Portugal vive uma crise da habitação, mas os números revelam um país de profundos contrastes. Enquanto em Lisboa a renda mediana de um novo contrato para uma habitação de 100 m² atinge os 1.688€ mensais, em cerca de metade dos municípios portugueses (140) não ultrapassa os 600€.
As diferenças são expressivas. Cascais (1.620€), Oeiras (1.503€), Porto (1.413€) e Funchal (1.320€) estão entre os municípios mais caros. No extremo oposto, encontramos Bragança (463€), Portalegre (437€) e Vila Flor (255€). Entre Lisboa e Vila Flor, a diferença é superior a seis vezes.
Esta realidade reflete um problema estrutural do país: o centralismo e a crescente concentração da população e da atividade económica nos grandes centros urbanos, em contraste com o despovoamento e a perda de dinamismo de muitos territórios do interior.
A concentração de empregos, empresas, universidades e serviços nas grandes áreas metropolitanas atrai população e aumenta a procura de habitação. Quando a construção não acompanha esse crescimento, os preços disparam. Entretanto, muitos municípios do interior enfrentam o desafio oposto: a perda de habitantes, o envelhecimento e a dificuldade em atrair investimento e talento.
Temos, assim, um país onde falta habitação nos territórios que atraem pessoas e faltam pessoas em muitos dos territórios onde a habitação é mais acessível.
Esta desigualdade territorial deve fazer parte do debate sobre a crise da habitação. Os indicadores nacionais escondem realidades muito distintas e as soluções não podem ignorar as especificidades de cada município.
Nos territórios mais pressionados, é fundamental aumentar a oferta de habitação, removendo entraves à construção e promovendo maior rapidez e previsibilidade nos licenciamentos. Mas também importa combater a excessiva concentração económica e populacional, criando condições para que mais regiões consigam atrair empresas, investimento e emprego qualificado.
Resolver a crise da habitação não passa apenas por construir mais casas onde todos querem viver. Passa também por criar oportunidades para que mais portugueses possam escolher viver noutros pontos do país.

- Os factos vistos à lupa por André Pinção Lucas e Juliano Ventura – Uma parceria do POSTAL com o Instituto +Liberdade
Leia também: Portugal acumula 15 anos de atraso na construção de habitação
















