O Algarve prenunciou fundações da ordem política portuguesa. E ajudou à sua consolidação. Numa “Nova História”, em que a geopolítica é seu suporte, o respeito que a ordem política portuguesa devia prestar ao Algarve é a consagração constitucional de um território histórico de estatuto particular.
A palavra “Primor” relembra primeiro. Ou primórdio. Só o “mor”, por sua vez, associa-se a guarda, cuidado, custódia, se pensarmos em mordomia. Sim. O Algarve é tudo isso. Com acerto, a expressão recorda os ciclos agrícolas algarvios que aportam frutas e legumes mais prematuramente amadurecidos comparativamente ao restante território português. Com o seu inerente valor comercial e de mercado. Mas também de confiança na sua qualidade.
Nas apresentações, contributos e conclusões associadas ao recente livro “Viagem ao Reino do Algarve”, é muito injusto não o associar a um outro, também de minha autoria, “Portugal Geopolítico”, de 2021. Complementam-se. Convida-se o leitor a conhecer melhor o Algarve, conhecendo Portugal. E vice-versa. O todo explica a parte e a parte acrescenta valor ao todo.

Pode o Algarve ser entendido como primórdio em relação a Portugal, enquanto unidade geopolítica? Com valores inerentes associados a uma espécie de pioneirismo, inovação ou prematuridade? Este desafio é único na História de Portugal. E transporta-nos para horizontes muito vastos em relação ao que foi o Algarve na sua história, identidade e atualidade.
Suspeita-se de algo. É consabido que o “Al-Gharb el Andalus”, deu origem ao nome Algarve. Também que o“ Gharb” seja referencial de Oeste relacionado com o pôr do sol, o Ocidente. Ora, desde o Império Romano, viajar para Oeste significava uma abordagem imperial e geopolítica de expansão territorial e comercial. Tradição continuada pelos sucessivos califados muçulmanos. O “Gharb” significava os limites do mundo conhecido até ao Oceano. E de periferia consequente.
Atente-se no mapa de 1085 apresentado pelo historiador espanhol Eduardo Moreno em “España diversa”, livro de 2024. Cerca de 25 anos antes do nascimento de Afonso Henriques. Ou de 60 antes do Tratado de Zamora. Retrata a situação política peninsular nas lutas territoriais entre cristãos e muçulmanos, reinos e taifas.

A taifa “Algarve” surge assinalada com o número 5. A de Silves com o número 4. Verifica-se que a fragmentação política é mais evidente do lado muçulmano e junto ao mar Mediterrâneo. O nome Algarve, prévio “Gharb” significa uma unidade geopolítica que, sendo então mais reduzida, ainda hoje mantém o seu nome e supera toponímias de localidades, sejam hoje grandes centros urbanos, como Badajoz, Sevilha ou Granada ou pequenas cidades, como Silves, Niebla ou Ronda.
O que significa o “primor” ? Simplesmente que a fragmentação política no Algarve ligada ao mar e suas forças impulsionadoras de transporte, comércio, monetarização e tributação, com consequente necessidade de ordem política, anunciam e prenunciam o que vai acontecer a seguir na fundação de Portugal. Fragmentação do reino de Castela e Leão. Expulsão gradual militar da taifa de Badajoz para o interior da Península. Apoderamento do litoral marítimo. Até aos limites a Sul possíveis.
Mas não só. Podemos em Portugal Geopolítico ir um pouco mais longe e às raízes de um modo de ser, de práticas, de formas de organização coletiva que encontram no Algarve uma experimentação cuidada, uma disciplina atenta, uma reiteração. Acabando por fundar uma identidade geopolítica. A geografia periférica do Algarve, seu litoral, rios e mar, na transição entre os mundos atlântico e mediterrâneo ajudam a explicar Portugal.
Na verdade, a primeira forma de organização política, os bandos, desenvolveram modos de vida nómadas com vantagem no Algarve, com rios, lagoas e mar abundantes que possibilitavam peixe, moluscos e mariscos. A sua condição periférica aportou-lhes experiência em movimentos migratórios de longo alcance tendo como suporte a proximidade de água potável.
Estas formas rentáveis comportaram uma transição suave para a agricultura sedentária, convivendo com ela em modos de vida plurais, híbridos e adaptativos. Redes de comércio e mercados, sejam locais ou marítimos deram valor ao sal para conservação de alimentos, à madeira no transporte fluvial e marítimo, à energia hidráulica em moinhos, azenhas e noras na produção transacionável pelo mar acrescentando valor à propriedade móvel e sua oportunidade de tributação.
A água, seu aproveitamento e domínio político ou religioso individualiza o Algarve. Pense no nome de pequenos lugarejos, como Fonte Santa ou da Benémola, Poço do Bispo ou de Boliqueime ou Olhos de Água. Ou ainda do nome de municípios como Lagos, Lagoa, Albufeira ou Olhão. Nenhuma outra província do país tem esta proporção toponímica de água. O legado histórico de uma identidade hidrológica.
A necessidade de ordens políticas encontra aqui fundações, sejam apoiadas em Impérios com forças militares que garantam aquela segurança ou em corpos mais descentralizados e localizados quando aqueles sucumbem. O desmembramento do Califado de Córdova em 1031 é o acontecimento fundador das taifas muçulmanas no Algarve em época de grande estabilidade climática e expansão comercial nos séculos XI-XIII. Estes prenúncios ajudam a compreender Portugal.
Quando a ordem política portuguesa começa a construir o seu Império a partir da conquista de Ceuta em 1415 e com o início dos Descobrimentos, automaticamente é reconfigurada a ordem política Reino do Algarve como de Aquém e Além-Mar como titulatura real. Terá sido Afonso V o primeiro rei a utilizá-la.
Já tinham sido dados os primeiros passos de acolhimento por Portugal da diversidade étnica, cultural e religiosa dos mouros no Algarve nos séculos XIII-XV. Tendo como modelo o primeiro foral de Silves em 1266. A História encarregar-se-ia de lhe dar sequência.
O Algarve constituiu, assim, o primeiro laboratório, a primeira experiência, o primeiro repositório anunciador da vontade portuguesa em acolher, assimilar e integrar diversidade na sua ordem política. Para África e outros limites desconhecidos. Na construção do seu Império por várias periferias próximas e distantes. Sim. O Algarve continuaria a ser periferia de Impérios. Como outrora para Roma ou Meca, Lisboa seguir-se-ia.
A imagem seguinte é um conjunto, uma composição. À esquerda, o primeiro mapa conhecido de Portugal de Fernando Álvaro Secco, por volta de 1560. À direita uma figuração de Sagres no século XIX. Sagres tem fundamental importância para a História de Portugal. Como limite ocidental milenar do mundo conhecido euro-asiático. Como periferia religiosa e de peregrinação para São Vicente.

Atente-se na precisão da longitude do litoral algarvio em relação ao restante território português. A medição da longitude tornou-se um assunto vital da ordem política portuguesa após o Tratado de Tordesilhas de 1494, com bênção papal, que consagrava uma linha até 370 léguas marítimas a Ocidente de Cabo Verde como área de influência política de Portugal face a Castela e Aragão.
Os historiadores geógrafos, todavia, apontam que o mapa de Fernando Secco se inspirou num outro, perdido, onde terão sido inventariados com longitude e latitude cerca de 1450 lugares em Portugal no primeiro quartel do século XVI. Esse trabalho, próprio de um investimento público no conhecimento e controlo do território pela ordem política portuguesa foi pioneiro e avançado para a época, fazendo parte de um desejo de afirmação de controlo político em terra e no mar, com mais interesse neste último, atendendo às vocações imperiais marítimas de Portugal.
Este trabalho está reproduzido no Códice de Hamburgo de 1525 acessível em https://ceg.igot.ulisboa.pt/node/1788 por trabalho meritório da geógrafa Suzanne Daveau e do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa.
O Reino do Algarve surge compilado à parte. O que se regista é o extraordinário acerto da longitude algarvia. Seguramente baseado em registos atentos de astrónomos, cartógrafos e matemáticos baseados em observações de homens do mar em eclipses lunares e distâncias da lua em relação às estrelas, consoante conhecimentos da época, teve epicentro no Cabo de São Vicente que servia de base ao cálculo para movimentos a Norte-Sul e Este-Oeste.
Assim ,esta periferia algarvia, mais do que uma Escola de Navegação, mito construído durante o Estado Novo, foi um laboratório de ensaios geográficos e cartográficos que ajudou a ordem política portuguesa a estabelecer sua área de influência no mundo, permitindo que Brasil e algumas partes de África e Oriente hoje falem português. Um património de valor nacional e universal em Sagres. Um contributo assinalável para o turismo histórico no Algarve.
A periferia nas ordens políticas, assinalou sempre vários papéis: como localização onde os Impérios têm de se adaptar, face à diversidade que desejam assimilar, onde, também, as hegemonias da ordem política são desafiadas, com “mouros na costa”, para pirataria, corso e captura de escravos, constituindo, finalmente, sítios críticos onde ocorrem mudanças e processos que transformam os Impérios.
E, concluo, exatamente, com esta asserção: o turismo no Algarve, outro primor de Portugal, é a periferia que a ordem política portuguesa deve estar especialmente atenta. Na internacionalização da sua ordem económica, na tributação da riqueza produzida e intermediada, nas políticas públicas territoriais. Mas, também, nas suas expressões eleitorais. Podem ser prenúncios. Desafios. Mudanças de processos. Que merecem cuidado e atenção.
Nesta “nova História”, o respeito que a ordem política portuguesa devia prestar ao Algarve é a consagração constitucional de um território histórico de estatuto particular. Com amplo debate e participação pública, poderiam configurar-se novos caminhos de restauração de uma condição natural, ou seja, de uma periferia com dignidade. No seu devido lugar. E em contribuição e redistribuição justas. Com Portugal e com o Mundo.
Sobre o autor: Virgílio Machado é professor adjunto na Universidade do Algarve e autor dos livros “Viagem ao Reino do Algarve” e “Portugal Geopolítico”.
Leia também: O Algarve no mapa político (viagem histórica reinante) | Por Virgílio Machado
















