Vivemos numa era em que o mercado foi erigido a divindade suprema. O lucro tornou-se o altar e os cidadãos meros fiéis sacrificados. O dogma é simples: cada um por si, e quem não conseguir acompanhar o ritmo que seja descartado. Mas quando esta lógica invade a saúde, o resultado é brutal: vidas humanas transformadas em números de faturação, numa negação da solidariedade e da justiça que deve existir numa comunidade que se pretenda coesa e sobreviva enquanto tal.
Um hospital deve ser visto como espaço de cura, não como empresa. Um médico deve ser guardião da vida, não um simples prestador de serviços. Um paciente deve ser visto como um cidadão, não como um cliente.

Jurista
A saúde não pode ser mercadoria. É um direito humano fundamental, tão essencial como a liberdade ou a dignidade. Uma sociedade que não garante cuidados médicos universais trai os seus cidadãos
O agricultor que alimenta, o operário que constrói, o professor que ensina, o empregado de limpeza que mantém o espaço digno — cada um deles contribui para o bem comum. A saúde é o fio que liga todos, porque sem ela nenhum destes papéis pode ser desempenhado plenamente. Devem, por isso, ter acesso à saúde, não como favor, mas como direito inalienável.
Defender a saúde pública é um ato político. É enfrentar o dogma neoliberal que idolatra o mercado e despreza a solidariedade. É afirmar que o Estado existe para proteger, não para vender.
Quem diz que “não há dinheiro” para hospitais, mas há sempre milhões para resgatar bancos ou armamento, revela a perversão do sistema. O problema não é falta de recursos, é falta de vontade política.
Num tempo em que o mercado é adorado como deus, defender a saúde pública é um ato de resistência. É recusar a lógica do lucro sobre a vida. É afirmar que sem solidariedade não há sociedade, apenas selva.
A saúde é o campo onde se decide se queremos viver como comunidade ou como consumidores descartáveis. A escolha é clara: ou defendemos a saúde como direito universal, ou aceitamos a barbárie do cada um por si.
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