. Mudaram os brasões, mas nem sempre mudou a lógica do privilégio. Onde antes havia uma linhagem, há agora uma estrutura; onde se exigia ascendência, agora pede-se obediência. A democracia, quando adormece, também produz dinastias, ainda que eletivas.
Mas voltemos à boda, que é o que nos interessa e, sobretudo, o que nos provoca bom humor.
Imagino Lisboa preparada para receber tão distinto acontecimento. Os convivas chegarão com a gravidade de quem transporta nos ombros vários séculos de História, embora não seja certo que tenham lido algum deles. Haverá vestidos escrupulosamente escolhidos, com atenção aos mínimos detalhes, cumprimentos medidos ao milímetro e conversas em que cada nome próprio será pronunciado como se a sua correta articulação pudesse alterar o destino da Europa.
O nome da noiva, Anna Schaffgotsch von und zu Kynast und Greiffenstein, baronesa de Trachenberg, não é propriamente um nome. É uma maratona ortográfica oferecida por umalista completa dos termos e condições da nobreza alemã. Chamar a senhora para jantar exigirá tanta capacidade pulmonar que o mordomo precisará de assinar um termo de responsabilidade e ter uma ambulância do INEM à porta.
Imagine-se o pânico do pobre tabelião, mais habituado a nomes que cabem numa linha. Olhando para o papel como quem descobre um novo continente, terá o árduo trabalho de soletrar tudo sem errar uma única letra, lutando contra a vontade de lhe implorar por uma versão reduzida.
Coitado, vai precisar de três meses de férias e de um balão de oxigénio para conseguir passar a certidão, não sem que antes contraia uma tendinite crónica só de começar o apelido.
Não o censuro. A burocracia moderna foi concebida para pessoas que cabem numa linha.
O casamento, contudo, não se destina a facilitar o trabalho dos funcionários. Visa, dirigir-se aos noivos; mas, em determinadas sociedades, destina-se também aos antepassados, aos descendentes ainda inexistentes e à conservação daquela respeitável continuidade familiar que transforma o matrimónio numa espécie de assembleia-geral da História. Dois jovens amam-se, ou esperam vir amar-se, e à sua volta instala-se um cortejo de mortos ilustres, todos silenciosamente interessados no êxito da operação.
É possível que, no momento dos votos, os noivos sintam a emoção simples e humana que torna um casamento digno de ser celebrado. Desejo-o com toda a sinceridade. Seria lamentável que, depois de tantos séculos de preparação genealógica, a felicidade conjugal acabasse reduzida a uma nota de rodapé nos arquivos da família.
Porque é esse, afinal, o aspeto mais curioso da aristocracia: a sua extraordinária capacidade para revestir de solenidade aquilo que, visto de perto, pertence à experiência comum. Casar, ter filhos, constituir família, envelhecer, discutir por pequenas coisas, reconciliar-se e procurar a felicidade são ocupações que não distinguem um príncipe de um plebeu, uma condessa de uma professora ou um duque de um mecânico. A diferença começa quando alguns desses atos são acompanhados por títulos e outros apenas por contas para pagar.
O plebeu casa-se; a aristocracia celebra uma aliança. O plebeu apresenta a família; a aristocracia exibe uma linhagem. O plebeu recorda os avós com ternura; a aristocracia parece exigir-lhes uma certidão de nobreza. E, no entanto, diante da doença, da desilusão ou da morte, toda essa arquitetura de distinções se revela tão frágil como a dos restantes mortais. A sepultura, essa instituição admiravelmente republicana, não costuma reservar um compartimento especial para os títulos.
Não quero com isto diminuir a importância da memória familiar. Todos temos antepassados, histórias e nomes que merecem ser preservados. O que me diverte é a ideia de que a antiguidade de uma família possa funcionar como certificado permanente de excelência, mesmo quando o presente não se dá ao trabalho de confirmar as qualidades do passado. Há apelidos que atravessam os séculos com a dignidade de uma biblioteca; outros parecem atravessá-los como móveis herdados, demasiado pesados para serem deitados fora e demasiado antigos para serem utilizados.
A boda de Dinis será, estou certo, uma bela ocasião. Haverá flores, música, emoção e, espero, uma abundância de alegria que torne irrelevante a extensão dos apelidos. Os noivos merecem os meus votos sinceros de felicidade, saúde, ternura e longa cumplicidade. Que se amem pelo que são, e não pelo que os respetivos antepassados foram; que possam rir de si mesmos, virtude necessária sobretudo a quem nasceu rodeado de pessoas dispostas a tratá-los como uma instituição.
Quanto a mim, comparecerei, se para tanto for convidado (estou certo de que sim), com a tranquilidade de quem não precisa de apresentar a árvore genealógica à entrada. Levarei comigo a minha condição de homem simples do povo, os meus anos de estudo e a convicção, talvez ingénua, de que a dignidade humana não melhora com o comprimento de um nome.
E, se alguém me perguntar de que ilustre casa provenho, responderei que venho da casa comum dos que trabalham, estudam, pagam impostos e aguardam, com resignação democrática, que os seus representantes se lembrem de os governar bem, nunca sabendo se será pedir demais.
Não tenho brasão, reconheço. Mas tenho uma vantagem de ninguém me exigir que faça manutenção heráldica.
Aos noivos, pois, os meus parabéns. Que a felicidade lhes seja generosa e que a vida lhes ensine aquilo que nenhum título pode garantir: que o amor romântico não reconhece precedências, que o carácter não se transmite por herança e que, no fim, a única nobreza verdadeiramente respeitável é aquela que cada um consegue demonstrar pelos seus atos.
Quanto ao resto, a História que o arquive.















