O país arde. E não é só no sentido figurado. Os incêndios consomem mato, casas e esperança. Os hospitais fecham urgências como mercearias ao Domingo. As escolas reabrem com alunos, mas sem professores — uma espécie de teatro sem atores. E, no meio deste cenário digno de tragédia grega, a Assembleia da República debate… beijos.
Sim, leu bem. Beijos. Não os que unem casais em noites de verão, nem os que se trocam em romarias ou festas populares. Beijos parlamentares. A deputada Isabel Moreira queixou-se de ter recebido beijos — não físicos, mas gestuais — do deputado Filipe Melo, durante o plenário. O presidente da Assembleia, homem de pulso firme e zelo institucional, remeteu o caso à Comissão da Transparência. Porque, evidentemente, o país exige respostas. E talvez um regulamento para os lábios.

Jurista
A República, essa senhora de idade avançada, já viu de tudo. Mas talvez nunca tenha sido tão beijada — e tão pouco cuidada
Enquanto os bombeiros combatem chamas com meios escassos, os médicos fazem turnos dignos de maratonistas e os professores esperam nomeações como quem esperas por cartas no tempo dos correios, os nossos representantes entretêm-se com dilemas sentimentais. A Assembleia, esse palco de indignações súbitas e discursos inflamados, parece cada vez mais um salão de chá onde se discute o tom dos afetos e a gramática dos gestos.
Talvez devêssemos instalar um semáforo emocional no hemiciclo. Verde para sorrisos, amarelo para piscadelas, vermelho para beijos. Ou criar uma nova comissão: a dos Sentimentos Republicanos. Poderia avaliar olhares prolongados, suspiros suspeitos e, quem sabe, emojis trocados entre bancadas.
O povo, esse eterno espetador, assiste. Entre uma urgência encerrada e uma aula cancelada, entre o fumo dos incêndios e o silêncio das soluções, o povo vê os seus representantes debaterem beijos com a solenidade de quem discute tratados de paz. Portugal não está em crise. Está em flirt.
E assim seguimos, entre labaredas e afetos, entre a tragédia e a comédia. A República, essa senhora de idade avançada, já viu de tudo. Mas talvez nunca tenha sido tão beijada — e tão pouco cuidada.
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